CAPÍTULO 5 – A Guardiã do Príncipe Perdido

1252 Words
A revelação da biblioteca permanecia queimando na mente de Élise como um farol impossível de ignorar. Mesmo depois de horas, dias, a sensação de ter atravessado uma porta que não deveria se abrir ainda pesava em seus ombros. O diário de Myrielle, suas palavras escritas com um traço delicado, pareciam murmurar segredos cada vez que Élise fechava os olhos. August não é apenas um menino. Ele é um herdeiro. Um símbolo. E um alvo. Essas eram as entrelinhas que Myrielle parecia deixar gravadas nas páginas. Mas naquela manhã, era apenas August quem a esperava no quarto — sentado no tapetinho verde, os blocos espalhados ao redor, os cabelos negros desalinhados, o rosto iluminado por uma claridade suave que entrava pelas janelas altas. — Bom dia, August — disse ela, aproximando-se com cuidado. Ele olhou para ela, apenas um segundo, antes de voltar a alinhar as peças. Mas esse pequeno gesto já era mais receptivo do que os primeiros dias. Ele a reconhecia agora. Não como alguém que cuidava dele, mas como alguém que fazia parte de seu pequeno universo silencioso. Élise sentou-se ao lado dele, suas pernas cruzadas, e pegou um bloco azul. August observou o movimento, depois deslizou seu bloco vermelho alguns centímetros para mais perto dela. Um gesto minúsculo. Mas enorme. — Sabe… — Ela escolheu as palavras devagar, como se estivesse construindo também com blocos —, as pessoas importantes deixam coisas importantes para trás. E acho que sua mãe deixou algo muito especial. Deixou você. E você… — ela sorriu — é extraordinário, August. Ele piscou lentamente. Tocou o bloco azul na mão dela. E, pela primeira vez, permitiu que ela colocasse sua peça ao lado da dele, como se estivessem compartilhando um mundo que só os dois entendiam. O coração de Élise amoleceu. Eu vou proteger você, ela pensou. Mesmo sem entender tudo, eu vou proteger. Quando desceram para o café da manhã, Cassian já estava lá. Mas ele não parecia o duque impenetrável de sempre. Havia sombras sob seus olhos, a postura rígida demais, o queixo apertado. A tensão o envolvia como uma segunda pele. Ele ergueu o rosto ao ver os dois entrando juntos — August caminhando ao lado de Élise sem hesitação. — Ele saiu com você de novo… — disse Cassian, a surpresa m*l velada. — Ele está se acostumando — respondeu Élise, tentando não demonstrar o orgulho que sentia. Cassian encarou o filho como se tentasse memorizar aquele momento. E então voltou sua atenção para ela. — Preciso falar com você depois do café — disse, de forma séria demais para ser ignorada. Ela assentiu, sentando-se à mesa. Cassian observou cada microgesto de August, como se buscasse garantir que ele estava seguro, confortável. Era um olhar constante, mas não controlador. Era… protetor. Profundamente. Um pai que tinha medo de perder de novo. Mais tarde, quando August estava no jardim com a governanta — desenhando na terra com um graveto e coletando folhas caídas — Cassian chamou Élise para o solário, um lugar amplo com janelas que davam para os campos prateados que cercavam a Maison Elsemar. Ele estava de costas para ela, segurando uma pasta preta nas mãos. Quando se virou, seus olhos cinza-prateados tinham uma firmeza diferente. Como se tivesse tomado uma decisão. — Você precisa saber exatamente o que está envolvida — disse ele. — Não quero que fique cega no meio disso. — Cassian… — começou Élise, mas ele levantou a mão. — Não. Preciso que você me escute agora. Ela engoliu em seco. — Tudo o que Myrielle escreveu… tudo o que está naquele diário… é verdade. August é o herdeiro direto de uma linhagem antiga, uma das famílias fundadoras de Velançay. E há outras famílias que disputam poder, influência e… — ele respirou fundo — territórios que pertenciam ao clã Elsemar desde séculos atrás. Élise franziu o cenho. — Você está me dizendo que existe uma disputa política em torno de um menino de três anos? Cassian fechou a pasta com um estalo seco. — Ele não é um menino qualquer, Élise. Ele é o último descendente direto da linhagem sanguínea original. A única linha pura restante. — Cassian caminhou até ela, devagar. — E foi por isso que Myrielle morreu. O mundo de Élise parou. — O quê…? — A voz dela falhou. — Ela foi… assassinada? Cassian apertou os olhos, como se o próprio ato de dizer fosse doloroso. — Oficialmente, foi um acidente de carruagem moderna. Mas havia marcas… e evidências… que indicavam que Myrielle estava tentando escapar de alguém. Com August. — Ele respirou fundo. — Ela deu a vida para salvá-lo. Havia algo quebrado na voz dele. Algo humano. Algo que ele escondia atrás da perfeição de duque, CEO, aristocrata intocável. Cassian ficou em silêncio por um momento, até encontrar forças para continuar: — E agora… eles sabem que August está mostrando sinais. Sinais que podem confirmar a profecia. Élise sentiu o estômago apertar. — Que sinais? — A forma como ele percebe padrões. A forma como ele organiza o mundo. A forma como ele vê o que ninguém vê. Pessoas o chamariam de “diferente”. Mas, na linhagem Elsemar… — ele a encarou profundamente — isso é chamado de “olhar prateado”. Uma mente capaz de decifrar o que está oculto. Uma habilidade rara. Temida. Disputada. A revelação caiu sobre ela como um trovão silencioso. Élise respirou fundo. — Cassian… por que me contar tudo isso? Ele hesitou. O duque que nunca hesitava. — Porque desde que você chegou… August mudou. — Sua voz era baixa, mas firme. — Ele fala. Ele caminha ao seu lado. Ele te deixa tocá-lo. Ele te escuta. E isso significa que você… é importante demais para ignorar. Os olhos dele estavam fixos nela, intensos. — Você pode ser a única pessoa capaz de ajudá-lo a controlar… isso. E a protegê-lo. Myrielle acreditava que alguém assim apareceria. Ela escreveu isso no diário. — Escreveu? — Élise m*l conseguia respirar. — “Uma mulher de fogo. Cabelos que queimam como esperança. Ela será a guardiã do meu filho.” — Ele recitou de memória. Élise levou a mão à boca. A pele do braço se arrepiou inteira. Era coincidência demais. Casualidade demais. Destino demais. Cassian deu um passo à frente. — Eu não sei se acredito em profecias. — A voz dele estava rouca. — Mas acredito no que vejo. E o que vejo é que você mudou a vida do meu filho. Em dias. Coisa que ninguém conseguiu em anos. Ela sentiu o coração acelerar, uma mistura de medo, responsabilidade e algo que ela não queria nomear. — Cassian… isso é muita coisa. Eu não sei se— — Eu não estou pedindo que você seja parte dessa guerra. — ele a interrompeu, com um tom mais suave. — Estou pedindo que continue sendo você. Continue sendo… o que August precisa. Silêncio. O tipo de silêncio que pesa, mas também conecta. Cassian desviou o olhar, quebrando o momento. — Há um encontro importante amanhã. Reunião com outras famílias. Vou ter que ir. Só posso pedir que… fique perto dele. Que não deixe ninguém se aproximar. Principalmente estranhos. Ela assentiu, firme. — Não vou deixá-lo sozinho. Nenhum dos dois. Cassian a encarou de novo. Algo brando, quase imperceptível, suavizou seus olhos cinzentos. — Obrigado, Élise. E pela primeira vez desde que o conhecera, ela viu o duque sorrir. Um sorriso pequeno, involuntário. Quase tímido. Um sorriso que carregava vulnerabilidade. E esperança.
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