Os dias seguintes no resort começaram a adquirir uma cadência própria. Não eram apenas dias de descanso; eram dias de construção silenciosa. Como se, sem perceber, Manuela e eu estivéssemos erguendo algo sólido em meio ao luxo, ao mar e àquela atmosfera de irrealidade que lugares assim costumam oferecer.
Acordávamos juntos quase todas as manhãs. Às vezes cedo, outras vezes tarde demais para o horário do café principal. Havia dias em que ficávamos na cama conversando, sem qualquer pressa, observando a luz entrar pelas cortinas, tocando a pele um do outro com a naturalidade de quem já se reconhece.
Manuela tinha esse dom raro de transformar o banal em íntimo.
— Você sempre foi assim? — ela me perguntou certa manhã, enquanto se apoiava no travesseiro, desenhando distraidamente linhas invisíveis no meu peito.
— Assim como?
— Calmo. Presente. Como se estivesse realmente ali.
Pensei por alguns segundos antes de responder.
— Não — disse, com honestidade. — Eu aprendi a ser assim depois de perder quase tudo.
Ela me observou em silêncio, com aquele olhar atento que nunca julgava, apenas acolhia.
— Talvez por isso eu me sinta segura com você — respondeu. — Você não parece alguém que foge.
Essa frase ficou comigo o resto do dia.
À noite, quase sempre havia algum evento. Jantares organizados por parceiros da Manuela, encontros com investidores, pequenos coquetéis sofisticados que começavam com conversas triviais e terminavam em risadas controladas, taças de vinho caro e alianças sendo firmadas com apertos de mão firmes.
Manuela circulava por esses ambientes com uma elegância que não era ensaiada. Ela não precisava se impor — as pessoas naturalmente a ouviam. E, pela primeira vez em muito tempo, eu não me sentia deslocado ao lado de alguém tão forte. Pelo contrário: sentia orgulho.
Era curioso perceber como nos apresentávamos.
— Leonardo, meu companheiro.
Não namorado. Não marido. Mas algo que soava mais profundo do que qualquer rótulo.
As pessoas nos observavam. Eu percebia. Não por curiosidade banal, mas por aquele tipo de atenção que nasce quando dois corpos caminham em sintonia. Quando há algo visível, ainda que não explicado.
Em um desses jantares, sentados lado a lado em uma mesa longa, Manuela se inclinou levemente em minha direção e sussurrou:
— Você percebe como eles nos olham?
— Percebo.
— Parece que estamos contando uma história sem abrir a boca.
Sorri.
— Talvez estejamos.
Depois do jantar, caminhamos pelo jardim iluminado por luzes baixas. O som distante do mar nos acompanhava, assim como o perfume das flores noturnas.
— O que você espera do futuro, Leonardo? — ela perguntou, de repente.
Parei de andar.
— Você quer a resposta honesta ou a resposta segura?
Ela sorriu de canto.
— A honesta.
Respirei fundo.
— Eu espero acordar ao lado de alguém que me escolha todos os dias. Sem promessas grandiosas, sem ilusões. Só presença.
Ela segurou minha mão com mais força.
— Eu espero exatamente a mesma coisa.
Naquela noite, voltamos para o quarto mais próximos do que nunca. Não era apenas desejo. Era cumplicidade.
Nos dias seguintes, começamos a criar pequenos rituais. Café juntos na varanda. Caminhadas ao entardecer. Banhos demorados depois da praia. Manuela gostava de escolher minhas roupas para os eventos, ajeitar minha gola, alinhar minha gravata como se aquilo fosse um gesto íntimo demais para ser ignorado.
— Você fica lindo de azul escuro — ela comentou certa vez.
— Eu fico bonito ou você me olha com carinho?
Ela riu.
— Um pouco dos dois.
Houve um almoço específico, em um restaurante reservado apenas para convidados especiais do resort. Uma mesa à beira de um penhasco, o mar abaixo de nós, taças de cristal refletindo o sol.
Durante a sobremesa, Manuela ficou em silêncio por alguns minutos.
— Em que você está pensando? — perguntei.
— Em como tudo isso me assusta — confessou. — Não de um jeito r**m. Só… intenso.
— Também me assusta — admiti. — Mas é um medo bom. Aquele que diz que algo importa.
Ela assentiu.
— Eu passei muitos anos achando que estabilidade era o suficiente. Agora percebo que não é.
— O que mais você quer?
Ela me olhou com seriedade.
— Eu quero parceria. Alguém que me veja além da empresária, além da mulher forte. Alguém que me deixe ser frágil sem medo.
Aproximei minha cadeira da dela.
— Você pode ser tudo isso comigo.
Naquela noite, não houve evento algum. Ficamos no quarto, pedimos jantar ali mesmo. Comemos sentados no chão, rindo de histórias antigas, compartilhando memórias que nunca haviam sido ditas em voz alta para mais ninguém.
Manuela me contou sobre os primeiros anos após o divórcio. Sobre o silêncio da casa grande. Sobre a culpa de não ter sido mais presente em alguns momentos da infância da filha. Falou com a voz baixa, mas firme.
— Eu tentei ser tudo ao mesmo tempo — disse. — Mãe, empresária, mulher independente. Esqueci de ser apenas humana.
Toquei o rosto dela com cuidado.
— Você é humana. E é suficiente.
Ela fechou os olhos por alguns segundos, como se aquelas palavras precisassem ser absorvidas devagar.
Os dias avançaram assim: suaves, profundos, cheios de significado. Não havia urgência, mas havia direção. Falávamos sobre viagens futuras, sobre pequenas manias, sobre como seria acordar juntos em uma rotina comum — longe daquele paraíso artificial.
— Você se imagina dividindo a vida com alguém de novo? — ela perguntou certa noite, enquanto observávamos o céu estrelado da varanda.
— Com você, sim.
Ela sorriu, encostando a cabeça no meu ombro.
— Eu também.
Naquele resort de luxo, entre jantares impecáveis e dias ensolarados, não foi o conforto que nos aproximou.
Foi a verdade.
E eu sabia — com uma clareza tranquila — que aqueles dias não seriam apenas lembranças bonitas.
Eles estavam se tornando alicerces.