A noite caiu sem pedir licença. Depois do jantar, a casa parecia diferente — não porque algo tivesse mudado fisicamente, mas porque havia presença. A dela. Como se cada canto tivesse sido suavemente ocupado por Manuela sem esforço algum. O sofá ainda guardava o calor de onde havíamos passado a tarde inteira, a cozinha carregava o cheiro leve do jantar, e eu tinha a estranha sensação de que aquele apartamento, pela primeira vez em muito tempo, fazia sentido. Fechamos a porta da varanda. O silêncio que ficou não era vazio. Era cheio. Denso. Convidativo. Manuela tirou os sapatos devagar, como se estivesse se permitindo ficar. Caminhou descalça pelo tapete, observando o ambiente com olhos atentos, curiosos, íntimos demais para alguém que não morava ali. — Gosto da sua casa à noite — disse.

