O domingo começou a escurecer devagar, como se o dia estivesse com pena de ir embora. A luz do fim de tarde entrava pela janela da cozinha num tom dourado suave, iluminando partículas de poeira no ar e deixando tudo com cara de cena de filme europeu antigo. Manuela estava sentada no balcão, balançando os pés, observando enquanto eu abria a geladeira. — Então… — ela disse, inclinando a cabeça. — O que o grande chef vai preparar pra nós hoje? Fechei a porta da geladeira com calma exagerada, fingindo confiança. — Algo simples. Caseiro. Comestível. — Pausei. — Provavelmente. Ela riu, aquele riso fácil que parecia ter sido feito sob medida para preencher a casa. — Eu posso ajudar — disse, já descendo do balcão e indo lavar as mãos. — Mas aviso logo: minha especialidade é atrapalhar. — Ót

