capitulo 8 Kael e iris o embate .

2659 Words
O asfalto da Vieira Souto estava tinindo sob o calor residual de um dia escaldante, refletindo as luzes amareladas dos postes como se a avenida fosse uma imensa lâmina de vidro escuro e temperado. Eu precisava daquele ar salgado. O galpão da Boca estava me sufocando; o cheiro de óleo diesel, as planilhas de contabilidade que nunca batiam e o rosto decepcionado da minha coroa estavam criando uma pressão na minha cabeça que só o vento da orla conseguia aliviar. Eu estava no meu sedã blindado, o motor roncando baixo, em um anonimato que eu só conseguia ter ali. Lá no alto do Pedra Bruta, eu sou o Arquiteto, o alvo, o juiz. Aqui embaixo, eu era apenas mais um vulto em um carro caro, camuflado entre a elite que tanto nos despreza mas consome o que produzimos. Minha mente estava a mil por hora, recalculando a logística da carga de amanhã e pensando em como neutralizar o Breno sem causar uma guerra civil no morro, quando o fluxo do trânsito parou de uma vez, como se tivesse batido em um muro invisível. Meus reflexos são de bicho do mato, forjados em fugas e cercos, mas a física não perdoa. O impacto foi seco. Um esturro metálico que fez o meu SUV de duas toneladas balançar, as rodas rangendo contra o asfalto. — Caralho... — resmunguei, sentindo a adrenalina disparar instantaneamente, aquele formigamento familiar nas pontas dos dedos. Eu não desci logo de cara. No meu mundo, uma batida no trânsito pode ser a primeira cena de uma emboscada. Olhei pelos retrovisores, chequei os pontos cegos, a mão deslizando instintivamente para o espaço entre o banco e o console. Nada. Apenas o caos frenético de um engarrafamento carioca. Foi quando eu ouvi o grito. Não era um grito de medo, nem aquele desespero agudo de quem se machucou. Era um grito de puro ódio, agudo, autoritário, de quem não aceitava ser interrompida. Abri a porta e saí, já preparando o meu semblante de gelo, aquele olhar de "não me faça perder meu tempo" que eu usava para despachar subordinados ou negociar com corruptos. Mas quando contornei a traseira do meu blindado, o cenário mudou. Bati o olho naquela ruiva e o meu sistema deu um pane. Ela estava batendo no meu capô com os punhos cerrados, deixando uma marca de sangue o sangue dela no metal preto impecável. O cabelo dela era um incêndio vivo sob os postes, uma cascata de fogo que contrastava violentamente com a brancura asséptica do jaleco. Ela estava sangrando na testa, o rosto manchado, o jaleco amassado, mas a postura dela era de quem mandava no mundo inteiro. Ela não estava intimidada por um SUV blindado ou por um homem que carregava a escuridão nos olhos. Ela estava furiosa. — VOCÊ TÁ CEGO, SEU i****a? — ela berrou na minha cara, as veias do pescoço saltadas. Eu a observei por um segundo a mais do que o necessário. A doutora estava desmoronando por dentro, eu sentia o tremor nas mãos dela, mas ela não recuava um milímetro. Vi o celular caído no chão do carro dela, ainda com a tela acesa. Ela estava no telefone, provavelmente controlando a vida de alguém enquanto tentava controlar o trânsito. O deboche subiu pela minha garganta como um mecanismo de defesa, mas por dentro, eu estava hipnotizado. Aquela ruiva exalava uma mistura de pureza de hospital com uma agressividade bruta que eu só via em quem já tinha visto o inferno de perto e decidiu que não ia se curvar para o d***o. — Dirigindo e falando ao celular? — soltei, inclinando a cabeça com um cinismo que eu usava como armadura. — É assim que vocês salvam vidas agora, "doutora"? Com uma mão no volante e a outra na fofoca? Ela avançou. O peito dela subia e descia rápido, o cheiro de antisséptico, café e perfume caro me atingindo como um soco. O fogo nos olhos dela era algo que eu não via há anos; não era medo, era fogo puro. Pensei comigo: c*****o, essa mulher é um problema. O tipo de problema que te consome inteiro. Eu podia ter resolvido aquilo em dois minutos, mas eu queria ver até onde aquela marra ia. Ela me chamava de culpado, de irresponsável, gritava sobre leis de trânsito enquanto o próprio sangue escorria pela mandíbula, pingando no asfalto. Ela era a Arquiteta da Ordem dela, e eu tinha acabado de implodir o projeto da noite dela. — Você fala de tempo como se fosse a dona dele — continuei, mantendo a voz grave, vendo ela tremer de raiva sob o jaleco. — Mas olha só para você... presa aqui no asfalto, sangrando e gritando com um estranho. Sua "autonomia" acaba onde o meu para-choque começa. Aceita logo que você errou, boneca. Fica menos feio do que esse seu showzinho de histeria. Eu sabia que estava sendo um desgraçado, mas ver a reação dela, o ódio genuíno e a força que ela tinha mesmo ferida, mexeu com algo que eu achava que estava morto em mim. O Arquiteto em mim via um obstáculo, mas o homem... o homem só conseguia pensar que aquela ruiva era a coisa mais viva que eu já tinha visto em todo o Rio de Janeiro. O asfalto sob meus pés parecia pulsar na mesma frequência daquela ruiva. Eu a encarei, mantendo as mãos nos bolsos da jaqueta, em uma postura de quem tem todo o tempo do mundo, enquanto o trânsito ao redor gritava em buzinas e fumaça de escapamento. Ela era um espetáculo de fúria e jaleco branco, e o sangue que escorria pela sua testa só a deixava com um ar mais perigoso, mais real. — Olha só, vamos encurtar o seu show — eu disse, deixando o tom de voz sair carregado de um deboche que eu sabia que ia incendiar o que restava da paciência dela. — Eu pago o estrago. Mesmo você estando errada, distraída com esse telefone, eu assino a conta. Considera um patrocínio para a sua falta de atenção, já que a boneca parece estar com muita pressa para salvar o mundo. O rosto dela mudou de tom, um rubor de puro ódio subindo pelo pescoço. Ela deu um passo à frente, e por um segundo, achei que ela fosse tentar me acertar um tapa. O fogo nos olhos dela era quase palpável, quente o suficiente para derreter a minha blindagem. — Eu não estava errada, seu ignorante! — ela sibilou, as palavras saindo como chicotadas. — O trânsito parou e você, com esse seu tanque de guerra, ignorou qualquer distância de segurança. Não venha tentar comprar a sua culpa com esse seu ar de superioridade. Eu sou médica, eu lido com fatos, e o fato aqui é que você é um irresponsável que se acha acima das leis! Eu soltei uma risada curta, um som seco que cortou o ar pesado entre nós. O jeito que ela defendia a própria falha era fascinante, uma arrogância técnica que quase batia com a minha. Tirei um talão de cheques do bolso interno da jaqueta, peguei uma caneta e, apoiando no capô manchado pelo sangue da mão dela, rabisquei um valor que faria qualquer pessoa normal tremer as pernas. Era dinheiro suficiente para comprar dois SUVs iguais ao dela e ainda sobrar para um consultório novo no Leblon. — Esse valor está bom para você, boneca? — perguntei, destacando a folha e estendendo para ela com um sorriso torto, aquele que eu usava quando queria mostrar quem realmente mandava no tabuleiro. — Compra um carro novo, um celular com viva-voz e ainda tira umas férias para cuidar desse seu temperamento. Ela olhou para o cheque. Depois olhou para mim. Eu esperava que ela arregalasse os olhos, que o choque financeiro a calasse, como acontecia com 99% das pessoas do asfalto que se vendem por bem menos. Mas Íris Duarte não era 99% de nada. Ela era o 1% que eu não estava preparado para enfrentar. Com uma rapidez que me surpreendeu, ela arrancou o papel da minha mão. Sem hesitar por um milésimo de segundo, ela rasgou o cheque em quatro, oito, dez pedaços. A chuva de papel branco caiu sobre o asfalto sujo como se fosse neve no inferno. — Enfia esse valor no seu... — ela começou, mas a voz travou na garganta pela força do ódio. Ela não terminou a frase, mas o gesto de jogar os restos do papel na minha direção disse tudo o que eu precisava ouvir. — Eu não quero o seu dinheiro sujo de prepotência. Eu quero que você aprenda que nem tudo na vida se resolve com um talão de cheques e uma cara de p*u. Ela se virou bruscamente, o cabelo ruivo chicoteando o ar como uma labareda, e marchou em direção ao seu carro retorcido. Eu fiquei ali, parado, observando a silhueta dela se afastar. O Arquiteto em mim estava confuso; ninguém nunca havia rasgado um cheque meu na minha cara. O homem em mim, no entanto, estava em chamas. — Ei, boneca! — gritei, quando ela já estava com a mão na maçaneta. — Vê se não fala no celular enquanto está dirigindo, hein? Pode ser perigoso para as pessoas que realmente sabem usar o asfalto! Ela estancou no lugar. Eu vi os ombros dela subirem com uma respiração profunda e trêmula. Ela voltou, caminhando rápido, parando a centímetros de mim novamente, invadindo meu espaço de um jeito que ninguém ousava fazer. O dedo indicador dela quase tocou o meu peito, a pouca distância fazendo meu sangue ferver. — Para de me chamar de boneca! — ela berrou, a voz ecoando entre os prédios caros do Leblon. — Eu tenho nome, tenho profissão e tenho mais dignidade em um fio de cabelo do que você em todo esse seu blindado de merda! — Parei. Não chamo mais — repeti, erguendo as palmas das mãos em uma rendição falsa, enquanto meus olhos percorriam cada centímetro daquele rosto incendiado pela raiva. O sangue que escorria da testa dela agora começava a secar, desenhando um caminho escuro contra a pele de porcelana. Eu nunca tinha visto nada tão caótico e, ao mesmo tempo, tão perfeitamente magnético. Ela me deu as costas novamente, as mãos trêmulas enquanto tentava abrir a porta do SUV amassado. Eu fiquei ali, encostado no meu blindado, sentindo o calor do motor e o mormaço da Vieira Souto, observando-a lutar com a maçaneta. O Arquiteto em mim estava confuso; meus planos geralmente eram infalíveis, e as pessoas, previsíveis. Mas essa mulher tinha acabado de rasgar um cheque de seis dígitos e me mandar para o inferno sem nem piscar. — Passe bem, seu ogro i****a! — ela disparou, a voz saindo cortante por cima do ombro, enquanto finalmente conseguia abrir a porta. Eu soltei uma risada curta, o som se perdendo no meio do barulho das buzinas que agora formavam uma sinfonia ensurdecedora ao nosso redor. O Rio de Janeiro estava parado por nossa causa, e eu não dava a mínima. — Te vejo por aí... boneca! — gritei, incapaz de segurar a última estocada, só para ver se ela voltava. Foi o limite. Ela estancou. Vi o momento exato em que a coluna dela ficou rígida sob o jaleco branco. Ela não apenas se virou; ela avançou como um furacão, ignorando os carros que tentavam desviar. Voltou atravessando o asfalto em passos rápidos, os olhos castanhos injetados de um ódio que parecia querer me incinerar vivo. Ela parou a milímetros de mim, o dedo apontado para o meu rosto, pronta para descarregar o resto do estoque de insultos. — Você não ouviu o que eu acabei de... — ela começou, mas eu não dei tempo. Meus reflexos foram mais rápidos que a língua dela. Em um movimento fluido, segurei o pulso dela com uma mão e, com a outra, envolvi sua cintura com firmeza, puxando o corpo dela contra o meu com um solavanco. O impacto foi seco e eletrizante. Senti o calor dela, o cheiro de hospital misturado a um perfume doce e caro, e a batida frenética do coração dela contra o meu peito, como um pássaro preso. Ficamos cara a cara. Minha mão na base das costas dela a impedia de recuar, e o rosto dela estava tão perto que eu podia ver as sardas mínimas sob o sangue e a dilatação das suas pupilas. A fúria dela era palpável, mas ali, naquele contato bruto e inesperado, o ar parecia ter sumido do Leblon. — Me solta! — ela sibilou, mas a voz saiu rouca, perdendo a força de antes. — Você ficou louco? — Você grita demais para quem está no meio de uma avenida bloqueada — sussurrei, a voz saindo grave, quase um rosnar perto dos lábios dela. — E eu já te disse: eu não gosto de deixar projetos inacabados. — VOCÊS ESTÃO DE s*******m? — um motorista gritou de um carro logo à frente, colocando a cabeça para fora da janela e gesticulando freneticamente. — TIRA ESSA LATA VELHA DA FRENTE! O TRÂNSITO TÁ PARADO POR CAUSA DE VOCÊS! A gritaria ao redor explodiu de vez. O Leblon tinha virado um hospício a céu aberto. Pessoas começaram a descer dos carros próximos, apontando, alguns filmando com os celulares o "confronto" cinematográfico entre o dono de um blindado e a médica ruiva ensanguentada. O trânsito estava travado por quilômetros atrás de nós, e o meu sedã e o SUV dela eram os pivôs do colapso total da orla. — TIRA O CARRO, SEU i****a! — outro motorista berrou da calçada. — VAI NAMORAR NO MOTEL, NÃO NA RUA! Íris tentou se soltar com um empurrão, o rosto agora vermelho de uma mistura de raiva e uma vergonha que ela tentava mascarar com agressividade. Eu não a soltei imediatamente. Eu queria que ela sentisse a pressão, que entendesse que, no meu mundo, quem dita o ritmo das coisas sou eu. — Viu só, "doutora"? — debochei, meus olhos fixos nos dela, ignorando completamente os insultos que vinham de todos os lados. — Todo mundo quer um pedaço do nosso show. Mas eu acho que você tem um hospital te esperando, não tem? E uma mãe que, segundo você, precisa desse seu temperamento de fogo. Ela me deu um empurrão violento no peito, e desta vez eu permiti que ela se afastasse. Ela estava ofegante, ajeitando o jaleco com as mãos trêmulas, olhando ao redor para a multidão irritada e para os flashes de celular que registravam nossa briga. A máscara de controle dela estava em frangalhos, e por um segundo, vi o medo brilhar no fundo daqueles olhos castanhos, logo antes dela enterrá-lo sob mais uma camada de fúria. — Você é a pior pessoa que eu já tive o desprazer de cruzar o caminho — ela disse, a voz baixa, vibrando com uma promessa de que aquilo não terminaria ali. — Reze para a gente nunca mais se ver, porque eu vou garantir que você pague por cada segundo desse atraso e por cada centímetro que você ousou tocar em mim sem permissão. — Eu não rezo, boneca — respondi, encostando no meu carro com uma calma que parecia enlouquecê-la ainda mais, observando-a entrar no veículo com o queixo erguido. — Eu planejo. E o meu plano diz que o Rio de Janeiro é pequeno demais para você fugir de mim agora que eu decorei o seu perfume. Ela me mostrou o dedo médio com uma vontade absurda enquanto entrava no carro e batia a porta com tanta força que achei que o vidro fosse estilhaçar. Eu apenas levantei a mão e joguei um beijo cínico para o vidro fumê. Quando ela arrancou, desviando pelo canteiro com o pneu cantando e o para-choque solto batendo no asfalto, eu senti um vazio estranho. Meus planos geralmente eram infalíveis, mas aquela ruiva tinha acabado de rasgar o meu roteiro e incendiar o palco.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD