Eu continuei ali, parado no meio da avenida, sentindo o rastro do perfume dela se dissipando no ar carregado de fumaça, asfalto quente e a maresia que soprava do Arpoador. O caos ao meu redor ainda era absoluto, uma sinfonia de fúria urbana que parecia não ter fim. Motoristas buzinavam em ritmos histéricos, alguns ainda gritavam insultos da janela, e a plateia de curiosos na calçada pedestres que interromperam o passo para assistir ao espetáculo gratuito parecia esperar por um segundo ato, um desfecho sangrento ou um beijo cinematográfico que selasse a loucura daquela noite.
Um homem de meia-idade, com o rosto vermelho de irritação e as veias do pescoço saltadas, saltou de um carro popular logo atrás do meu SUV. Ele gesticulava como se estivesse tentando espantar um enxame de abelhas invisíveis.
— Ô, parceiro! Vai ficar aí parado com cara de paisagem? Tira essa barca do caminho! Que palhaçada é essa? Acha que o asfalto é o teu quintal? — ele gritou, a voz falhando pelo excesso de bile.
Eu me virei lentamente. O movimento foi calculado, predatório, mas o sorriso de deboche ainda estava gravado no meu rosto, alimentado pela adrenalina daquele embate com a ruiva. Olhei para o sujeito, varrendo-o de cima a baixo com um desprezo que o fez murchar dois centímetros no lugar, e depois olhei para os outros motoristas que nos cercavam. Ergui as mãos em um gesto de falsa humildade, as palmas abertas para o céu noturno do Leblon.
— Perdão, pessoal! Perdão a todos — falei, a voz projetada com aquela calma autoritária que impõe silêncio sem precisar elevar um decibel. — A ruiva ali estava nervosa... sabe como é briga de casal, né? O sangue ferve, a gente se perde no horário, discute no lugar errado e o trânsito que pague a conta da DR. Já estou saindo do caminho.
Alguns motoristas resmungaram, mas a menção a uma "briga de casal" operou um milagre sociológico instantâneo: a raiva se transformou em uma complacência quase solidária. Homens balançaram a cabeça, revirando os olhos com um "tinha que ser", voltando para seus veículos com a curiosidade amansada. Para eles, era apenas mais um drama passional de gente rica no Rio de Janeiro. m*l sabiam eles que aquela mulher não tinha absolutamente nada de minha, e que o "casal" em questão era composto por dois exércitos de um homem só que acabavam de declarar guerra em pleno asfalto da Vieira Souto.
Entrei no meu sedã blindado. O isolamento acústico da cabine engoliu o barulho da rua, mas não conseguiu apagar a memória sensorial. O cheiro de hospital, café e a pele dela ainda pareciam impregnados nos meus sentidos, lutando contra o odor de couro novo do carro. O toque da cintura dela sob o jaleco ainda queimava na palma da minha mão. Liguei o motor, o ronco potente do V8 vibrando no meu peito como um batimento cardíaco artificial, e manobrei para sair daquela retenção, desviando dos cacos de vidro que brilhavam no chão como diamantes descartados.
Enquanto eu dirigia em direção à subida do Morro de Pedra Bruta, o asfalto da zona sul ficava para trás, tornando-se apenas pontos de luz no retrovisor, mas a imagem daquela doutora se recusava a sair da minha mente. Ela estava tatuada na minha retina: o sangue escorrendo pela pele de porcelana, o cabelo cor de fogo desgrenhado e aquele olhar de ódio que não baixou para o meu calibre nem por um milésimo de segundo.
Quem será ela? — perguntei a mim mesmo, batucando os dedos no volante revestido em couro.
A mente do Arquiteto começou a trabalhar em alta velocidade, traçando plantas e diagramas de uma vida que eu ainda não conhecia. Eu precisava de nomes. Precisava de um rosto limpo, sem o borrão escarlate do acidente. Precisava entender o que fazia uma mulher rasgar um cheque de seis dígitos com a mesma naturalidade com que se descarta um panfleto de pizzaria. Aquilo não era apenas marra; era uma independência visceral, uma autonomia que desafiava a gravidade do meu mundo.
Será que é casada? Algum médico engravatado que passa o dia em consultórios assépticos e não tem a menor ideia do vulcão que dorme ao lado dele todas as noites? — O pensamento me causou uma irritação súbita e irracional, uma pontada de posse sobre alguém que eu nem conhecia. — Ou será que vive sozinha naquela redoma de vidro, achando que a autonomia dela é o suficiente para protegê-la de homens como eu?
Eu conhecia o tipo. Mulheres bem-sucedidas que acreditam que o controle é uma ciência exata. Mas o impacto do meu para-choque tinha acabado de provar que a vida é feita de variáveis imprevisíveis e impactos secos. E eu era a variável mais perigosa que já tinha atravessado o planejamento milimétrico da noite dela.
— Doutora Íris... — murmurei o nome que eu tinha lido rapidamente no crachá dela antes de ela arrancar. O nome era delicado, mas a mulher por trás dele era puro chumbo.
Cruzei a fronteira invisível entre o asfalto "de bem" e a realidade do morro. Os soldados nos acessos reconheceram o brilho do meu blindado e a placa personalizada. Abriram caminho imediatamente, baixando as armas em um sinal de respeito absoluto. Eu era o rei daquele território, o dono das leis e dos fins, mas a derrota tática que eu tinha sofrido naquela avenida aquela sensação inédita de ser desafiado, peitado e mandado para o inferno era a única coisa que me fazia sentir verdadeiramente vivo, pulsando sob a pele de um Arquiteto que costumava ser frio demais.
Estacionei na frente do galpão da Boca, o coração escuro do meu império. Viper estava lá fora, a silhueta recortada contra a luz fluorescente interna, encostado em um fuzil AR-15, checando o relógio com uma expressão impaciente. Ele se aproximou assim que eu bati a porta do carro, seus olhos de rapina notando imediatamente o estrago.
— Demorou, Arquiteto. Aconteceu algum problema no asfalto? Os moleques do rádio disseram que o trânsito no Leblon parou geral. Achei que os "homens" tinham armado um cerco.
Eu olhei para o meu para-choque amassado, o metal retorcido como uma ferida aberta, e depois para Viper. O sorriso voltou, mas agora era o sorriso do predador que acabou de encontrar uma pista que vale mais que o lucro da semana.
— Nada demais, Viper. Só um erro de cálculo no trânsito. Uma variável ruiva que resolveu testar a minha paciência e o meu talão de cheques.
Viper franziu o cenho, confuso, seus olhos percorrendo a marca de sangue no capô preto.
— Uma mulher fez isso no teu carro? E saiu inteira? O Arquiteto tá ficando bondoso ou a pancada na cabeça foi forte?