NARRAÇÃO: ÍRIS Abri os olhos e, por um instante de misericórdia sensorial, não soube onde estava. O teto não era o do meu quarto no Leblon, aquele com iluminação embutida e design minimalista que eu planejei para ser meu refúgio. Era o teto com os detalhes em gesso clássico, as molduras antigas que eu mesma escolhi quando era uma adolescente cheia de sonhos e plantas baixas debaixo do braço. O cheiro de lavanda, o calor pesado de um cobertor de lã e o silêncio denso de um lar de verdade me envolveram. Mas a paz durou apenas o tempo de uma respiração. A memória do hospital, do prontuário eletrônico, do menino Léo com os olhos de granito, do cemitério sob a chuva torrencial e do meu desmoronamento... tudo voltou como uma avalanche de pedras afiadas, esmagando o meu peito e roubando o meu ar

