Prólogo.
O inverno daquele ano havia chegado com uma violência atípica, cobrindo as estradas de terra nos arredores da cidade com uma névoa densa e impenetrável.
Aos dezesseis anos, Aurora não conhecia a malícia que corrompia os homens nas sombras; ela conhecia apenas o peso do trabalho e a pressa de voltar para casa antes que a escuridão engolisse a trilha deserta. Mas, naquela noite, a escuridão não trouxe apenas o frio. Trouxe o horror.
O som de galhos secos estalando atrás dela foi o único aviso. Antes que pudesse correr, mãos brutas e calejadas a arrancaram da estrada, arrastando-a para a vegetação densa e esquecida.
O medo foi um golpe físico, paralisando suas cordas vocais enquanto o cheiro nauseabundo de álcool barato e terra molhada invadia suas narinas. Era ele. O homem que há meses a perseguia com olhares lascivos na cidade, um predador que finalmente encontrara sua presa indefesa.
O chão de terra bateu contra suas costas com violência, roubando-lhe o ar. Aurora lutou. Esbofeteou o ar, arranhou a pele áspera do agressor, mas sua força de adolescente era insignificante contra a fúria dele.
O primeiro soco atingiu seu rosto com a força de um martelo. O impacto estalou em seus ouvidos, e o gosto quente e metálico do sangue inundou sua boca instantaneamente. Outro golpe atingiu sua têmpora, fazendo sua visão explodir em feixes de luz branca antes de mergulhar em uma penumbra turva.
Seu olho esquerdo inchou imediatamente, fechando-se sob a pressão do hematoma. O direito, embaçado por lágrimas de puro terror e sangue que escorria de um corte na testa, m*l conseguia focar o céu cinzento acima deles.
Ela ouviu o som horrendo do tecido de seu vestido sendo rasgado, o riso gutural do monstro acima dela. Aurora fechou os olhos, clamando por uma morte rápida, sentindo o peso da humilhação e da dor dilacerarem sua alma antes mesmo que o pior acontecesse.
Então, o peso desapareceu.
Houve um baque surdo, seguido por um rugido de dor que não pertencia a ela. Aurora forçou as pálpebras coladas de sangue a se abrirem minimamente. Através da névoa e da visão severamente borrada, ela não conseguiu decifrar traços humanos. Viu apenas uma silhueta monumental, uma sombra gigante e implacável que parecia ter emergido das profundezas da própria terra.
O que se seguiu não foi uma briga; foi uma execução. A figura sombria avançou sobre o abusador com uma ferocidade animal. O som de ossos quebrando ecoou pela floresta silenciosa, misturado aos gritos abafados de agonia do homem que, segundos antes, achava que era o dono do mundo.
Aurora assistiu a tudo de forma fragmentada, a mente flutuando à beira do desmaio. Ela viu o brilho frio do aço sob a luz rala da lua. Viu os movimentos precisos, letais e desprovidos de qualquer hesitação daquela sombra. O agressor implorou, mas o carrasco invisível não possuía piedade. Um último som sufocado cortou o ar, e o silêncio fúnebre retornou à clareira. A névoa havia sangrado.
O corpo de Aurora tremia de forma convulsiva na lama. A silhueta imponente guardou a lâmina e virou-se em sua direção. Ela tentou se arrastar para trás, o pânico sobrevivente sussurrando que um monstro ainda pior havia restado. Mas a sombra apenas se ajoelhou ao seu lado. Mãos surpreendentemente firmes, mas envoltas em um cuidado milimétrico, ergueram seu corpo frágil do chão úmido.
Aurora tentou focar o rosto do seu salvador, mas a mistura de sangue, o inchaço violento em seus olhos e a escuridão tornavam os traços dele uma massa indistinta de ângulos duros e maxilar rígido. Ela apagou por completo quando o calor do casaco dele foi moldado ao redor de seus ombros feridos.
Na pequena e humilde casa afastada do perímetro urbano, Martha andava de um lado para o outro na cozinha, o peito apertado por uma premonição sombria. O relógio avançava muito além da hora em que sua filha deveria ter cruzado a porta. Quando o som de passos pesados ecoou na varanda de madeira, a mãe correu, abrindo a porta com o coração na boca.
O grito de horror ficou sufocado em sua garganta.
Um homem jovem, de porte atlético, ombros largos e um olhar de uma frieza assustadora, estava ali. Em seus braços, ele carregava o corpo semi-inconsciente e quebrado de Aurora, envolto em um casaco de couro escuro manchado de sangue. O rosto da menina estava desfigurado pelo inchaço e pelos cortes.
— Meu Deus! Aurora! O que aconteceu com a minha menina?! — Martha desabou de joelhos, as mãos cobrindo a boca enquanto as lágrimas jorravam.
O jovem entrou na casa sem pedir permissão, deitando a adolescente com extrema delicadeza no sofá velho da sala. Ele se endireitou, a postura rígida, os olhos escuros fixando-se em Martha com uma intensidade que fez a mulher estremecer, apesar do desespero.
— O homem que a atacou na floresta está morto. Ele nunca mais vai tocar nela, nem em ninguém — a voz do rapaz era um estrondo baixo, firme, carregada de uma maturidade sombria que contrastava com sua pouca idade. — Chame um médico de confiança. Cuide dela.
Martha olhou para o rapaz, reconhecendo as feições imponentes e os traços da família mais poderosa da região. Era August Blackwood. O herdeiro das terras gigantescas que cercavam a cidade.
— Senhor August... Foi o senhor? Meu Deus, como posso pagar por isso? Como posso agradecer por salvar a vida da minha filha? — a mãe soluçava, segurando a mão fria de Aurora.
August deu um passo em direção à porta, a expressão retornando à indiferença cirúrgica que o tornaria temido nos anos seguintes.
— Guarde segredo sobre o ocorrido, dona Martha. Ninguém na cidade precisa saber o que aconteceu aqui esta noite, e ninguém deve saber que fui eu quem a salvou. O que fiz na floresta morre entre nós. Ela não se lembrará do meu rosto.
Martha, com o peito inundado por uma gratidão eterna que nenhuma palavra seria capaz de traduzir, assentiu com a cabeça, chorando.
— Eu prometo, senhor. Minha boca será um túmulo. Que Deus abençoe a sua vida.
August não respondeu. Ele apenas ajustou o colarinho e desapareceu na névoa gélida da noite, deixando para trás uma família salva e um pacto de sangue que ditaria, anos mais tarde, o destino de todos eles.