Feridas que Ardem no Silêncio

1004 Words
O amanhecer chegou carregado de tensão. Os primeiros raios de sol atravessavam as frestas da janela, mas no quarto ainda havia o peso da noite anterior. Bela despertou antes de Alex, sentindo os lábios ainda queimando do beijo que haviam trocado. A respiração dele, calma, contrastava com o turbilhão que girava dentro dela. Ela se levantou devagar, tentando fazer silêncio, mas Alex abriu os olhos de repente, como um predador em alerta. — Já vai fugir? — perguntou, a voz rouca da madrugada. — Não tenho pra onde fugir. — Bela respondeu, sem encará-lo. — Só queria respirar um pouco. Alex se ergueu da cama, apoiando os cotovelos nos joelhos. Os olhos dele a seguiam como lâminas afiadas. — Ontem não devia ter acontecido. Bela se virou, indignada. — Vai fingir que não sentiu nada? — Sentir não muda a realidade. — Ele acendeu um cigarro e tragou fundo, como se precisasse do veneno para se manter firme. — A realidade é que você é a irmã de um verme que me devia a vida. Você não tá aqui porque eu quis. Tá aqui porque o destino te empurrou. — E ainda assim… — ela deu um passo à frente, encarando-o com firmeza — …foi você quem me beijou. O silêncio entre eles foi cortado apenas pelo estalar do cigarro. Alex desviou o olhar, exalando a fumaça devagar. — Você não entende, Bela. — murmurou. — Quem chega perto demais de mim só termina de duas formas: morta ou destruída. — Talvez eu já esteja destruída. — ela respondeu, com um sorriso amargo. — E se for morrer… pelo menos morro sabendo que vivi algo verdadeiro. Os olhos de Alex faiscaram. Ele se levantou, aproximando-se até ficar a centímetros dela. — Você fala como se o perigo fosse poesia. Mas aqui… o perigo não é bonito. Ele arranca pedaços. Bela engoliu em seco, mas não recuou. — Então me mostra as feridas. Alex parou, a mão quase tocando o rosto dela, mas se conteve. Virou de costas e deu um gole longo no copo de uísque sobre a mesa. Antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, um dos soldados entrou apressado. — Chefe, problema sério. Os do Complexo tão planejando invadir o Chapadão. Recebemos aviso agora. Alex fechou a cara imediatamente, toda vulnerabilidade sumindo. — Reúne todo mundo. Quero armas carregadas e os pontos altos ocupados. Ninguém entra no morro sem cair primeiro. O soldado assentiu e saiu correndo. Bela sentiu o coração apertar. — Mais sangue? Alex se virou para ela, frio novamente. — Esse é o preço de estar aqui. E você vai ficar trancada no quarto, ouviu? — Eu não vou me esconder como uma prisioneira. — protestou. — Vai sim. — ele rebateu, com a voz dura, aproximando-se até ficar a centímetros dela. — Porque se você morrer, aí sim eu vou ter um problema que não posso resolver. Ela arregalou os olhos, surpresa pela confissão escondida naquelas palavras. Mas antes que pudesse responder, ele saiu, deixando-a com o coração em chamas e um silêncio pesado que parecia gritar mais do que qualquer tiro. As horas seguintes foram de pura tensão. O som de passos correndo, homens armados subindo o morro, e Bela sozinha no quarto, sentindo cada batida do coração como se fosse um tambor de guerra. Ela andava de um lado para o outro, tentando ignorar o medo. Mas quando os primeiros disparos ecoaram ao longe, suas pernas fraquejaram. Bela correu até a janela e viu a movimentação: homens gritando, tiros cruzando o céu cinzento, fumaça subindo. De repente, a porta se abriu com violência. Era Alex, coberto de suor, sangue no braço esquerdo. — Alex! — Bela correu até ele, desesperada. — Você está ferido! — É só um arranhão. — ele rosnou, tentando afastá-la. Mas o sangue escorria, e Bela não recuou. — Senta. — ordenou, empurrando-o até a cama. — Eu vou cuidar disso. Ele a encarou, surpreso pelo tom firme. — Desde quando você manda em mim? — Desde que você resolveu não morrer antes da hora. — ela retrucou, rasgando um pedaço do próprio vestido para estancar o sangue. Alex fechou os olhos, respirando fundo enquanto ela pressionava o ferimento. — Você é louca. — Talvez. — Bela respondeu, a voz embargada. — Mas não vou deixar você cair. Por um momento, o som da guerra lá fora desapareceu. Havia apenas os dois, ela cuidando dele com mãos trêmulas, ele tentando disfarçar a dor com orgulho. — Ninguém nunca me cuidou assim. — Alex murmurou, quase sem perceber. Bela levantou os olhos, os dela cheios de lágrimas. — Talvez porque ninguém nunca viu o homem por trás do A.S. Ele a encarou, como se aquelas palavras tivessem atingido um ponto que ele passava a vida inteira escondendo. O silêncio entre eles era denso, carregado de algo que nem o fogo da guerra poderia apagar. Quando terminou de amarrar o tecido no braço dele, Bela suspirou. — Pronto. Não é perfeito, mas vai segurar. Alex a puxou de repente, segurando o rosto dela com a mão boa. — Você não tem ideia do que está fazendo comigo. — a voz dele era um misto de raiva e desejo. — Talvez eu tenha sim. — ela respondeu, sem desviar o olhar. Ele a beijou outra vez, dessa vez mais lento, mais profundo, como se quisesse marcar cada pedaço dela. O gosto de sangue, pólvora e medo se misturava, mas nada parecia importar. Lá fora, a guerra rugia. Mas dentro daquele quarto, as feridas que ardiam em silêncio começavam a se transformar em algo ainda mais perigoso: amor. A madrugada no Chapadão tinha um silêncio enganador. Bela já não se assustava tanto com os tiros ao longe, nem com as motos que subiam e desciam como sombras. Mas naquela noite, algo a mantinha inquieta. Talvez fosse o peso do que ouvira de Alex mais cedo: “Aqui você não é livre. Aqui você é minha.” Essas palavras martelavam em sua mente como correntes invisíveis.
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