Onde o Perigo Beija a Pele

1134 Words
O calor da madrugada era sufocante. O morro parecia respirar junto com seus habitantes — tiros ao longe, motos subindo e descendo, vozes nervosas ecoando pelos becos. Bela não conseguia dormir. As palavras de Alex ainda queimavam em sua mente: “Obedecer… e me entender.” Sentada na beira da cama, ela olhava pela janela estreita, vendo o clarão das luzes piscantes no alto do Chapadão. Sua vida tinha mudado em questão de dias. Antes, sonhava em estudar, trabalhar, sair dali. Agora, era parte de um jogo de sobrevivência onde cada passo podia ser o último. Um estalo forte na porta a fez se levantar. Alex entrou, sem pedir licença, como se aquele quarto fosse dele. — Você de novo? — ela soltou, irritada. Ele a observou com calma, um copo de uísque na mão. — Não consegue dormir. — Não é óbvio? — retrucou. Alex sorriu de canto. — O morro não deixa ninguém dormir em paz. Mas você… — aproximou-se devagar, os olhos fixos nela — …parece mais acordada do que nunca. Bela cruzou os braços, tentando esconder o nervosismo. — E você, não dorme nunca? — Dormir é luxo de quem não tem inimigo. — disse, bebendo um gole. — Aqui, se eu fechar os olhos por tempo demais, alguém aproveita. — Deve ser cansativo viver assim. — ela respondeu. — É. — admitiu, sentando-se na beira da cama, próximo demais. — Mas eu não conheço outro jeito. O silêncio se instalou por alguns segundos. O cheiro de álcool misturado ao perfume amadeirado dele invadiu o espaço. Bela desviou o olhar, mas sentiu o coração disparar quando ele tocou sua mão, firme, sem pedir permissão. — Você me olha como se quisesse fugir e ficar ao mesmo tempo. — disse ele, a voz baixa. — Porque é isso que sinto. — ela confessou, num sussurro. — Você é perigo, Alex. Mas também é… outra coisa que eu não sei explicar. Ele a encarou intensamente, os olhos como labaredas. — O perigo beija mais fundo que qualquer carinho. — disse, aproximando-se ainda mais. Bela engoliu em seco, sem conseguir recuar. — Então me mostra. — desafiou, a respiração acelerada. Antes que ele pudesse responder, um barulho de correria ecoou do lado de fora. Alguém bateu à porta com força. — Chefe! — gritou um dos soldados. — É ataque! Tão subindo o morro! Alex se levantou num salto, os olhos faiscando. — Fica aqui! — ordenou, sacando a pistola. Mas Bela correu atrás dele. — Eu não vou ficar sozinha! — Você vai obedecer! — ele rugiu, virando-se com fúria. — Lá fora é guerra, Bela! Não é brincadeira! Ela não recuou. — Então me deixa ver de perto. Se eu tiver que viver aqui, eu preciso entender como é. Alex ficou em silêncio por um segundo, avaliando. Depois, respirou fundo. — Se morrer, não me culpa. — e puxou-a pelo braço, saindo para a varanda. A cena era caótica. Homens armados se posicionavam atrás de barracos, tiros ecoavam pelo ar, gritos cortavam a noite. O cheiro de pólvora era sufocante. Bela sentiu as pernas tremerem, mas não soltou o braço de Alex. — Viu? — ele gritou, enquanto disparava contra a escuridão. — Isso é o morro! Isso é o que te engole se você não aprender a ser dura! Bela tapou os ouvidos por instinto, mas manteve os olhos abertos. Viu homens caindo, sangue escorrendo, o medo estampado em cada rosto. E, no meio daquilo, Alex parecia um rei no trono da guerra, controlando tudo com olhar firme e mão pesada. Quando os tiros cessaram e os rivais recuaram, Alex ainda estava em alerta. Só depois baixou a arma e virou-se para ela. — Entendeu agora? — perguntou, ofegante. Bela respirava rápido, os olhos marejados. — Entendi que você carrega o peso de todo esse sangue. Ele a encarou, a raiva dando lugar a algo mais profundo. — É o preço que eu pago. — disse, e a puxou pela cintura, colando-a contra si. Bela sentiu o coração explodir. O perigo estava ali, tão próximo que parecia beija-la na pele. De volta ao quarto, os dois ainda ofegavam. A guerra tinha deixado marcas nos olhos dela, mas também uma estranha chama que Alex não conseguia ignorar. Ele fechou a porta atrás de si e jogou a arma sobre a mesa. — Agora você sabe o que é viver no meu mundo. — disse, a voz grave. — E sabe o que mais eu vi? — Bela encarou-o, firme. — Vi que, no meio de todo esse ódio, você protege mais do que manda. Ele a observou em silêncio, surpreso com a leitura. — Você não me conhece. — Estou começando a conhecer. — retrucou. — E talvez por isso eu não tenha medo de você. Alex respirou fundo, caminhando até ela. — O medo é necessário. É ele que mantém você viva. — Ou é ele que mata por dentro. — Bela rebateu, os olhos brilhando. — Eu não quero viver com medo. Nem de você. A proximidade entre os dois era sufocante. Alex ergueu a mão e tocou o rosto dela, o polegar deslizando pela pele quente. — Você vai me quebrar, Bela. Ela sentiu um arrepio percorrer o corpo. — Então me deixa quebrar. Ele a puxou de repente, a boca roçando a dela sem beijar de fato. O ar entre eles parecia pegar fogo. Mas, no último instante, Alex recuou, como se lutasse contra si mesmo. — Não. — disse, a voz rouca. — Você não entende o que significa estar comigo. — Então me explica. — ela provocou, sem soltar sua mão. Alex fechou os olhos, como se carregar aquele peso fosse insuportável. — Estar comigo é carregar o risco de morrer a qualquer segundo. É ser alvo, é perder tudo. — Eu já perdi tudo. — Bela respondeu, firme. — Só restou você. O silêncio caiu pesado. Os olhos dele encontraram os dela, e dessa vez não houve recuo. Alex a beijou com violência, como se quisesse se livrar de todos os demônios numa única explosão. Bela correspondeu, sem medo, como se aquele beijo fosse sua forma de sobreviver. Era selvagem, intenso, perigoso. Dois mundos colidindo no quarto pequeno do morro. Quando se afastaram, ambos estavam ofegantes, os lábios vermelhos, os corpos trêmulos. Alex apoiou a testa na dela. — Isso nunca devia ter acontecido. — murmurou. — Mas aconteceu. — ela respondeu, sem arrependimento. Ele sorriu de canto, um sorriso cansado, sombrio e desejoso. — Você me fode por dentro, Bela. — E você já me destruiu por inteiro. — ela retrucou. A tensão permaneceu no ar, carregada de desejo e perigo. O morro estava em silêncio lá fora, mas dentro daquele quarto, a guerra ainda ardia — uma guerra entre amor e destruição.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD