Capítulo 04 Sanguinário

2262 Words
Sanguinário Narrando A raiva não passa. Ferve. É como um ácido no estômago, corroendo tudo por dentro, e não adianta cuspir porque o gosto volta mais amargo. Aquele grito dela ainda tá preso nos meus ouvidos. Não era um grito de briga, de quem quer se impor. Foi um grito de desespero animal, do tipo que arranha a alma de quem ouve. E eu ouvi. Ouvi e deixei afetar. Isso que me deixa mais puto. A casa tá quieta demais depois do estrago que eu fiz. O cheiro do whisky derramado ainda impregna o ar, misturado com a poeira que subiu dos canto. Fico parado no meio da sala, olhando os cacos no chão, e só consigo pensar na cara dela. Naqueles olhos grandes, cheios de um medo que não era só de mim. Era medo de tudo. Do mundo que desmoronou. Do pai que vendeu. Da vida que virou isso. Minhas pernas me levam até o corredor, em direção ao quarto do fundo. Os pés pisam firme no cimento, cada passo um trovão no silêncio. A porta de madeira maciça, com uma fechadura reforçada. Paro na frente. Consigo ouvir a respiração dela do lado de dentro. Ofegante, rápida, controlada. Abro a porta sem bater. Ela tá sentada na beirada da cama, os braços em volta das pernas, o queixo apoiado nos joelhos. Quando a porta range, ela se atasta, como um ouriço se fechando. Levanta o rosto. Os olhos vermelhos do choro, o nariz inchado. Mas a boca… a boca tá num linha fina, firme. E no meio do medo todo, eu vi uma faísca. Um negócio teimoso. Quando eu falei que ela era pagamento, ela não baixou a cabeça. Ela me olhou. Olhou fixo, com uns olhos que deviam estar cegos de terror, mas que ainda tentavam achar um pedaço de dignidade no meio do lixo. Isso me deu um ódio. Eu não sou psicólogo de favela. Não fico analisando sentimento de ninguém. Mas aquele olhar dela… foi um desafio. Um desafio minúsculo, frágil, mas que tava ali. E no meu mundo, desafio, por menor que seja, tem que ser esmagado. Senão cresce. E se cresce, vira problema. A presença dela no quarto minúsculo é um contraste do caralhø. Ela é coisa de outro mundo. A pele muito clara pro morro, o cabelo liso demais, o jeito de se encolher que não é de quem tá acostumado a levar porrada, é de quem tá acostumado a ser protegida. E não foi. Ela perguntou o que eu iria fazer com ela, andando pra trás, Até bater as costas na parede. Ela não disse mais nada. Só me olha. — Então? — minha voz sai baixa, rouca da fumaça e do grito. — A princesa se acostumou com o quarto? Ela não responde. Apenas aperta os lábios. — Tá quietinha agora, né? — dou um passo pra frente. O quarto fica menor ainda. A energia muda, fica pesada, elétrica. — Cadê o grito? Cadê o ‘me tira daqui’? Ela solta um ar pelo nariz, quase um suspiro de cansaço. E fala, a voz um fio, mas firme: — Gritar adiantaria? A pergunta me pega de surpresa. Não é uma resposta de medo. É uma pergunta de verdade. Uma pergunta cansada. Isso me irrita mais. — Aqui quem grita sou eu — digo, a voz sobe um tom, naturalmente, o peso da autoridade. — Aqui quem fala alto, quem decide o tom, sou eu. Você abaixa a voz. Você abaixa a cabeça. Você abaixa tudo. Entendeu? Me aproximo mais. Agora estou a um passo dela. Ela tem que levantar o rosto pra me encarar. Sinto o cheiro dela de novo. Shampoo doce, medo, e suor. Um suor limpinho, de nervoso, não o suor encardido de quem labuta o dia todo. Ela não abaixa a cabeça. Continua me olhando. E eu vejo a raiva nesse olhar. Uma raiva jovem, inexperiente, mas verdadeira. A raiva de quem foi traída. Não é a raiva de um inimigo. É a raiva de uma vítima que ainda não aceitou ser vítima. — Você não me domina — ela sussurra, e a frase é tão baixa, tão cheia de dúvida e de coragem ao mesmo tempo, que parece um feitiço. Algo estala dentro de mim. Um fio de paciência que já tava fino se rompe. Levo a mão até o pescoço dela. Não é rápido, é deliberado. Deixo ela ver a mão vindo. Meus dedos são grandes, calejados, com cicatrizes velhas. A pele dela, vista de perto, é alva, quase translúcida, com veiazinhas azuis. Ela não se debate. Ela fecha os olhos. É isso. A rendição passiva. A aceitação do inevitável. Mas não é medo do que vou fazer. É cansaço. É desistência. Meus dedos tocam a pele do pescoço dela. Está gelada. Gelada como mármore numa madrugada de inverno. O contraste com o calor da minha mão é um choque. Eu poderia apertar. Poderia sentir o pulso dela acelerado debaixo dos meus dedos. Poderia esmagar aquele fio de teimosa com uma só pressão. Mas o gelo da pele dela queima. Queima como um repúdio físico. Não é o que eu esperava. Esperava luta, esperada quentura do pânico, não essa frieza de cadáver. Eu me afasto. Tiro a mão como se tivesse tocado em fogo. Ela abre os olhos, surpresa. Há uma perplexidade ali, um “por que você parou?”. Eu não tenho resposta. Só tenho uma fúria que não consegue encontrar um alvo concreto. Viro as costas, saio do quarto. A porta de madeira pesada eu bato com tanta força que o batente treme, e um pedaço de reboco cai do teto no corredor. Fora, com a porta fechada atrás de mim, a raiva explode. Dou um soco na madeira. O baque é surdo e dolorido. Meus nós dos dedos estalam, a dor aguda sobe pelo braço. É uma dor boa, limpa, merecida. — LOUCO! A voz dela vem de dentro do quarto, abafada pela porta, mas nítida. Aguda. Cheia de um ódio que espelha o meu. Louco. A palavra ecoa. É o que ela acha. É o que todo mundo acha. É o que eu às vezes acho. O problema é que a loucura tem método. A minha tem. A dela não. A dela é só desespero. E desespero é imprevisível. É perigoso. Subo as escadas que levam ao meu quarto, dois andares acima. Cada degrau é um murro no peito. Meu santuário. O único lugar onde ninguém entra. É simples: uma cama grande, um armário, uma janela que dá pro abismo da cidade. Tiro a camisa suja de suor e whisky e jogo no chão. Entro no banheiro e ligo o chuveiro no frio. A água gelada corta como lâmina, me faz prender a respiração. Fico ali, cabeça baixa, deixando a água bater nas costas, tentando lavar a imagem dela da minha mente. A pele gelada do pescoço. Os olhos fechados. A resignação. A palavra “louco”. Não adianta. A água só me deixa mais acordado, mais consciente da ferroada que ela colocou no meu peito. Saio do banheiro, água escorrendo pelo corpo, e me enxugo com brutalidade, como se estivesse esfregando uma mancha. A raiva não virou ódio frio, virou um calor baixo, insistente, nas minhas bolas, no meu paü. Uma tensão que pede alívio. Não de raiva, mas de poder. De domínio que eu entendo. Que eu sei exercer sem essas complicações do caralhø. Envolto na toalha, pego o celular da pia. Passo os contatos até a letra D. Débora. Aperto para ligar, mas desisto e mando uma mensagem. Direto, sem rodeios. “Me espera lá no meu barraco da 15. Agora.” Não espero resposta. Jogo o celular na cama. A resposta vem em segundos, um simples “Tô indo, gato.” É isso. O alívio certo, para a tensão errada. Não me visto direito. Pego uma camisa preta e jogo nos ombros, nem coloco os braços. Coloco um jeans preto. Abro a gaveta do criado-mudo, tiro a 9mm, checo o pente por instinto e enfio na cintura, atrás das costas. As chaves da minha Factor 150 tão no gancho. Peguei tudo. Desço as escadas sem fazer barulho. A casa ainda parece ecoar com o grito dela, com o som da porta batendo. Ignoro. Saio pela porta dos fundos, onde minhas motos tão guardadas. A noite tá escura, sem lua, o morro cheio de sombras e vultos. Ninguém me aborda. Todos sabem quem é, todos sabem a cara que eu tô fazendo não é de conversa. A moto ruge quando dou partida, o som ecoando nas vielas. Dirijo sem capacete, o vento cortante no rosto, tentando apagar o cheiro do shampoo dela que ainda parece grudado no meu nariz. O barraco da 15 é um dos meus pontos. Um lugar simples, longe da minha casa principal, onde às vezes levo alguém quando não quero misturar as coisas. Chego em dois minutos. A luz fraca de um poste de iluminação pública pisca sobre a porta. Ela já tá lá. Débora. Me esperando encostada na parede, só de shortinho e um top minúsculo que m*l segura os p****s. Sorri quando me vê, um sorriso profissional, de quem sabe o que eu vim buscar. Entro, abro a porta. Ela entra atrás. O barraco é grande, mas eu só uso um único cômodo: a sala só uso o sofá, geladeira onde deixo algumas bebidas pra beber enquanto viajo em várias bøcetas. Também uso o banheiro, pra tirar o cheiro de putä. Nem acendo as luzes direito. A luz que entra pela janela basta. — Demorou, neném — ela diz, a voz melada, fingindo saudade. Eu não respondo. Só me viro pra ela. Ela já tá se mexendo, entendendo o ritmo. As mãos dela vão direto pro meu jeans, abrindo o botão, baixando o zíper. Ela se ajoelha no chão da sala, na minha frente. Ela tira meu paü pra fora. Já começou a crescer só com a viagem, com a expectativa do alívio simples. A mão dela é quente, experiente, começa a bombear. Ela me empurrou no sofá com a mão firme no meu paü. Débora levanta, em vez de continuar me mamando. Põe uma das pernas em cima do sofá, ficando toda aberta pra mim. O shortinho já tá de lado, dando uma visão completa da bøceta dela, a safadä sem calcinha já brilhando de molhada na luz fraca. — Tava fazendo o quê antes de eu chegar, safadä? — pergunto, a voz ainda carregada do resto da raiva, soando mais como um rosnado. — Nada, meu gato — ela responde, enquanto a mão dela continua trabalhando em mim. — Só de pensar que você tava vindo… já fiquei molhada. Ela diz isso com um ar de putä experiente, sabendo que é isso que eu quero ouvir. Que o poder é meu. Que a reação é por minha causa. Levo a mão até ela. Não com carinho. Com posse. Enfio os dedos na bøceta molhada. É quente, grudenta. Ela dá um gemido falso, começa a rebolar no meu dedo, jogando a cabeça pra trás. — Ah, gato… assim… Mexo no clitórïs dela, passando o dedo com força, não com prazer, com dominação. É um corpo. É uma reação. É previsível. Ela solta uma gargalhada, forçada, e depois leva a bøceta na minha mão, esfregando. Tira meu dedo de dentro dela, melado. Olha pra mim com um olhar de desafio barato. — Abaixa a cabeça. — Eu rosno. Um som de verdade, de animal irritado. Ela obedece na hora, o sorriso some. Assim que a cabeça dela tá no nível da minha cintura, eu levo os dedos melados até a boca dela. Enfio na boca dela. — Chüpa. Chüpa o seu próprio gosto. Ela faz. Olhando pra mim, com aquela submissão de encomenda. Lambe os dedos, suga. É nojento. É humilhante. É exatamente o que eu quero. O que eu preciso ver. Submissão sem pensamento. Obediência sem olhar teimoso. — Ajoelha. E mama. Ela desce de novo, no chão. A boca dela é quente, úmida, sabe fazer. As mãos seguram, a língua gira. É um serviço. É um alívio mecânico. Sentado sentindo a boca dela, com uma mão na cabeça dela, guiando o ritmo, não com desejo, mas com controle. Fecho os olhos. E não vejo a Débora. Vejo a pele gelada do pescoço. Vejo os olhos fechados, não de prazer, mas de resignação. Ouço a palavra “louco” sussurrada atrás de uma porta. Abro os olhos com um salto. Um jorro de raiva fria sobe. Puxo o cabelo dela pra trás, não com força, mas com firmeza. Ela olha pra cima, surpresa, com a boca inchada. — Para. — Ordenei e ela para. Solta, confusa. — Vaza. — Mas, gato… você nem… — VAZA! — a voz não é um grito, é um comando cortante, que não admite discussão. Ela se levanta rápido, ajeitando as roupas, esfraga uma pena na outra, o olhar agora é de medo real. De repente lembrou com quem tá lidando. Ela sai quase correndo, a porta se fecha atrás dela. Fico sozinho no barraco escuro. O paü ainda duro, insatisfeito. A raiva não foi embora. Foi só trocar de forma. O alívio não veio. O vazio que eu queria preencher ficou maior. Ainda sentado no sofá, coloco a cabeça nas mãos. O cheiro de sexo barato e cigarro enche o ar. Ela me chamou de louco. E no fundo, olhando pra essa cena vazia, pra essa tentativa falha de me provar algo, eu só consigo pensar que talvez, pela primeira vez, alguém tenha acertado. Continua...
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