Capítulo 03 Mariana

1418 Words
Mariana Narrando Meu corpo treme, mas não é apenas o medo que me fazia vacilar. É uma raiva que eu m*l conseguia entender, uma raiva tão profunda e enraizada que parece consumir todo o ar ao meu redor. Como meu pai pôde fazer isso? Como ele pôde me entregar a esse... esse monstro? Eu estou em um quarto pequeno, com as paredes brancas e uma cama que mais parecia um castigo. Não havia móveis, nem conforto. Apenas um espaço que me fazia sentir ainda mais sozinha do que eu já estava. É como se tudo que eu conhecesse tivesse sido arrancado de mim em um único movimento. A escola, a casa, minha família... e agora, tudo o que me resta é esse quarto e os olhos frios de um homem chamado Sanguinário. Eu não sei se quero gritar, chorar ou simplesmente desaparecer. O nome do meu pai ecoava na minha mente, e cada vez que eu penso nele, uma dor insuportável se apodera de mim. Ele me entregou. Ele me usou como se eu fosse um objeto. Ele não me olhou nos olhos quando fez isso. Nenhuma explicação, nenhum pedido de desculpas. Apenas me entregou. “Ele fez o que achava que era melhor para a família”. Tenho certeza que é o que ele vai falar, quando me empurrou pra esse morro, pra esse homem, dá até pra imaginar o olhar distante. Mas como isso poderia ser o melhor para nós? Como isso poderia ser o melhor para mim? Como ele podia olhar para a minha mãe, para o meu irmão e se sentir confortável com a ideia de me entregar nas mãos de um homem como Sanguinário? As palavras... Eu não conseguia tirar da cabeça. São muitas palavras cruéis, que serão ditas sem nenhum remorso, enquanto ele jogava a minha vida fora como se fosse nada. Eu sou só uma peça no tabuleiro, e ele acredita que me entregar a esse homem resolverá tudo. Agora, estava aqui, presa em um lugar onde o medo é palpável, onde cada passo me faz sentir como se estivesse sendo observada, como se o mundo todo estivesse esperando um erro para me fazer pagar. E quem está no comando desse inferno? Sanguinário. Um homem que não conhece limites, nem bondade. O pensamento me cortou. “Sanguinário...” Como eu poderia ter sido entregue a esse monstro? Como eu poderia ser a peça no jogo de um homem que governa com ferro e sangue, sem nenhum arrependimento, sem nenhuma humanidade? Eu sei quem ele é, claro. Todos no Rio sabiam. Ele é o filho do Monstro, o herdeiro do Morro do Cerro-Corá, e todo mundo temia o seu nome. Sanguinário. O próprio nome já diz tudo sobre ele. Um homem que nunca soube o que é amor, um homem que não tem piedade. Ele é a personificação do terror no Rio, e seu comando é absoluto. Olhei pro teto, tentando alinhar os meus pensamentos, eu me sento pequena. Irrelevante. Como se nada do que eu fosse ou do que eu tivesse feito na minha vida anterior importasse mais. Eu sou uma desconhecida nesse mundo, um mundo onde o sangue é a moeda, onde a lealdade é comprada a preço de dor. Eu me levantei tentando raciocinar, e vi em um espelho improvisado feito de vidro quebrado que encontrei no canto do quarto. Os olhos em mim são os de uma menina perdida, assustada, tentando entender o que resta de si mesma em meio a essa escuridão. Eu queria ver em mim a força que eu sei que tinha, mas tudo o que eu via foi a fragilidade de quem havia sido arrancada de tudo que conhecia e jogada em um abismo. Mas, de repente, algo em mim se agitou. Uma revolta. Uma força que estava dentro de mim, sem eu saber como despertar. Eu não podia ser só uma vítima. Não podia aceitar que meu pai tivesse me entregue assim, sem lutar. Eu não sou uma boneca que ele podia mover ao seu bel prazer. Não, eu não vou deixar que ele me destruísse sem lutar. A dor misturada com a raiva se transformou em um sentimento de desafio. O pai que eu tinha, que sempre fiz questão de admirar, agora me traía de uma forma que eu jamais imaginaria. Ele não me via mais como filha. Eu era apenas mais uma moeda de troca. E isso me fez odiá-lo, me fez querer gritar até os pulmões saírem. — Me tira daqui... tem alguém aí? Por favor, eu preciso respirar. — Gritei sentindo meu ar indo embora. Fui interrompida pelos passos pesados, me afastei da porta. Ela se abriu me fazendo recusar. A porta abriu em um som brusco e ele apareceu na porta do meu quarto, e seus olhos, como pedras afiadas, me fitaram. — Acha que é fácil assim, garota? — sua voz era como gelo, cortante, sem emoção. — Acha que pode me olhar como se fosse melhor do que o resto? Você é só mais uma peça no meu jogo. Só mais um pagamento de uma dívida. Eu o encarei, sem coragem para responder. O medo ainda estava ali, mas algo em mim começava a mudar. Eu não queria mais ser submissa. Eu não queria mais ser a vítima. — Seu pai me deve, e agora você vai pagar. — Ele deu um passo em minha direção, e seu olhar era impiedoso. Eu senti o sangue ferver nas minhas veias. Eu queria gritar, queria desafiar. Como ele podia falar dessa forma sobre minha vida, sobre minha dignidade? Eu não sou um pagamento, não sou uma moeda de troca. Eu sou Mariana. Eu tinha uma história, tinha um nome. Usei o verbo certo, tinha. Sanguinário me olhou como se fosse uma criança com uma lição para aprender, mas eu não posso ser tratada assim. — Eu não sou sua propriedade, e não sou o que meu pai fez comigo. — Minha voz saiu fraca, mas as palavras estavam ali, prontas para explodir. — Eu não sou um pagamento, não sou uma dívida que você possa simplesmente cobrar e pagar. Eu sou alguém. Eu sou alguém que pode... — Parei, sem saber o que mais dizer, mas o olhar dele me desafiava a continuar. — Você é só mais uma peça no meu tabuleiro, garota. E no meu mundo, quem não paga com dinheiro paga com a vida. Você vai entender isso muito rápido. — Sanguinário se aproximou, seus olhos penetrantes fixados nos meus. Ele estava me testando, querendo ver se eu teria coragem de continuar. Eu engoli seco, sentindo o medo de novo, mas também um fio de revolta crescendo dentro de mim. Eu não posso ser apenas mais uma pessoa que ele poderia esmagar com seu poder. Não. Eu não posso ser isso. Ele parecia estar se divertindo, como se me visse apenas como mais uma diversão, mais uma peça a ser manipulada. Eu estou fraca, eu sei disso, mas no fundo, havia algo em mim que está mudando. Ele não posso me destruir sem lutar. — Você vai ver o que é realmente ser controlada por alguém, garota. Você vai entender o que é viver sob a minha mão de ferro. — Ele falou isso com um sorriso, mas eu podia ver o desprezo nos olhos dele. Eu respirei fundo, tentando me manter firme, mas, ao mesmo tempo, um pensamento me assaltava. A sensação de estar sozinha nesse mundo é insuportável. Eu nunca me senti tão pequena e, ao mesmo tempo, tão impotente. O que eu esrou fazendo aqui? Por que meu pai me entregou? Eu já sei a resposta, mas não quero aceitar. Eu não quero acreditar que meu próprio pai fosse capaz de fazer isso. Mas a raiva não me deixava pensar claramente. Eu preciso sair desse lugar. Eu preciso entender quem eu sou, o que eu vou fazer com a minha vida. O que será de mim agora? E a única coisa que eu sei, com toda a certeza, é que eu não serei mais ser uma vítima passiva. Eu preciso lutar, custasse o que custasse. Ele me encarando, como se esperasse eu explodir, eu tentando me controlar. Porque eu preciso sair daqui, só não sabia como, nem quando, mas a minha revolta começou a crescer dentro de mim. — O que… o que você vai fazer comigo? — pergunto, a voz falhando. Dou dois passos pra trás, as pernas bambas, e paro quando sinto minhas costas baterem na parede fria. Continua...
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