Capítulo 02 Sanguinário

2012 Words
Sanguinário Narrando Minha mãe costumava dizer que todo homem nasce com uma escolha: ser a espada ou o escudo. Mas ela morreu antes de me explicar que, às vezes, nem isso a gente escolhe. Meu pai, o Monstro, não era uma espada. Era um machado. E desde que me entendo por gente, ele foi me moldando pra ser o cortador, o separador de carne e osso. Aqui no morro, sentimento é vazamento. E vazamento mata. No Cerro-Corá, a lei é uma só: quem manda, sobrevive. Quem obedece, respira. Meu pai era o Rei antes de subir na hierarquia do Comando e deixar esse chão de barro e sangue sob meu comando. Ele não me deu o morro. Ele me jogou nele e disse: "Afunda ou nada". Eu nadei. E aprendi que a melhor forma de sobreviver é fazendo os outros afundarem primeiro. Minha mãe foi o último ponto fraco que tive. Tinha 18 anos quando invadiram nossa casa pra matar o velho. Erraram o tiro. Acertaram ela no peito, na cozinha, enquanto ela mexia uma panela de feijão. O sangue dela escorreu pelo azulejo branco, formando um desenho que até hoje aparece nos meus pesadelos. Ela não morreu na hora. Ficou olhando pra mim, com aquele olhar de "filho, agora você tá sozinho". Eu jurei, naquele segundo, que nunca mais ia deixar ninguém chegar perto o suficiente pra me fazer sentir algo. Sentimento é brecha. E brecha, aqui, é cova. Por isso lido com dívidas do jeito que lido. Dinheiro atrasado é desrespeito. E desrespeito, pra mim, tem cheiro. Cheiro de sangue velho, de medo fresco. Lucas Fontenelle, esse bosta engravatado da Zona Sul, achou que podia brincar de esconder com minha grana. Achou que seus contatos, seu sobrenome de merda e sua casa com piscina iam me intimidar. O o****o ainda não entendeu que, aqui no morro, a gente não tem medo de rico. A gente tem fome. E dívida não quitada é isca. A boca tava cheia da fumaça de cigarro barato e do suor de homem nervoso. Beto, meu braço direito — ou o que sobrou dele depois que eu quebrei o outro por vacilo —, chegou perto com a cara de quem ia dar notícia r**m. — Chefe, o Fontenelle tá implorando. Diz que junta o dinheiro até o fim da semana. — Víbora, a minha gerente, falou. Eu nem olhei pra ela. Tava afiando minha faca numa pedra, o som do metal raspando era o único que importava naquela sala. — Implorar é o que fraco faz quando percebe que tá fodido. Ele teve tempo. O tempo acabou. — Dei o papo e ela levantou, fazendo sombra no chão. — Mas, chefe, ele tá ameaçando chamar a polícia. Disse que tem um delegado no bolso. — Ela mandou e eu parei de afiar. Lentamente, levantei o olho. Víbora respirou fundo. Ela conhece esse olhar. É o mesmo que eu tinha antes de enterrar três caras vivos no ano passado. — Polícia? Víbora, me diga uma coisa. Quando a polícia sobe o morro, quem é que segura as pontas? Quem é que paga as bocas, quem é que compra o silêncio deles? Eles não são donos de p***a nenhuma. São cachorros? Não, cachorro obedece a quem segura a coleira. Bati a faca na mesa. A lâmina cravou na madeira, vibrando. — Eu não tô pedindo o dinheiro, Víbora. Tô exigindo. E se o Fontenelle acha que pode me trocar por umas notas falsas de delegado, então ele não só me deve dinheiro. Me deve uma lição. — Passei a visão. — Tu que manda, chefe. — Ela falou e eu sorri de lado. — Guga! — chamei o meu sub. — Manda o Gigante descer daquele jeito, não quero que a Tatá vá, mas manda ela escolher os melhores homens e mandar descer com Gigante, daquele jeito na maciota. — Pode deixar, chefe, missão dada é missão feita. — Guga deu o papo, já saindo e fazendo um sinal pra Víbora. Mandei os homens descerem. Se o dinheiro não aparecesse, a família dele apareceria em sacos plásticos na porta do condomínio. Recado claro. A manhã foi passando. A tarde caiu pesada, como sempre cai no morro. Tava no meu quarto, olhando a comunidade — quando ouvi um barulho lá embaixo. Pesado. Rápido. Algo tinha acontecido. Desci já liberando o portão, quando ouvi a voz do Gigante. Gigante entrou na sala, a respiração ofegante. E atrás dele... uma sombra. Não, não era sombra. Era uma garota. Ela parecia um pássaro com asa quebrada. Pequenininha, pálida, com um uniforme escolar ainda no corpo. Os olhos eram o que mais me pegou: grandes, escuros, e cheios de um medo tão puro que quase dava pra chegar. Quase. — Quem é essa p***a? — minha voz ecoou na sala vazia. — É a filha do Fontenelle, chefe. A Mariana. — Gigante deu o papo. Eu me aproximei devagar. Cada movimento calculado pra amplificar o medo. Ela tremia. Dava pra ouvir os dentes batendo. — O pai dela não tinha o dinheiro. Mandou ela no lugar. Disse que... que ela quita a dívida. — Beto soltou, olhando pro Gigante e pra menina. Um silêncio cortou o ar. Depois, minha risada saiu. Baixa, rouca, sem um pingo de humor. — Ele me deu uma mulher? — perguntei, olhando fixo pra Beto. — Acha que eu tô precisando de uma p**a? Acha que meu negócio é cabaré? Ninguém respondeu. O ar tava tão tenso que dava pra cortar com a mesma faca que ainda tava cravada na mesa. Cheguei mais perto dela. Ela cheirava a medo e a shampoo doce. Um cheiro de inocência que já tinha virado cinza no meu mundo. — Então seu pai achou que eu ia aceitar carne fresca no lugar do meu dinheiro, é? — falei baixo, quase no ouvido dela. — Achou que você valia 500 mil? Você sabe quanto vale, menina? Ela não respondeu. As lágrimas começaram a escorrer, mas ela não fez um som. Isso, de alguma forma, me irritou mais. — Seu pai não é só um devedor — continuei, minha voz agora um veneno puro. — É um covarde. Um lixo que usa a própria carne e sangue como moeda. E você... você é a prova viva de que ele não vale o chão que pisa. Ela levantou o rosto. Nossos olhos se encontraram. E no meio do terror, eu vi um brilho. Uma chama. Algo que não tinha sido apagado ainda. Algo que, num instante, me fez querer esmagar e, ao mesmo tempo, guardar. Essa p***a me enfureceu. — Joga ela no quarto do fundo — ordenei, virando as costas. — Tranca. E amanhã a gente decide se ela vale mais viva ou em pedaços pro pai aprender a lição direito. Beto puxou ela pelo braço. Ouvi o gemido abafado, o arrastar de pés. A porta se fechou. Fiquei olhando pela janela, mas não via a cidade. Via o sangue da minha mãe no chão da cozinha. Via a faca na mesa. Via os olhos daquela garota. Fontenelle tinha cometido o erro final. Não só me devia dinheiro. Tinha me dado algo que eu não queria: um problema que respira, que chora, que tem olhos que me olham não como um chefe, mas como um monstro. E ele ia aprender. No meu mundo, todo mundo paga. E o preço sempre é em sangue. A garota agora é minha. E eu não tenho a menor ideia do que fazer com ela. Mas uma coisa eu sei: ninguém me entrega um ser humano como se fosse um pacote e sai ileso. Depois que a porta do fundo se fechou com ela lá dentro, o silêncio da casa ficou pesado demais. O tipo de peso que empurra você de um canto pro outro. Comecei a andar, de lá pra cá, da sala pro corredor, do corredor de volta pra sala. Cada passo ecoava no azulejo frio, marcando o ritmo da raiva que começava a ferver nas minhas veias. Parei na frente do aparador velho que ficava na parede. Abri a gaveta de cima. Lá dentro, num cantinho, tava o meu refúgio: um baseado já bolado, gordo, esperando. Peguei, acendi com o isqueiro que sempre carrego no bolso. A primeira tragada foi funda, deixando o fogo descer pela garganta e se espalhar nos pulmões. Fumei em pé mesmo, olhando pra parede vazia, mas vendo a cara do Fontenelle sorrindo, a cara da mulher dele chorando, e aquela menina... aqueles olhos de veado assustado. Não deu jeito. Precisava de ar. Levei o baseado pra sacada, aquele ponto alto do morro que é só meu. Dali dá pra ver tudo: as luzes da Zona Sul piscando como se fossem estrelas falsas, as vielas escuras do Cerro-Corá, o movimento de formiguinha dos meus homens lá embaixo. Fumei até não sobrar nem a ponta, até os dedos queimarem. Cada baforada era um pensamento: dívida, desrespeito, covardia. O cara me deve 500 mil e me manda a filha como se fosse troco. Me trata como c*****o. Me acha tão baixo que acha que troco mulher por dinheiro. O último resto de fumaça eu soltei devagar, vendo ela se misturar com a névoa da noite. Tava acabando a paciência. Virei, joguei a ponta no chão e esmaguei com o pé. O fogo tava só mudando de lugar — do baseado pra dentro de mim. Entrei de volta na sala e foi como se o quarto tivesse encolhido. As paredes pareciam mais perto. A raiva, que tava só fervendo, agora tava transbordando. Vi a garrafa de whisky no bar — uma importada que algum i****a me deu de presente. Nem pensei duas vezes. Peguei pelo gargalo e arremessei contra a parede oposta. O vidro explodiu num estouro seco, seguido pelo som molhado do álcool respingando por tudo. Pingos me atingiram no rosto. A mancha marrom escorrendo na parede branca parecia sangue. — Vão pagar caro, seus desgraçados! — gritei, e a voz saiu rouca, gutural, de um lugar que eu nem sabia que ainda guardava tanta fúria. — O Fontenelle, a mulher dele, toda a raça deles vai pagar cada centavo com carne! A respiração tava ofegante. O peito doía. Precisava de mais. Fui pro bar de novo, abri outra garrafa — essa mais barata, do estoque normal. Enchi um copo até a borda. Derrubei metade de um gole só, sentindo o líquido queimar como ácido. Enchi de novo, tomei mais uma vez. O gosto era amargo, forte, igual ao ódio. Mas não adiantava. O copo na minha mão parecia insignificante. Inútil. Guardei a garrafa de volta no bar e, antes que eu percebesse, o copo também voou. Dessa vez, acertou o mesmo lugar na parede, acrescentando novos estilhaços ao vandalismo que eu mesmo tava fazendo. O barulho da segunda explosão de vidro ainda não tinha acabado quando outro som cortou o ar. Fino. Agudo. Vindo lá de dentro, do fundo da casa. — Pelo amor de Deus! O que tá acontecendo? Me tira daqui! Me tira daqui! Era ela. A voz dela. Um grito estrangulado pelo choro, pelo pânico, mas que atravessou portas e paredes e chegou até mim como uma faca. Não é um grito de desafio. É um grito de animal encurralado. De quem realmente acredita que vai morrer. Fiquei parado no meio da sala, ouvindo o eco do meu próprio caos e o desespero dela vindo do quarto escuro. Os estilhaços de vidro no chão brilhavam sob a luz fraca. A mancha de whisky na parede escorria lentamente. A raiva ainda tá lá, quente e viva. Mas agora tinha um gosto diferente. Tinha o som do desespero dela misturado. O desgraçado do Fontenelle não só me mandou uma dívida. Mandou um problema que grita. Que chora. Que tem medo de mim. E eu não sei o que é pior: a fúria que ele provocou, ou o incômodo que a voz dela colocou no meio dessa fúria. O morro tem fome. Mas essa noite, parece que a fome é minha. E não sei mais do que eu tô com fome Continua...
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