Marilene Narrando Eu, Marilene, não sou mais a mulher que era. O café frio ainda está na mesa, o gosto do desespero ainda na boca, mas as mãos não tremem mais. Tremem de raiva. A arma de Lucas, pequena e pesada, está no fundo da minha bolsa, um peso morto que me lembra: eu tenho uma última bala. Para ele, para o Júnior, ou para mim. Ainda não decidi. Assim que o carro deles sumiu na curva, com aquele ar de triunfo podre, eu não pensei duas vezes. Corri para o telefone. Liguei para a única pessoa que poderia ter um fio de conexão com aquele inferno: a sobrinha da minha antiga empregada, Celina. A menina, Joice, casou com um homem do morro anos atrás. Celina sempre sussurrava sobre isso com vergonha, mas agora, a vergonha é a última das minhas preocupações. A ligação tocou uma eternidade

