Capítulo 1
Lúcifer Narrando
Acordei engasgado no próprio ar, como se tivesse acabado de sair debaixo d’água. O corpo inteiro suando, o coração batendo tão forte que parecia querer rasgar o peito. Levei a mão ao rosto, tentando me convencer de que eu estava aqui, no presente. Mas o cheiro de sangue ainda parecia grudado em mim.
Era sempre o mesmo sonho. Nunca muda. Nunca enfraquece.
Fechei os olhos por um segundo, mas a imagem voltou na mesma hora. Era bala pra todo lado, mas eu não ouvia nada, eu só queria chegar em casa. O pressentimento queimando na pele. Eu corri, sentindo que já estava atrasado. Sempre atrasado.
Quinze anos se passaram, e aquela noite ainda me acorda como se tivesse acontecido ontem.
Na época, eu tinha só vinte anos. Achava que já tinha visto de tudo. Achava que era forte. Que estava pronto pra ser quem eu precisava ser. Eu era um moleque tentando virar homem no meio da guerra, sem saber que naquele dia iam arrancar tudo de mim.
Marcola.
O nome ecoa na minha cabeça como um tiro. Ele invadiu o morro como quem pisa em território conhecido, saiu destruindo tudo. Descobriu a casa dos meus pais. A nossa casa. Arrombo.u o cofre como se fosse nada. Mas não levou dinheiro, ele não veio pra isso. Levou o que eu tinha de mais sagrado.
Quando eu cheguei, ele já tinha fugido. Covarde. Sempre foi assim. Ataca, destrói e desaparece.
O que sobrou foi a pior cena que meus olhos já viram. Meus pais… irreconhecíveis. Minha mãe, que sempre dizia que tudo ia ficar bem. Meu pai, que me ensinou que fraqueza não combina com sobrevivência. E minha irmã… minha menina, minha princesa. Alice só tinha quinze anos. Só quinze.
A imagem nunca some. As cabeças separadas dos corpos, jogadas como se não fossem nada. Como se não fossem pessoas. Como se não fossem a minha família.
Senti o estômago revirar e me apoiei na beira da cama, respirando fundo. Quinze anos sendo acordado pelo mesmo inferno. Quinze anos vivendo com essa cena gravada na mente, tatuada na alma.
Foi ali que eu morri também. O garoto que eu era ficou naquele chão, junto com eles. O que sobrou foi raiva. Ódio. Frio.
Marcola não matou só meus pais e minha irmã. Ele criou o Lúcifer.
Levantei e fui até a janela. O Complexo da Penha ainda dormia, mas eu sabia que nunca estava realmente em silêncio. Aqui, a paz é frágil. E eu sou o guardião dela. Ou o demônio, depende de quem olha.
Passei a mão pelo rosto, sentindo o peso dos anos nas costas. Eu sobrevivi, mas sobreviver cobra um preço alto. Cada decisão que tomo carrega aquele dia. Cada ordem, cada guerra, cada morte.
O sonho sempre termina do mesmo jeito: eu chegando tarde demais.
E todas as noites, quando acordo, faço a mesma promessa em silêncio.
Marcola vai pagar.
Não importa quanto tempo leve.
Não importa quem eu precise me tornar.
O inferno que me criou ainda está com fome.
Mas não é só isso que me atormenta. Não é só a lembrança da carnificina, do sangue frio escorrendo pelo chão da minha casa. O que me corrói por dentro é saber como Marcola conseguiu chegar até lá.
Ele subiu o morro como quem já conhecia o caminho. Passou por cada barreira, cada ponto cego, cada vigia, sem levantar suspeita. Sabia exatamente onde pisar. Sabia exatamente onde ir. E, pior de tudo, sabia onde ficava a casa dos meus pais.
Isso não é sorte. Nunca foi.
Tem um rato aqui dentro. Um x9 filho da put.a que vendeu minha família em troca de dinheiro, poder ou proteção. Já revirei esse morro de cima a baixo. Já fiz homem forte tremer, já fiz aliado chorar, já fiz inimigo implorar. E mesmo assim… nada. O nome não aparece. O rosto não surge. Mas ele existe. Eu sinto.
Passo a mão no rosto, os dedos fechando com força quando sinto o sangue ferver. Às vezes acho que essa raiva vai me matar antes de eu conseguir minha vingança. Outras vezes, penso que é ela que me mantém vivo.
Eu poderia ter subido a Babilônia há anos. Poderia ter entrado atirando, feito o nome de Marcola virar lenda enterrada. Eu tinha homens, armas, estratégia. Matar ele nunca foi o problema.
Mas seria fácil demais.
Matar Marcola rápido não pagaria nem metade do que ele me fez sentir. Não apagaria o grito que eu nunca ouvi, mas imagino todas as noites. Não devolveria o olhar vazio da minha irmã. Não traria meus pais de volta.
Não. Ele tem que sofrer.
Tem que sentir o desespero crescer devagar, como um veneno lento. Tem que perder o chão, o controle, a certeza. Tem que acordar todos os dias com medo de perder alguém. Assim como eu acordei por quinze anos.
Pra isso, eu preciso atingir a família dele.
Eu sei que Marcola tem mulher. Todo mundo sabe. Mas ninguém sabe onde ela está. Fantasma. Bem protegida. Escondida como quem carrega um segredo valioso demais. Já paguei informação, já forcei boca, já invadi território neutro. Nada.
Ela sumiu do mapa.
E cada dia que passa sem respostas, a raiva só cresce. Se acumula. Se fortalece. É como uma chama que nunca se apaga, só muda de forma. Às vezes ela queima quieta, às vezes explode sem aviso.
Caminho pelo quarto, os punhos fechados, tentando controlar a respiração. Eu aprendi a ser paciente. A guerra me ensinou isso. Mas paciência não é perdão. É só espera.
O x9 ainda está respirando por sorte. Marcola ainda está vivo porque eu permito. Porque eu quero que tudo seja sentido, pesado, inesquecível.
Eles destruíram a minha família.
E eu vou destruir tudo o que eles amam.
Não hoje.
Não amanhã.
Mas o dia vai chegar.
E quando chegar, o inferno vai parecer pouco.