Capítulo 2

1028 Words
Lúcifer Narrando E nada diferente dos outros dias. Nunca é. Eu não consigo voltar a dormir. Duas, três horas no máximo, e olhe lá. Sempre que o corpo começa a relaxar, quando a mente ameaça desligar, aquelas lembranças voltam como um soco no peito. Basta fechar os olhos e tudo reaparece, nítido demais, c***l demais. Desisto da cama. Pego um baseado, acendo e caminho até a varanda. O ar da madrugada bate no rosto, mas não esfria o que queima por dentro. Daqui de cima dá pra ver uma boa parte do Complexo. As luzes dos postes recortando as ruas, algumas casas ainda acesas, gente que, assim como eu, também não dorme. O morro nunca dorme de verdade. Ele só finge. Trago a fumaça devagar, sentindo os pulmões arderem levemente. Meus olhos percorrem cada viela, cada telhado, cada sombra. E a pergunta volta, como sempre: será que o x9 tá em alguma dessas casas? Será que ele passa por essas ruas todos os dias, fingindo que é só mais um? Isso não sai da minha cabeça. Nunca sai. Se antes eu já era desconfiado, hoje sou o dobro. Não acredito em coincidência, não acredito em silêncio, não acredito em ninguém que fale demais ou em quem fale pouco demais. Todo mundo carrega um segredo. A diferença é quem vende. A única pessoa em quem confio de olhos fechados é o GT. Meu amigo de infância. Crescemos juntos no meio da lama e do tiro, dividindo o medo e o sonho quebrado. Hoje ele é meu sub, meu braço direito, o único que conhece minhas decisões antes mesmo de eu abrir a boca. Se ele virar as costas, eu sei que é pra me proteger, e não para me trair. Apago o baseado no cinzeiro e fico ali mais um segundo, respirando fundo. A mente já acelerada, o corpo pronto. Ficar parado é perigoso demais para quem pensa demais. Volto pro quarto, visto uma roupa qualquer, escura como a noite. Pego o rádio, confiro a Glock, peso familiar na mão. Pego o celular. Três horas da madrugada. Horário em que o morro respeita quem manda. Desço as escadas com passos firmes. A casa parece silenciosa demais, mas eu sei que não estou sozinho. Abro a porta e encontro meus seguranças atentos, postura ereta, olhos ligados em tudo. Gosto assim. Aqui, qualquer descuido custa caro. Faço um sinal com a cabeça e eles entendem. Não preciso falar. Caminho até a moto. O motor ronca baixo quando ligo, como um aviso contido. Subo, ajusto o rádio no ouvido. O vento da madrugada corta o rosto quando começo a descer. Vou pra boca. É ali que tudo acontece. Onde a informação corre, onde o dinheiro gira, onde o poder se mantém. Se existe um rato escondido nesse morro, algum erro ele vai cometer. Sempre comete. E quando cometer, eu vou estar esperando. Porque eu posso até não dormir. Mas eu nunca descanso. Chego na boca, paro a moto e desço devagar. O movimento tá tranquilo, do jeito que eu gosto. Vapores atentos nos pontos, cada um no seu lugar, olho vivo, postura firme. Tem algumas put.as encostadas mais pra lá, rindo alto demais pra essa hora, e uns nóias chegando e saindo rápido, dinheiro trocando de mão sem bagunça, sem grito, sem erro. Tudo funcionando. Cumprimento os vapores com um aceno de cabeça. Aqui não precisa de muita fala. Respeito se sente no jeito que o ar pesa quando eu passo. Caminho pelo corredor estreito até a área interna, onde ficam as salas. Antes de chegar na minha, passo em frente à sala do GT. A porta tá aberta, luz acesa demais pra madrugada. Put.a gemendo da entrada da pra ouvir, parece que faz de propósito. GT sempre foi bom em tudo o que faz. Trabalho, lealdade, mas só tem um defeito, não pode ver um buraco que o pa.u já ta dentro, não importa onde esteja. Prova viva era a Débora tá ali com ele, debruçada na mesa, rindo, segura, como se aquele espaço fosse dela também, iludida demais. Quando me vê, abre um sorriso provocador, sem vergonha nenhuma. — Vem, chefinho, participar da festa — ela fala, a voz carregada de intenção. Dou um meio sorriso torto, mas não paro. — Deixa pra próxima — respondo, seco, sem clima pra brincadeira nenhuma hoje. Sigo direto, sem olhar pra trás. GT me conhece o suficiente pra saber que, quando eu tô assim, é melhor não insistir. Ele fecha a porta atrás de mim, abafando o som, e eu continuo andando até a minha sala. Entro, fecho a porta e finalmente me sento na cadeira. O couro range sob meu peso. Ligo o computador, a tela clareia o ambiente escuro, e vou direto no relatório que o GT deixou pronto ontem. Tudo detalhado, como sempre. Entrada, saída, valores, pontos de atenção. Organização é o que mantém o caos sob controle. Assim que o dia amanhecer, vou pedir a próxima carga. Não dá pra vacilar. Estoque baixo é convite pra problema. E a amanhã também é dia de falar com meu informante da Babilônia. Já tá lá faz um tempo, bem posicionado, invisível do jeito que precisa ser. A gente só se fala uma vez por semana. Mais do que isso, chama atenção. Menos do que isso vira risco. Comunicação curta, objetiva. Sem emoção. Confiança ali é relativa é troca. Informação por proteção. E enquanto ele for leal, continua respirando. Me inclino na cadeira, os olhos presos na tela, mas a mente longe. Espero que dessa vez ele tenha algo de verdade pra me entregar. Alguma brecha. Um erro. Um nome. Qualquer coisa que me aproxime do sofrimento do Marcola. Fecho o relatório e passo a mão pelo rosto. A madrugada ainda tá longe de acabar, e o dia promete ser pesado. Gosto assim. Mente ocupada não deixa espaço pra fantasma. Aqui, no meio do barulho controlado, da rotina da boca, eu consigo respirar melhor. É onde eu mando. Onde nada acontece sem eu saber. Ou pelo menos é o que eu preciso acreditar. Porque se Marcola escorregar, se alguém abrir a boca mais do que devia, eu vou estar pronto. Sempre estou.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD