Sophia Narrando
Vinte anos. Vinte anos nessa gaiola de concreto com vista pro inferno. A janela do meu quarto mostra o Morro da Babilônia inteiro, uma teia de barracos, vielas escuras e luzes piscando feito vagalumes doentes. Daqui de cima, parece que eu tomo conta de tudo. Ilusão de merda. O único morro que eu comando são esses quatro metros quadrados, e olhe lá.
O barulho é constante. Funk pesado lá embaixo, tiro esporádico lá longe, grito de briga, berro de ordem. É a trilha sonora da minha vida. Ou melhor, da minha existência. Viver é outra coisa. Viver foi até os dez anos, quando ainda tinha o cheiro de mãe no ar.
Ela saiu. Foi tudo que entendi. Um dia, o perfume de jasmim misturado com pó de arroz. No outro, só o cheiro de Whisky caro e ódio. Muito ódio.
Eu ainda lembro como se fosse hoje.
Flashback:
Ele chegou transtornado. O Grande Marcola, o chefe que faz a Babilônia tremer, entrou aqui cambaleando, os olhos vermelhos não de choro, mas de pura fúria. Nem uma palavra. Só o primeiro soco. Apanhei ali mesmo, no corredor, com os vapores dele virando a cara, fingindo que não viam. “É culpa sua”, ele cuspiu, a voz grossa, rasgada. “Sua culpa, sua desgraçada!”
Achei que fosse passar. Que no dia seguinte ele acordasse e visse que era eu, a Sophia, a filha dele. Burrice minha. A raiva não passou. Só se acomodou, virou rotina. Virou o almoço com ele me encarando em silêncio, o jantar com um comentário ácido, a noite com uma chinelada se eu fizesse barulho demais. A humilhação é diária. “Inútil”. “Pesa morta”. “Sangue fraco”. A culpa pela morte dela é minha mochila, meu fardo, e eu nem sei o que carrego dentro dela.
Não me lembro como ela morreu. Tento, fecho os olhos até doer, mas não vem nada. Só um vazio. E a pergunta que rói: o que uma criança de dez anos pode fazer para matar a própria mãe? Ele nunca disse. Só me bate e repete, como um mantra de ódio.
Aqui dentro, sou uma sombra. Ando de cabeça baixa, falo só quando perguntam, e baixo. Aprendi a sumir. A ficar quieta no canto, a não ter vontade, a não ter brilho. Minha pele ficou pálida de tanto fugir do sol, meu cabelo longo é um véu pra me esconder. Às vezes, olho pro morro lá embaixo e invejo as minas na laje, rindo alto, brigando por homem, vivendo. Elas têm medo de bala perdida, de operação. Meu medo tem nome, e dorme no quarto ao lado.
A esperança? Essa merda morreu faz tempo. O que sobrou foi instinto. O instinto de uma rata acuada, que sabe quando o dono do lugar tá de pavio curto, que reconhece o som do cinto sendo tirado da cintura antes mesmo dele fazer qualquer movimento.
Só que às vezes, bem no fundo desse poço, ainda existe uma coisa. Uma memória de colo quente, de uma canção de ninar sussurrada. É tão fraco que quase não sinto. Mas tá lá. É o meu segredo mais bem guardado. A prova de que, antes de ser o saco de pancada do Marcola, eu fui filha de alguém que me amou.
Não sei pra que eu guardo. Não sei o que faço com isso. Só sei que é meu. A única coisa que ele não pode me bater pra tirar.
A batida da porta lá embaixo me afasta dos meus pensamentos, batida pesada dele, decisiva. Meu corpo inteiro trava. A rata sente o cheiro do seu predador.
O coração dispara, mas por fora, eu nem respiro. É o que eu sei fazer.
É o que sempre fiz: ficar quieta e esperar a porrada vir.
O som da porta arrebentando contra a parede ecoa no meu crânio antes mesmo de eu ouvir de verdade. É um eco familiar. Meu corpo já sabe. Os músculos das costas se contraem sozinhos, preparando o lugar. A mão que tá desenhando um coraçãozinho bobo no vidro embaçado congela.
Ele não entra. Ele invade. Enche o espaço com o cheiro dele: whisky caro, suor rançoso e aquela raiva que parece vir do esgoto. Marcola. Meu pai. O rei da merda toda.
Fico de costas. E espero. Rezo pra que hoje seja só palavrão. Palavrão a gente engole, afunda no estômago, digere com o tempo.
— Tu tá aí, plantada na janela, v******o. — A voz dele vem rasgada, de quem já começou o dia no gole. — Parecendo uma morta-viva. Ninguém te mandou fazer nada? A casa tá um lixo.
Respiro fundo, devagar. Viro. Meus olhos imediatamente caem no cinto de couro grosso que ele tá enrolando na mão, devagar, como quem aprecia o couro. Não é o de todo dia. É o pesado, com a fivela de metal grande.
O ar some do meu pulmão.
— Limpei tudo, pai. — A voz sai um fiapo, uma coisa minúscula. — A cozinha, o corredor…
— Tô com cara de quem quer ouvir opinião? — Ele dá um passo pra dentro. A luz do corredor faz a sombra dele engolir metade do quarto. Eu me encolho instintivamente. Burrice. Mostrar medo é dar corda. — Tu acha que limpar quatro cômodos é algo? É o mínimo, sua ingrata. O mínimo que tu pode fazer por estar respirando meu ar, comendo minha comida.
Ele avança. Eu não finjo coragem. Me esparramo contra a parede fria atrás de mim. Não tem pra onde fugir.
— Pai, por favor… — A palavra sai antes que eu possa engolir. Fraqueza.
O olho dele brilha, um negócio predador. É o que ele quer.
— ‘Por favor’ o caralhö. ‘Por favor’ não trouxe tua mãe de volta, trouxe? — O nome dela na boca dele é um sacrilégio. Ele usa como uma faca. — ‘Por favor’ não evitou que ela se metesse onde não devia por tua causa.
A fivela do cinto brilha sob a luz fraca.
— Eu não… eu era criança, eu não sei o que aconteceu… — É um sussurro desesperado. A pergunta que tá me corroendo por dentro vaza, mesmo sabendo que a resposta vai doer mais que o couro.
Ele para, por um segundo. A expressão dele se deforma, não é mais só raiva, é algo pior, algo torturado e nojento.
— Não sabe? Claro que não sabe. Vive numa bolha, igual uma princesinha de merda. Mas a culpa tá aqui. — Ele aponta o cinto pra mim, a ponta de metal balançando como um dedo acusador. — No teu sangue. Na tua cara, que puxou a dela. Toda vez que eu te olho, eu lembro. Eu vejo.
É inútil. A discussão é um beco sem saída que sempre termina no mesmo lugar: na minha pele.
Ele fecha a distância de um passo só. O braço dele se ergue. O ar assobia quando o cinto corta o espaço.
O primeiro golpe não é no corpo. É no ouvido. O estalo é seco, alto, um trovão dentro do quarto. A fivela acerta o reboco da parede, ao lado da minha cara, e chuvisco de poeira cai no meu rosto.
Eu grito. Um som baixo, abafado, que morre na garganta.
O segundo não erra.
A ponta de couro quente me acerta nas coxas, por cima do shorts. A dor é imediata, aguda, uma linha de fogo que depois se espalha em queimação. Eu deslizei pela parede, as pernas cedendo.
— Fica de pé! — ele ruge. — Agüenta, sua sangue-fraco! Agüenta o que tu causou!
Outro golpe. Este nas costas, quando eu tô me encolhendo no chão. O couro morde a camiseta fina, morde a pele. Um soluço escapa, rouco, feio.
Ele não para. É uma chuva de estalos e de palavras misturadas. “Inútil”. “Culpa”. “Maldita”. Cada palavra é um golpe, cada golpe comprova uma palavra. Eu me torno um emaranhado de dor e vergonha, tentando me fazer pequena, menor que o pó no chão.
O pior não é a dor. A dor a gente se acostuma. É o barulho. O som do couro no ar. O gemido que eu não consigo segurar. O rangido dos dentes dele. É a sinfonia do meu inferno, tocada pelo maestro que devia me proteger.
De repente, para. Não porque ele se cansou ou se arrependeu. Mas porque o rádio no quadril dele chia, e a voz de um dos homens dele corta o clima: “Chefe, problema na linha de baixo.”
Ele respira fundo, ofegante. O cinto, agora mole, cai ao lado da minha cabeça. Eu não olho. Olho só pro piso sujo, uma mancha de umidade que parece um mapa de um lugar distante.
— Limpa essa cara de derrotada. — Ele cospe as palavras. — E fica esperta. A noite tá só começando.
Ele sai. A porta fica aberta. A luz do corredor entra, iluminando a poeira que ainda dança no ar, e o meu corpo tremendo no chão.
Fico ali. Contando as respirações. Sentindo a ardência latejante nas pernas, nas costas. O gosto salgado de sangue no lábio, que devo ter mordido.
Aos poucos, o tremor vai diminuindo. O instinto de sobrevivência é mais forte que a dor. Eu me arrasto, devagar, até a cama. Me enrolo no lençol fino.
Lá fora, a Babilônia continua. O funk, os tiros, a vida. Da minha janela, a vista é ampla. Mas daqui deste colchão, do meu canto de dor, tudo que eu vejo são as sombras alongadas das grades, desenhando uma prisão dentro da prisão.
E aquela coisinha no fundo do poço, da memória do colo… ela não apaga. Mas hoje, ela fica menor. Mais distante. Soterrada sob o cheiro de couro, whisky e ódio.
Espero até a próxima. Sempre tem uma próxima.