Capítulo 4

1125 Words
Lúcifer Narrando O sol ainda não tinha nascido direito, só um clarão sujo atrás do morro. O ar da madrugada, pesado de orvalho e poeira, gruda na pele. Não era hora de gente normal acordar. Era minha hora. O movimento na boca estava morto, do jeito que deveria ser. Dois vapores na entrada, o Léo e o Juninho, postura ereta, mas os olhos pesados de sono. Paro na frente deles, nem preciso falar. Eles já sabem. — Chefe — o Léo acena com a cabeça, a voz ainda rouca. — Tudo tranquilo. Nada de barulho estranho, nada de carro diferente dando volta. A venda foi baixa, mas normal para uma terça. Aceno com a cabeça. E entro. O corredor estreito cheira a mofo, cigarro velho e um resto de química barata. A luz fluorescente pisca, insistente. Minha sala tá como eu deixei: a mesa de madeira, a cadeira de couro, um computador. A gaveta trancada com a planilha. Antes de sentar pra organizar as coisas eu saio da sala e dou uma volta. Confiro a sala de armas, tudo no lugar, organizadas. A sala dos produtos, os pacotinhos alinhados nas prateleiras de tijolo. Nada faltando, nada fora do lugar. O GT passou a madrugada aqui, deve ter dado uma olhada. Ele é cuidadoso. Sento na cadeira que range. O silêncio é quase absoluto, só o zumbido baixo do computador e, de longe, o primeiro g**o insistente. É nessa hora que os pensamentos tentam vir, as imagens que eu mantenho trancadas no fundo. Empurro elas de volta com força. Agora é hora de trabalho. Ligo o computador. A tela azulada ilumina a mesa. Abro a planilha. É ali que a vida do morro vira número: entrada, saída, gasto, lucro, nome de cliente, ponto de atenção. Vou preenchendo as vendas da madrugada. Anoto tudo, meticuloso. Na minha cabeça, vacilo com número é o primeiro passo pro caos. E o caos atrai inimigos, atrai x9, atrai desgraça. O dia vai clareando devagar. O movimento lá fora começa a acordar. Ouço o barulho de porta rangendo, conversa baixa, o primeiro som de um carro de som ainda distante. O morro vai despertando, e com ele, as obrigações. O GT chega por volta das oito, com a cara de quem dormiu pouco e fudeü muito. Cumprimenta com um queixo erguido, sem muita palavra. Ele sabe que de manhã cedo eu não sou de papo. Ele pega o rádio e vai organizar a troca de turno, distribuir os pontos do dia. Eu foco na planilha, projetando a próxima compra. O estoque de pó tá no limite. Vou precisar falar com o fornecedor antes do fim de semana. Anoto na lista mental: ligar para o Russo. O trabalho me absorve. As horas escorrem. Conferir, anotar, planejar. É uma rotina dura, mas previsível. Dá uma sensação de controle, mesmo que seja mentira. Meio dia chega com o sol quente, batendo no telhado de zinco e transformando a sala num forno. Tô suando, concentrado na tela, quando meu segundo celular vibra. Um tremor surdo, diferente. Um choque no silêncio da sala. É aquele. O que fica sempre no fundo da gaveta, desligado, até o dia certo. Só tem um número salvo. E só toca uma vez por semana. Meu coração dá uma acelerada, um pum-pum seco contra as costelas. Deixo vibrar três vezes. Respirei fundo, tentando manter a mão firme quando puxo da gaveta. É um aparelho velho, descascado. Atendo. Levo ao ouvido. Não falo nada. O combinado é ela falar primeiro. Sempre. Do outro lado, um silêncio que parece durar uma hora. Só se ouve um ruído de fundo, como se ela estivesse em lugar fechado, com eco. Então, a voz. Baixa, controlada, mas com um fio de tensão que eu conheço bem. — Alô, é da farmácia. O código. Confirmado. A tensão nos meus ombros relaxa um milímetro. Mas só um. — Diz aí, qual as novidades. — Minha voz sai mais áspera do que eu queria. Torço, por dentro, com uma força que quase dói, para que ela tenha alguma coisa. Qualquer coisa. Uma migalha. Um rumo. Ela respira fundo. — A novidade é que o Bob tem uma cria já grande. O ar some dos meus pulmões. Bob e o código: Marcola. Cria: Filha? Por um segundo, a mente trava. É um blecaute de pura incredulidade. Depois, uma enxurrada de pensamentos, planos, possibilidades, se chocando dentro do crânio. — Tá de brincadeira ? — eu pergunto, a voz um sussurro. — Desde quando? Na minha cabeça já estou bolando cenários. Onde ela mora? Como chegar nela? É a fraqueza dele? A única fraqueza? — É sério — ela sussurra, e dá pra ouvir o medo misturado com a urgência. — Um dos vapores que eu tô ficando, fica na contenção da casa dele. Ele comentou ontem, quando eu deixei ele bêbado. A informação é uma faca de dois gumes. Preciosa e perigosa. — Cara, eu falei pra você não se arriscar. Tu vai e fica com vapor? — A raiva sobe, rápida e quente. É burrice. Vapor fala demais, principalmente quando tá com o paü mole e a cabeça vazia. Se ele suspeitar… — Relaxa, eu sei o que tô fazendo — ela insiste, a voz firme. — Estamos mais perto que longe. E eu não vejo a hora de voltar pra ir. O desejo de vingança dela é quase igual ao meu. Quase. — Tá certo — eu concordo, forçando a calma. — Se cuida. E não se coloca em risco. Até a próxima semana. — Até. A linha cai. O silêncio volta, mas agora ele tá carregado, pesado, elétrico. Deixo o celular escorregar da mão sobre a mesa. Inclino a cabeça para trás, os olhos fechados, mas não vejo escuridão. Vejo o rosto da minha irmã. Alice. Só tinha quinze anos. Um sorriso que iluminava a sala mesmo quando a luz faltava. Talvez a mesma idade dessa cria do Marcola. Uma filha. O filho da püta tem uma filha escondida. E vive como se fosse um deus intocável, depois de ter tirado a minha família do mapa. Depois de ter deixado meu pai, minha mãe e minha irmã… Daquele jeito. A dor, aquele buraco n***o e frio que eu carrego no peito, lateja com uma força nova. Não é mais só raiva. É um cálculo gelado. Ele vai pagar. Vai sentir a mesma dor que rasgou meus dias e minhas noites. Ele vai olhar pro vazio que ele mesmo criou, e o vazio vai ter o rosto dela. Saio desses pensamentos como se estivesse surfando numa onda de ácido. A respiração tá curta, os punhos cerrados. Preciso me acalmar. Preciso pensar, não sentir, não agir por impulso. Tem que ser tudo meticulosamente pensado. Sua hora tá chegando Marcola.
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