Capítulo 3

1375 Words
Elisa tinha se enfiado em uma enrascada. Todos os dias Gabriela lhe mandava mensagens empolgadas sobre a viagem, fazia planos, contava sobre a cidade, os lugares, as praias e Elisa precisava sustentar a mentira de que a mãe tinha autorizado sua ida. Óbvio que ela se empolgava com as coisas que a amiga falava, mas a preocupação em como sairia daquela confusão, é o que ocupava sua mente 24 horas por dia. Até tentou falar com o pai. Em um momento de menor movimento na loja, se aproximou dele, esfregando as mãos uma na outra. Falou manso, encurvou os ombros e fez cara de vítima. – Pai... – choramingou. – O que é? – Respondeu distraído. – Vocês vão me apoiar em todos os meus sonhos? – Tentava soar ligeiramente despretensiosa. – Claro – seu Renato continuava entretido com a papelada à sua frente, sem dar muita atenção à filha. – Todos mesmo? – Insistia, dando corda até o momento certo de puxá-la. – Sim, filha. – Então, eu estou perto de realizar um grande sonho – começou. – Já está tudo certo, eu só preciso da aprovação de vocês. – Que bom, Elisa – disse sem levantar os olhos para ela. – Você me dá essa aprovação? Renato, então, deixa os boletos um pouco de lado e fixa os olhos na filha. – Sobre o quê? – Sobre meu sonho de passar as férias em uma praia – disse nervosa. – Ah – voltou a baixar o rosto e continuou o que estava fazendo. – Sua mãe comentou comigo. – E então? – Você tem que resolver com ela – disse por fim. – Mas você acabou de dizer que vai me apoiar em todos os meus sonhos! – Reclamou. – Elisa, eu não vou passar por cima da decisão da sua mãe. – Vocês querem me ver triste e miserável – apelou para o drama. – Chega de papo, garotinha e pode voltar para o seu serviço. Elisa saiu batendo o pé. Mais uma vez. Seus pais eram mais difíceis de dobrar do que imaginava. E nesse caso, em particular, pareciam ainda mais implicantes e irredutíveis. Como se dizer não a uma filha desesperada trouxesse algum tipo de prazer. Mais tarde naquele mesmo dia, Elisa recebeu uma mensagem de Gabriela. Sem muitas explicações, ela pedia os números dos documentos da amiga. “Para quê?”. Perguntou, curiosa com o pedido. “Manda logo”. Elisa fez o que a amiga pediu. Enviou seus dados. Não pensou nem por um segundo no que aquilo podia significar. Muito menos que poderia se enfiar em um buraco ainda maior. Afinal, que m*l poderia acontecer em compartilhar aqueles números com sua melhor amiga? Cerca de 40 minutos depois, Gabriela enviou para a Elisa a passagem comprada, já impressa com o nome dela e com a data para dois dias depois do Natal, dia 27 de dezembro. Por alguns instantes, pensou que fosse desmaiar. Ela não respirava, sentia seu rosto perder lentamente todo o sangue. O coração ora parecia acelerado, ora parecia parar de vez. Elisa estava sim em um buraco ainda maior. E era ela quem tinha se colocado lá. Toda aquela confusão era mérito seu e não fazia ideia de como reverter a situação. Mas algo precisava ser feito e com urgência. Ela achou que teria mais tempo. Não sabia que Gabriela e a família iriam de avião até o destino. Nunca tinha voado antes, para Elisa, cruzariam o estado até a Bahia de carro, como as pessoas que ela conhecia faziam. Se contasse para a mãe agora, dona Marília ficaria ainda mais nervosa. Poderia colocar a filha de castigo eternamente. Sem contar que teriam que devolver o dinheiro da passagem. Sem muitas opções, Elisa confessou a mentira para a irmã, Helena. – Você não fez isso – disse com o rosto sem expressão. – Sem julgamentos, por favor. Helena deu de ombros. – Se pensar bem, agora ficou mais fácil. – Como? – Seria muito m*l-educado de mamãe dar um prejuízo desses para essa pobre família. Imagina os fazer comprar uma passagem para sua filha e desperdiçar porque é egoísta demais para deixar que ela viaje? – Às vezes eu me pergunto se você realmente vive nesse mundo – Elisa balançou a cabeça sem esperanças. – Ou você pode falar com a vovó, se quiser. Ela sempre vai te defender e é a única que pode peitar a mamãe. Os olhos de Elisa brilharam imediatamente. Helena pode não ter percebido, mas dera a melhor ideia. Vovó Leila era a grande matriarca da família, dura com os filhos e um doce com os netos. Tudo que eles quisessem, parecia possível para a vovó Leila. Ela seria a aliada perfeita. Elisa não pensou duas vezes e foi ao encontro da avó, que morava a duas ruas dela. Bateu na porta e esperou pela senhorinha abrir. Foi recebida com um largo sorriso e um forte abraço. – Minha neta, que saudade! – Disse, enquanto ainda tinha Elisa nos braços. – Ei, vovó. Como está a senhora? – Muito bem, melhor agora. Elisa se soltou de dona Leila e terminou de entrar na casa. A velha fechou a porta e se sentou no sofá, fazendo sinal para que a neta se sentasse próximo a ela. – O que te traz aqui, minha filha? – Vim ver a senhora – fez uma pausa. – E pedir uma ajuda – fez cara de culpada, encolhendo os ombros. – Ajuda para quê? – A avó pareceu preocupada. Elisa nunca havia lhe pedido nada, pelo contrário, a garota era apenas fonte de orgulho. Boa estudante, esforçada, gentil e responsável, ajudando sempre os pais na loja e em casa. – Eu cometi um erro e minha mãe vai me m***r se descobrir – dona Leila ficou mais atenta. Elisa lhe contou tudo, dando ênfase a cada detalhe. Deixando bem claro o quanto sonhava com o que Gabriela estava lhe oferecendo, mas como tinha se precipitado em mentir para ela e agora estava com um problemão. A avó ouviu tudo atentamente, sem intervir nenhuma vez sequer. – E é isso, vovó. Eu sei que é minha culpa, mas não sei o que fazer – confessou aturdida. – Não se aflija, querida. Está tudo bem – deu palminhas animadoras nas costas da mão da neta. – Pode ir para casa e dormir tranquila. – Tranquila como? – Sua avó vai cuidar disso. Dona Leila não quis dizer mais nada. Apenas demonstrava confiança e um sorrisinho orgulhoso nos lábios. Levou Elisa até a porta e repetiu a ordem de ficar bem e aguardar. Ela não sabia o quanto podia confiar na avó para resolver esse problema. Ou se no fim, apenas deixaria a mãe mais irritada por ter apelado a essa intervenção. Mas não tinha outra saída além de seguir a ordem de dona Leila e esperar. No dia seguinte, depois do jantar, a campainha da casa de Elisa tocou. Foi seu Renato que atendeu e recebeu a sogra, com sua postura ereta, apesar da bengala. Depois dos cumprimentos e abraços na visitante surpresa, ela dispensou as adolescentes e pediu para falar com a filha à sós. Elisa deixou o cômodo, mas não sem antes dar uma leve olhada para a avó, que lhe retribuiu uma piscadela. Precisava confiar. Bom, ela nunca viria a saber o que foi dito naquela reunião entre mãe e filha. Mas pouco tempo depois, teve a porta do quarto aberta por Marília, que trazia uma expressão carrancuda e pouco feliz. – Eu autorizo sua viagem com sua amiga nessas férias. E depois fechou a porta atrás de si, na mesma velocidade com que tinha aberto. Elisa nem teve tempo de esboçar nenhuma reação. Ela olhou para a irmã ao lado, que também estava boquiaberta com a súbita mudança de opinião. A mais velha se jogou por cima da mais nova em comemoração. Elisa tinha conseguido. Ela iria passar as férias na praia ********************** Obrigada por acompanhar mais essa história. Amanhã tem mais um capítulo, então não deixa de colocar o livro na sua biblioteca e me seguir por aqui para não perder as notificações, tá? E me siga também em todas as redes sociais: Instagram, Twitter e Tik Tok: @thaisolivier_
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD