Capítulo 4

1217 Words
As malas já estavam fechadas, mas Elisa continuava repassando mentalmente a lista de itens que precisava levar para a sua viagem. E pela vigésima vez constatava que não havia se esquecido de nada. Seu pai a levaria dali uma hora para o aeroporto, onde encontraria Gabriela e a família. Sua mãe não a acompanharia, ainda estava ressentida pela intervenção da avó de Elisa, embora não tenha dito nada à filha. No lugar dela, Helena iria para se despedir da irmã. Seria seu primeiro réveillon na praia e também sua primeira vez viajando de avião. Estava ansiosa e apavorada. Dona Marília também deve ter sentido o aperto no peito, porque antes que a filha saísse pela porta, correu até ela e a abraçou forte. – Juízo lá, garotinha – orientou. – Pode deixar. – E qualquer coisa é só ligar e a gente dá um jeito de te buscar – disse com os olhos marejados. Era a primeira vez que se despedia da filha assim, nunca tinham ficado longe por tanto tempo. – Te amo, mãe. Mesmo com a demonstração de afeto, Marília não foi ao aeroporto. Já tinha se despedido, não queria ter que fazer de novo. Quando Elisa abraçou o pai e a irmã, foi como uma segunda onda de dor. Ficou feliz pela mãe não estar ali, com certeza não se aguentaria e ia se debulhar em lágrimas. Mas a tristeza passou assim que se encontrou com Gabriela. A garota também estava entusiasmada em ver a amiga. Ela estava acostumada a passar os verões na casa da família na Bahia, mas nem sempre podia levar uma companhia, quando levava era sempre uma aventura. Paula e Sérgio, pais de Gabriela, pareciam felizes em ter Elisa com eles. Faziam de tudo pela felicidade dos filhos e também para que eles se entretecem e os deixassem um pouco a sós. Trabalhavam muito, mesmo nas férias. Os dois advogados, tinham um escritório de advocacia, que sentia muito quando os dois se ausentava ao mesmo tempo. Por isso, se mantinham conectados o tempo todo com a sede e seus associados. E Sérgio ficava na ponte aérea, voltando a Belo Horizonte de tempos em tempos. Além de Gabriela, eles tinham Erico, o filho dois anos mais velho. Elisa já o tinha visto algumas vezes nos eventos da escola e nas vezes em que esteve na casa da amiga, mas nunca se falaram antes. Gabriela tinha razão, a decolagem causava mesmo um frio na barriga. Elisa se agarrou ao braço da poltrona, enquanto as turbinas eram ligadas ao máximo. Mas assim que o avião cruzou as nuvens, sentiu uma paz indescritível. Estava preparada para dormir horas, até chegar em seu destino. Mas depois de uma hora e meia, o comandante avisou que estavam prontos para aterrissar. Ela achou que estavam brincando. Como poderiam chegar tão rápido? Com esse tempo, ela m*l chegava ao centro de Contagem em um dia com muito trânsito. Mas era verdade, logo as rodas do avião tocaram a pista de pouso do aeroporto de Ilhéus. Elisa não tinha conseguido ver o mar lá de cima, estava ansiosa para vê-lo dali debaixo. De frente. Um carro os aguardava do lado de fora. Um Toyota SW4 de sete lugares, suficiente para a família e para a acompanhante extra. Sérgio é quem foi dirigindo até Itacaré. Foram mais uma hora de viagem. Pararam no meio do caminho para comprar o que diziam ser a melhor empada do mundo. Depois foram direto até o condomínio fechado, onde ficava a casa de praia da família. – Dá para ver o mar do meu quarto, você vai pirar – dizia Gabriela, bem empolgada. – Antes de saírem, quero todos desfazendo as malas. Nada de quartos bagunçados, ouviram? – Ordenou Paula. – Ouvimos – responderam em uníssono. – Muito bem. – Não se preocupe – Gabriela sussurrou para que só a amiga ouvisse. – Eu sou especialista em desfazer mala. Em meia hora a gente já vai estar na praia. Elisa sorriu de volta, confiando na amiga. Mas para ela não fazia tanta diferença, tinha tanto para conhecer, que só de passear pelo condomínio já parecia interessante o bastante. Porém, Gabriela parecia estar mesmo com pressa. Assim que o carro estacionou, ela saiu voando do carro, levando as malas que conseguia carregar. Elisa fez o possível para acompanhá-la, não queria atrasar a amiga. Erico revirava os olhos para esse desespero da irmã e ao contrário dela, não fez esforço nenhum para descarregar o carro. O pai que precisou dar ordens para que o filho obedecesse. Se ele não se empolgava em estar naquele paraíso. Gabriela parecia especialmente animada. E parte de sua empolgação era em mostrar tudo à Elisa, como uma boa anfitriã. Queria conduzir a amiga por todos os cantos que conhecia tão bem e ensiná-la sobre o modo de vida dos moradores e turistas do local. Fazia tempo que não tinha uma companhia para exibir seu cantinho no mundo. E foi o que fizeram assim que guardaram suas coisas, trocaram de roupa e se esgueiraram para fora de casa, sem que os pais de Gabriela vissem e perguntasse alguma coisa. Elas foram passeando primeiro pelo condomínio. A anfitriã dizia os nomes de cada um dos donos, o que Elisa não conseguia memorizar por motivos óbvios, ela não conhecia aquelas pessoas e era gente demais para lembrar. Gabriela também acrescentava detalhes sem importância algumas, como “ali foi onde eu caí de bicicleta aos 12 anos e ganhei essa cicatriz”. Mas a amiga ouvia atentamente a todas essas informações e acenava com a cabeça sem parar. Vez ou outra dava um sorriso para incentivá-la a continuar contando. Depois desceram por uma rua de pedras que ao fim do quarteirão, se virasse à esquerda, levava ao centro comercial da cidade. Eram infinitas lojinhas e restaurantes, dos mais diversos tipos de culinária. Italiana, mediterrânea, árabe e até japonesa. Qualquer coisa que quisesse comer, era possível encontrar ali. Elisa até achou aquela rua parecida com algumas ruas de seu bairro, tirando o luxo de alguns estabelecimentos. Mas aquela vibração de que todos se conheciam, de cidade do interior, era a mesma de onde morava. Esperou que Gabriela começasse a lhe apresentar as pessoas dali, mas ela não o fez. Passaram direto, sem parar em nenhum daqueles estabelecimentos, sem nem mesmo cumprimentar ou dar um tchauzinho. Elisa pensou que a amiga estivesse mesmo apressada para ver o mar. Ainda mais ansiosa do que ela. Mas a alguns quarteirões dali, entendeu a correria. Sem avisos, quando elas viraram uma esquina, a imensidão do azul cruzou os olhos de Elisa. Ela não lembrava dele daquele jeito. Era mais verde do que pensava, mais calmo e menos assustador. Talvez fosse por ter crescido e se assustasse com mais dificuldade agora. Mas ainda estava admirada, embasbacada com o que via. Andou em linha reta, como se estivesse em um transe. Tocou os pés na areia e sentiu a brisa do mar lhe bagunçar os cabelos cacheados. Ela tinha conseguido, estava na praia. ********************** Obrigada por acompanhar mais essa história. Amanhã tem mais um capítulo, então não deixa de colocar o livro na sua biblioteca e me seguir por aqui para não perder as notificações, tá? E me siga também em todas as redes sociais: Instagram, Twitter e Tik Tok: @thaisolivier_
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