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Miami- Flórida
08:11 am
A água caia sobre meu corpo, uma sensação estranha tomava minha mente, a dor de cabeça e enjôo era apenas um lembrete da noite de ontem. Respirei fundo abrindo meus olhos, desliguei o chuveiro e sai do box pegando uma toalha e enrolando em meu corpo. Parei na frente do espelho e passei minha mão pelo espelho embaçado pra deixar a imagem mais clara.
Observei minha imagem, meu cabelo loiro que agora estava escuro por estar molhado, minha toalha rosa clara ao redor do meu corpo, minha veias amostra já que minha pele era pálida.
-Preciso tomar Sol urgentemente- resmunguei pra mim mesma ainda olhando pro meu reflexo. Meus olhos pousaram no hematoma levemente roxo em meu ombro que antes estava coberto pela maquiagem mas agora, nítido pelo banho.
Passei o dedo por cima estremecendo de dor, fechei os olhos e respirei fundo lembrando do motivo do hematoma, eu queria não lembrar, mas era impossível.
Saí do banheiro e vesti uma roupa mais confortável já que eu não teria compromissos hoje. Coloquei uma blusa fina de manga comprida cinza e uma calça moletom preta. Sentando-me à beira da cama, peguei uma escova de cabelo e comecei a desembaraçar os fios úmidos. A calma do ato de pentear, normalmente rotineiro, tornou-se uma pausa silenciosa antes de enfrentar o dia.
No entanto, antes que eu pudesse terminar, a porta se abriu suavemente, revelando Anastasia, uma das empregadas da casa. Seu rosto expressava uma mescla de preocupação e cuidado. -Senhorita Violet, o café está pronto. Sua família espera por você na sala de jantar. Haverá uma reunião familiar- anunciou ela com uma voz suave.
Uma onda de desconforto percorreu meu corpo. Eu simplesmente odiava a reunião familiar. Sempre havia discussão, brigas e discórdia. -Fala pra eles que já irei, estou ocupada não está vendo?- sem dar a mínima, voltei a escovar meu cabelo.
Anastasia ficou por um momento, como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas acabou se retirando do quarto. Enquanto eu finalizava o penteado, olhei para o espelho mais uma vez. -Espero que não tirem meus cartões de crédito.- Pensei antes de sair do quarto.
…
Desci a imponente escadaria da mansão, meus passos ecoando no salão espaçoso. Cada degrau parecia uma transição entre a tranquilidade do meu quarto e a iminência do encontro familiar. No entanto, o meu pensamento momentâneo sobre os cartões de crédito revelava um recebimento, uma pitada de rebeldia em meio às obrigações familiares.
Ao descer o andar térreo, o aroma tentador do café da manhã flutuava pelo ar. O elegante corredor levava à suntuosa sala de jantar, onde a longa mesa estava disposta com um banquete digno da alta sociedade.
Lá estava minha querida família.
Meu pai Joseph sentado na cadeira principal, sua expressão séria. -Violet, finalmente decidiu se juntar a nós- disse ele com um tom autoritário, como se minha presença fosse mais uma formalidade do que um desejo genuíno.
Olhei pra lateral da mesa vendo Manson, com seu olhar distante e postura relaxada, sempre envolto em sua própria aura de indiferença, ele não se deixou influenciar pelo status social da família, buscando sua própria liberdade dentro dos limites impostos pela nossa posição.
-Sou obrigada a estar aqui papai- sorri falsamente e acomodei-me à mesa, mantendo um ar de desinteresse. Peguei a jarra de suco e despejei o líquido em meu copo. -Afinal qual o assunto? Não vão retirar meus cartões de créditos né? Morreria sem eles- dei um sorriso descontraído.
-pirralha, o assunto não é esse.- ouvi Manson dizer enquanto eu bebia um gole do suco, Joseph apenas observava, e assim comecei a falar sem querer escutar ele.
-Então qual é? Mudaram os guardas de costas?
-Violet…
-Papai comprou uma nova empresa?
-Não! Violet-
-Vamos nos mudar de país?
-Violet…
-O meu Deus! Estamos falindo?!
-VIOLET!- Manson finalmente explodiu , suas mãos bateram na mesa pra chamar minha atenção, seu semblante tranquilo foi rompido pela minha fala incessante. Seus olhos falavam com frustração, e ele interrompeu meu discurso com um tom áspero.
-A mamãe morreu!
Olhei pra Manson em choque.
-Ótima maneira de começar o dia! Que piada horrorosa manito.- dei uma baixa risada e tomei mais um gole de suco.
-Não é brincadeira sua i****a, a mamãe morreu. Ontem a noite encontraram o corpo dela. - As palavras ecoaram, preenchendo o silêncio com uma dor que nenhuma quantidade de palavras poderia aliviar.
As palavras emparelharam no ar, e um nó apertava minha garganta. A recusa em aceitar a perda transformou-se em uma barreira emocional que eu lutava para manter.
-Isso não pode ser verdade- sussurrei para mim mesma enquanto me levantava da cadeira, o petite havia sumido. Olhei ao redor buscando uma saída da realidade que se desenrolava diante dos meus olhos.
Minha mãe, Aurélia Vanderbilt, era uma mulher que transcendia os rótulos convencionais. Sua presença irradiava uma amabilidade que tocava a todos ao seu redor, como se cada sorriso seu fosse um raio de sol aquecendo corações. A palavra "amigável" m*l conseguia capturar a extensão da sua gentileza. A amabilidade que irradiava de Aurelia criava um ambiente especial em nossa casa. Era como se ela pudesse suavizar as arestas mais afiadas da vida, transformando nossa mansão opulenta em um verdadeiro lar. Seus olhos verdes escuros eram portais de compreensão, acolhendo minhas alegrias e afastando minhas tristezas.
-Como? Como ela morreu?- perguntei baixo e levantei o rosto para olhar Joseph. - Os policiais disseram que sabotaram o carro da sua mãe e ela perdeu o controle, logo após da batida seu corpo foi esfaqueado. Não sabemos como exatamente aconteceu porque a perícia ainda está trabalhando.
A sala parecia girar, e eu me agarrei à beirada da mesa, buscando qualquer apoio para enfrentar a onda de emoções avassaladoras. De repente, Manson se levantou e me puxou pro seus braços. -Vem cá, pirralha.- Seus braços, antes firmes, agora envolviam meu corpo com uma delicadeza que eu desconhecia nele. O calor do abraço de Manson era um contraste notável com a frieza do ambiente ao redor. Enquanto Manson me envolvia, senti um refúgio temporário, um porto seguro em meio à tempestade emocional.
Enquanto eu me apoiava no abraço de Manson, uma sensação de abandono me envolveu. Meu pai permanecia imóvel, como se a morte de sua esposa não tivesse provocado sequer um tremor em sua expressão imperturbável. -Você… é um canalha, você nunca amou ela!- Falei olhando pra ele.
As palavras escaparam de meus lábios impulsionadas pela torrente de emoções reprimidas. -Violet, calma.- Manson segurou meu ombro, tentando acalmar o ímpeto de minha raiva, mas eu me soltei de seu abraço, encarando meu pai com olhos enevoados de indignação.
Joseph, impassível, ergueu um olhar gélido em minha direção. -Violet, não é o momento para suas acusações infundadas. Você não compreende as complexidades da vida adulta.-
-Complexidades?- Retruquei com sarcasmo. -Você a tratava como uma transação de negócios, e quando ela se vai, você permanece tão frio quanto sempre foi.- O silêncio que se seguiu foi pesado, preenchido apenas pelo eco de minhas palavras impetuosas. Joseph jogou o guardanapo na mesa e se levantou da mesa, a raiva era clara. Ele caminhou até mim mas Manson ficou na minha frente pra impedir qualquer coisa.
-Ingrata, como ousa falar assim comigo?! Eu sou seu pai!
-Não temos mais nada a perder, não é mesmo Joseph? Agora que ela se foi, a fachada pode cair.
Joseph cerrou os punhos e se aproximou ainda mais. Manson, com olhos faiscando de indignação, se interpôs entre nós, erguendo a mão em um gesto de contenção. -Nem pense em colocar um dedo nela!
Joseph olhou incrédulo e cruzou os braços -Vocês dois, precisam aprender a respeitar a família!-
-Família? Uma palavra que você usa quando convém.- falei sarcasticamente enquanto as lágrimas escorriam em meu rosto. -Chega Violet!- Manson, de repente, me pegou como se eu fosse uma pena, jogando-me sobre seu ombro.
Manson subiu as escadas com cuidado, sua expressão preocupada refletindo a intensidade do momento. O silêncio no corredor era interrompido apenas pelos soluços abafados e pelos passos determinados de Manson, que me levava em direção ao meu quarto. Minha cabeça repousava em seu ombro, os soluços intercalando-se com palavras silenciosas de desabafo. Joseph, com sua aura fria e indiferente, saiu da sala sem uma palavra, como se desinteressado pelo tumulto emocional que se desenrolava.
Ao alcançar o quarto, Manson entrou e cuidadosamente me colocou na cama. Ele sentou ao meu lado, seu olhar refletia uma mescla de preocupação e carinho diante do turbilhão de emoções que nos envolvia. O silêncio do quarto era agora substituído apenas pelos soluços abafados que escapavam de mim.
-Manito, quero a mamãe.
Ele revirou os olhos e envolveu-me com seus braços, e eu me encolhi em seu colo, buscando um refúgio na presença reconfortante de meu irmão.
Acho que se ele morresse, eu iria junto.
-Pirralha, eu sei, eu sei p***a!- ele acariciou meu cabelo, afastando os fios grudados em meu rosto molhado de lágrimas. -Para de chorar, prefiro ver você me m***r do que ver lágrimas escorrendo em seu rostinho horrível.- Ele tentava sorrir, uma tentativa sincera de trazer um vislumbre de esperança à escuridão que nos cercava, mas as lágrimas em seus olhos vermelhos o traíram.
Sorri tristemente afundando meu rosto em sua jaqueta. Manson... seus olhos verdes escuros, profundos como um campo verde em uma noite sem estrelas. Seu cabelo preto, rebelde como sua personalidade, sempre desafiando as expectativas. Mesmo entre as brigas, havia uma conexão indescritível entre nós. Uma ligação que transcendia palavras e discórdias, como se nossas almas compartilhassem uma sintonia única. Manson era meu irmão, meu confidente, e mesmo quando as palavras falharam, a compreensão mútua permanecia.
…
18:01 pm
O céu estava nublado e cinzento, caía uma fraca garoa. Eu usava um vestido longo justo de manga comprida, meu cabelo solto com um laço preto, meus pés num salto pequeno e curto. Caminhava lentamente entre os túmulos, seguida pelo restante da família. O velório foi uma coisa rápida, apenas para amigos mais próximos já que Joseph queria o mais rápido possível enterrar sua querida esposa.
E agora era o momento da família.
O silêncio entre nós era opressivo, cortado apenas pelo som suave da chuva tocando as folhas das árvores. Cada passo era uma jornada solitária, mesmo cercada por aqueles ligados pelo sangue. Olhares de pesar cruzavam-se, mas as palavras permaneciam presas na garganta, afogadas pela tristeza.
Ao chegarmos ao túmulo recém-preparado, minha respiração vacilou. O caixão de minha mãe repousava ali, um símbolo frio e c***l da inevitabilidade da vida. Joseph, ainda com sua postura impenetrável, e Manson, habitualmente destemido, mostrava-se mais vulnerável do que nunca. A voz do pastor, suave e consoladora, preenchia o espaço enquanto ele oferecia palavras de conforto e esperança. Mas, para mim, tudo soava como um murmúrio distante, como se estivesse em um mundo à parte.
Quando chegou o momento de jogar a primeira pá de terra sobre o caixão, a gravidade da perda pareceu esmagadora. Cada partícula de solo que caía era como um lembrete c***l da separação inevitável. -Não aguento olhar…- murmurei.
-Então não olhe.- resmungou como se fosse uma coisa simples, senti ele me puxar pegando o guarda-chuva da minha mão e me abraçou, afundei meu rosto em seu peito.
A chuva caía misturando-se com as lágrimas que teimavam em escapar. Em meio ao luto, um soluço contido rompeu a melancolia do momento.
De repente, percebi Joseph se afastando, sua figura imponente se dirigindo a um homem que apareceu perto dali. Uma aura de intriga rodeava a conversa deles, e a tensão era palpável no ar úmido. A curiosidade aguçou meus sentidos enquanto Manson mantinha seu abraço protetor, como se soubesse que algo mais estava prestes a acontecer.
-Quem é aquele?- perguntei baixo. - Apenas mas um assunto do Papai. Relaxa.- Manson respondeu sem se preocupar e voltou a olhar pro caixão que cada vez mais ia sumindo com a terra.
Encarei o homem que Joseph conversava, ele usava um chapéu que cobria metade do rosto, e de repente deixei escapar. -Ele parece ser pobre…- Manson bateu em meu braço me olhando sério, mas eu sabia que ele queria rir entre as lágrimas. - p***a Violet.
Mas foi quando reconheci o homem misterioso, um flashback voltou a minha mente da noite anterior. É o mesmo homem que me ajudou com o carro! Minha expressão passou de surpresa para confusão. Joseph, ao notar minha expressão, lançou-me um olhar afiado, como se quisesse evitar que minhas palavras causassem algum estrago. O homem misterioso ergueu o olhar na minha direção, e por um instante, nossos olhos se encontraram em um silencioso entendimento.
Um arrepio percorreu meu corpo como se uma carga elétrica tivesse passado por mim. Mas ao mesmo tempo, um sentimento r**m como um desconforto e raiva. Toda a família ao redor parecia não notar e apenas mergulhavam no luto e choro.
De repente, o homem começou a se aproximar do túmulo de Aurélia, com sua postura firme e determinada. O solo encharcado pela chuva parecia se rebelar sob seus passos, como se a própria natureza respondesse à sua presença. Meu coração acelerou, e uma voz interior alertou sobre a estranheza desse momento.
Eu estava tão focada nele que nem percebi os familiares se afastando do túmulo e seguindo o padre, assim que a oração acabou.
-Aurélia… você apenas se libertou do desprezo do amor, descanse em paz.- Sua voz era baixa, porém firme e grossa. Joseph cerrou os punhos ao ouvir essas palavras. -Ethan, vá embora.
Continue focada no homem misterioso que agora tinha um nome. -Ethan…- deixei escapar dos meus lábios seu nome, o olhar dele se direcionou até mim. -Olá novamente, Princesa.
A palavra “novamente” fez Joseph e Manson me olhar com confusão em seus olhos. -Vocês se conhecem?- Manson o encarou como se fosse uma ameaça.
-Não, claro qu…- antes de eu terminar de falar, ele me interrompeu:
-Claro , a princesa precisava de ajuda pra não ficar largada no meio da rua em plena madrugada. Que coisa f**a mocinha.- sorriu sarcasticamente, minha expressão ficou séria. Quem ele pensa que é ?
-Cala boca!-
-Princesa, estamos em um cemitério, cuidado com a boca-
Gemi irritada revirando os olhos. -Joseph, mande ele ir embora, aqui não é lugar para seus assuntos particulares!- Manson disse olhando pra Ethan que olhava diretamente pra mim.
-Sullivan, nós deixe em paz, pelo menos hoje.- Joseph resmungou irritado.
Além de pobre, é teimoso. Meu deus.
Ele se virou até mim e se aproximou novamente, senti seu dedo traçar meu queixo e limpar uma lágrima que escorria em minha bochecha ,uma sensação estranha percorreu meu corpo, minha expressão mudou.
-Cuide-se princesa.- Antes que eu tivesse a chances de responder, Manson o empurrou com faísca nos olhos. -Ela não Ethan, você fica longe dela.
Ethan revirou os olhos. -Vocês ricos são tão chatos.- zombou e apontou pro papai -Você, Sr. Vanderbilt...- Ele se aproximou e sussurrou algo em seu ouvido, a única coisa que consegui ouvir assim que me inclinei foi “dinheiro”.
Papai estava com dívida?
Assim que terminou de falar, olhou e acenou diretamente pra mim antes de finalmente começar a caminhar para fora do cemitério. Meu corpo relaxou. Pobre e i****a.
Manson e Joseph mantinha os olhos fixos em Ethan, certificando-se de que ele realmente se afastava.
-Fique longe dele e esqueça oque aconteceu, ouviu ?- Manson perguntou e eu assenti, tentando dissipar a tensão que se acumulava no ar. O encontro com Ethan trouxe à tona mais perguntas do que respostas, e a sensação que que ele retornaria, pairava como uma sombra sobre mim.
-Quero uma explicação depois- murmurei, Joseph me encarava sério mas desviou assim que se virou pra sair seguindo os familiares.
Minha atenção voltou para o túmulo de Aurélia, que agora estava tampado de terra. As flores que antes decoravam o local, estavam encharcadas pela chuva, criando uma atmosfera melancólica. O luto continuava a me envolver, mas a intriga dos segredos não resolvidos permanecia pulsante em meu peito.
Me agachei e coloquei a flor vermelha em cima da terra onde agora, seria o túmulo de Aurélia.
-Descanse em paz mamãe…
Sussurrei me levantando, me virei pronta pra começar a sair dali. Manson colocou o braço ao redor dos meus ombros, oferecendo um conforto silencioso enquanto nos afastávamos do local do funeral.
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Quem será que sabotou e esfaqueou Aurélia?
Porque Ethan apareceu no enterro? Oque ele falou pra Joseph?
Porque todos parecem esconder segredos de Violet?
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Desculpe qualquer erro.