CAPÍTULO 3

1958 Words
Jonh ajuda a Dona Helena com os pertences de Rosa, ela se ajeita na cadeira de rodas que foi providenciada para o seu deslocamento até o carro, e vão ao encontro de Peter que está esperando na entrada do hospital. Quando passam pelo saguão, Neto olha a situação, meio confuso, e pergunta a Dona Helena para onde elas estavam indo. Ela então responde que, decidiu que iriam para casa com John, pois ele fez muita questão, afinal o coitado estava se sentindo m*l devido a tudo que aconteceu com a Rosa. Neto fica irritado e começa a esbravejar: — Quem esse mauricinho pensa que é? A senhora não vê? Ele está se aproveitando da situação, e dando em cima dela. Sei bem que tipo de culpa ele está sentindo. Ele não tem nada o que fazer indo até a comunidade. Não é o mundo dele, essa filha p**a acha que está indo para Disney? Dona Helena o repreendeu dizendo: — Olha essa boca rapazinho, cadê o seu respeito? Isso é coisa da sua cabeça, você só está bravo assim porque ainda sente ciúmes de Rosa. Até quando você vai ficar se iludindo e tentando voltar a namorar com ela? Você sabe que ela te considera apenas como irmão. Segue sua vida meu filho, não perca o seu tempo se enganando e alimentando falsas esperanças. E tem outra coisa, você sabe que tem muitos inimigos, não é inteligente da sua parte ficar saindo da comunidade, você pode acabar sendo preso, ou pior até morto. Volta para casa e pare de chamar tanta atenção para si, quando tudo estiver bem eu te telefono e você vem nos fazer uma visita. Vou passar um café bem quentinho e fazer aquele bolo de fubá que você tanto adora. Ela dá um longo abraço no rapaz, e pede para que tenha juízo. Por favor avise aos seus amigos que o John está indo até a comunidade, não quero que ele passe por nenhuma revista violenta, ou qualquer constrangimento, ele está sendo muito gentil comigo e com minha filha, e também me parece ser um bom homem. Neto consente com a cabeça, ele nunca dizia não a Dona Helena, a considera como uma mãe, já bastava o desgosto que ele tinha dado a ela por levar a vida que vivia. Perdeu as contas de quantas vezes chorando, ela implorou que abandonasse tudo aquilo, e fosse embora da comunidade, recomeçasse a sua vida em outro lugar. Uma vida diferente, ganhando dinheiro de forma honesta, sem cometer crimes, sem machucar ninguém, nem viver se escondendo como um bicho. Neto muitas vezes também já sonhou com isso, ir embora arranjar um emprego e mandar dinheiro para que Rosa fosse encontrar com ele, e ali vivessem uma vida normal juntos. Mas isso não era mais possível, primeiro porque já estava perdendo as esperanças de reconquistar a moça, agora com esse mauricinho na parada, então, iria ficar muito mais difícil, e segundo a vida do crime castiga, raramente tem volta. Ele não podia decepcionar Dona Helena, nem Rosa, e se por um acaso essa fosse a escolha dela, ele respeitaria, apesar da vontade de dar um sumiço naquele cara. “Respeitaria p***a nenhuma, pensa ele. Não sou homem de perder, se Rosa não ficar comigo não vai ficar com mais ninguém. Eu sou o dono daquele lugar c*****o, eu mando naquela comunidade. Quem ela pensa que é para me desrespeitar assim na frente de todo mundo? Geral na comunidade sabe que sou apaixonado por ela desde moleque. Ficar enfiada num quarto estudando e não querer saber de mim é uma coisa, mas ficar desfilando com um riquinho branquelo para cima e para baixo no morro é outra coisa bem diferente. Ela sabe como termina todos os seus desafetos, seria por conta e risco dela continuar com essa história. Dona Helena se despede de Neto, e vai para o carro onde todos estavam esperando por ela. Ele faz conforme foi pedido por Dona Helena e ordena a liberação da passagem do carro de John, sem nenhuma parada e nem revista. Dentro do carro um silêncio cortante, até que o gelo é quebrado por Dona Helena que pergunta a John. — Então meu filho, o que você faz da vida? Deve ser um emprego muito bom, pois você tem até motorista. Rosa interrompe a conversa: — Mãe pelo amor de Deus, não me mata de vergonha. John sorri, porque a moça fica vermelha de constrangimento com a pergunta que a mãe tinha feito. — Não tem problema nenhum perguntar, eu trabalho no ramo de hotéis, quando disse que meu patrão não se importaria em levá-las em casa e que faria até questão, pois bem, ele está muito contente, eu trabalho pra mim, sou meu próprio patrão. Dona Helena abre um grande sorriso e diz: — Então ele também não vai se importar, se você ficar mais um pouco e tomar um cafezinho com a gente. — Claro que não. Diz John. Mas, não quero incomodar. — Não será incomodo nenhum, meu filho. Ela responde satisfeita. Quando chegam na comunidade, os olhares dos moradores e dos agentes do tráfico são intimidantes. Mesmo sendo avisados por Neto que o carro em que John estava deveria passar sem nenhum tipo problema, os mesmos fizeram questão de deixar claro que ele não era bem-vindo. Dona Helena acalma John e Peter dizendo que não tem com o que se preocupar, pois estão seguros. John nunca havia entrado numa comunidade. Só tomava conhecimento que aquela realidade existia quando ouvia notícia em algum jornal sobre guerra entre facções, algum cativeiro sendo estourado por policiais, ou quando os mesmos subiam a favela para prender algum traficante. Ele observa impressionado as construções inacabadas e sem nenhum planejamento, o comércio no meio da rua, homens fortemente armados e com rádio comunicadores, crianças correndo no meio de toda aquela movimentação como se tudo aquilo fosse normal, mas, na verdade era, pelo menos para os moradores aquilo fazia parte da sua rotina. — Chegamos é aqui. Diz Dona Helena. O barraco onde Rosa morava era no final do beco, não tinha como subir nem de cadeira de rodas, nem de muletas. Eles descem do carro e todos olham para cima imaginando como Rosa chegaria até em casa. Foi quando John se aproximou, dizendo: — Vou ter que te carregar no colo, mocinha. O rosto dela fica enrubescido de vergonha, mas infelizmente para ela não teria outra maneira de chegar em casa, então não ofereceu resistência. Ele aproxima-se, e pede permissão para passar o braço em volta da sua cintura, se abaixa um pouco, faz um movimento de balanço e a pega no colo. Ela sente o seu coração disparar, quando o seu corpo encosta no corpo de John, sente um arrepio quando o seu rosto fica ao lado do dele, agora ela consegue sentir ainda melhor o seu perfume. Os seus olhos cruzam-se e ela desvia o olhar, as mãos de John são firmes e a sua pegada bem forte. — Pronta? Pergunta ele. Rosa responde que sim. Cada passo que ele dava apertava mais o seu corpo contra o dela, para não perder o equilíbrio e os dois viessem a cair. Nunca sentiu uma sensação assim, um desejo tão forte de beijar alguém. Ela se esforça para que ele não perceba as sensações que ele causava nela, e rezava para que chegassem logo em casa e pudesse se afastar de John e então se recompor. — É aqui. Disse ela. Se pudesse pularia do colo de John, mas seu pé não permitia. Ele pede licença, entra na casa e coloca Rosa sentada no sofá. Dona Helena entra logo em seguida e vem arrumando a bagunça da sala e de cima do sofá. — Sente- se, meu filho, só não repare a bagunça a casa é de pobre, mas é limpinha. Não tive tempo de arrumar com toda essa correria de hospital. John se ajeita e senta no sofá dizendo para Dona Helena não se preocupar, pois ele estava bem. — Vou passar um café quentinho para gente e já volto. Ele sorri e concorda com a cabeça, os dois ficam sozinhos na sala e novamente o silêncio é constrangedor. Rosa pede para ele não reparar, pois a sua mãe é muito acolhedora e amigável, gosta de receber bem as pessoas, e como em toda casa de gente humilde, ninguém saía da casa da Dona Helena sem tomar um cafezinho e comer o seu famoso bolo de fubá. Jonh sorri se sentindo à vontade. Na verdade, era a primeira vez que se via desarmado num lugar. Sem a máscara costumeira, que usava para afastar as pessoas. Estranhamente estava se sentindo bem naquela casa e queria estar lá. O clima era bom, e amoroso, completamente diferente dos lugares em que era recebido, ninguém fingindo ser interessante, nem inteligente, nem querendo chamar a sua atenção para conseguir alguma vantagem. Dona Helena chega trazendo uma bandeja com uma garrafa de café, três xícaras e um delicioso bolo de fubá. — O cheiro está maravilhoso. Disse John — Pode comer quantos pedaços quiser, meu filho. Fique à vontade. Dona Helena fala toda orgulhosa. Ela serve um pedaço de bolo para John e uma xícara de café. Ele começa a comer e solta um pequeno gemido de satisfação. — Hum… Que delícia! Nunca comi um bolo tão gostoso. Ela fica toda satisfeita e então pergunta: — Você é casado meu filho? Rosa quase se engasga com a indiscrição da mãe. — Dona Helena, pelo amor de Deus, o que o John vai pensar? Deixa de ser mexeriqueira. John dá uma gargalhada e diz que não tem problema, que é solteiro, que trabalha muito e ainda não teve como engatar um relacionamento. Mas que gostava da vida de solteiro, pois tinha um pouco de dificuldade em lidar com as pessoas. — É o dinheiro, meu filho. Esse maldito faz todo mundo ficar desconfiado das pessoas, e gente r**m se aproximar tentando se aproveitar. Numa simplicidade e sabedoria intrigante, Dona Helena resumiu o sentimento de John a vida inteira. — Mas não deixe isso acontecer. Você é um rapaz bonito, educado e cheio de vida, com certeza tem muita mulher doida pra te laçar. Rosa leva as mãos no rosto e abaixa a cabeça. A sua mãe já tinha esgotado toda cota de vergonha que um ser humano normal poderia passar em um só dia. — Acho que já é hora de ir. Ela diz para John praticamente o expulsando da sua casa. Se você ficar mais um minuto aqui a minha mãe com certeza vai te perguntar seu CPF e arranjar um casamento para você. Ele dá uma risada gostosa e se levanta do sofá, entregando a xícara para Dona Helena agradecendo pela gentileza e todo o carinho com que foi tratado. — Há muito tempo não me divirto tanto assim. Disse John entregando a xícara de café para Dona Helena. Para falar a verdade, nem me lembro de ter passado uma manhã tão agradável. Ela recebe a xícara e a coloca em uma mesinha de centro que fica no meio da sala e abre os braços para que John possa abraçá-la. — Se a senhora não se importar gostaria de repetir essa visita mais vezes. — Claro que não me importo, meu querido. Será um prazer, venha quando você quiser. John vai até o sofá, pega a mão de Rosa e dá um beijo deixando-a envergonhada, e entrega a ela o seu cartão. — Aqui está o meu número de telefone. Me ligue a qualquer hora que precisar. Amanhã eu entro em contato para saber como você está, e para acertarmos sobre o conserto de sua moto. Ele se despede mais uma vez das duas e vai embora.
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