Prólogo:
Eu, ajoelhada perto da janela, escondida entre o parapeito e a cortina. É o meu lugar favorito para conversar intimamente com Ele. De olhos fechados, mantenho-me em silêncio, deixando as lágrimas correrem pelo meu rosto. Suplico ao Senhor que tire essa dor de mim.
Como diz o salmista: “A minha alma se derrete de tristeza.”
Há algumas horas, aconteceu o sepultamento da pessoa que mais me amou, abaixo de Deus, minha avó Nanda. Eu a amava tanto!
Éramos somente nós duas. O seu único filho era meu pai. Ele e a minha mãe cortaram relações com a vó Nanda, desde o dia em que me trouxe para morar com ela na cidade de Greville.
Senhor Yuri, se tornou uma pessoa soberba. Contudo, minha avó nunca deixou de orar por eles.
Nunca entendi o porquê de meus se tornar tão horríveis, mas sei quando tudo começou. Meu pai recebeu uma herança milionária de um tio distante que ele m*l conhecia.
Embora já fôssemos uma família rica, morávamos no morro e isso significava a sua posição social. Além disso, tem a questão de qual família você é pertencente. Ou seja, mesmo se tornando milionários e saindo do morro, eles nunca foram bem aceitos.
Para a alta sociedade da cidade de Neville, não importava o quanto dinheiro você continha e sim a família da qual você vinha. E os meus pais não tinham um sobrenome digno, não viemos de nenhuma das famílias hierárquicas. A elite. Elas são quem manda na cidade de Neville. E no topo, acima das outras, na primeira linha hierárquica, estão os Acostas Montana.
Não sei muito sobre eles, mas são uma família estranha. Diferente das demais, quase não os vemos na mídia.
— Oh, Deus! Sussurrei entre soluços engolidos. — Temos a promessa de alegria, eu sei. Nossa felicidade não será constante, mas…
“Deus enxugará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas” (Apocalipse 21:4).
A dor do luto é real, como também a paz que vem de Deus.
A dor que sinto não pode ser medida e eu não fingirei que não existe. Fiquei presa àquele estado até adormecer. Este era um dos dias mais difíceis da minha existência.
***
[. . .]
Capítulo 1 - Dias depois…
Desci os degraus sem muito entusiasmo. Estou vivendo os piores dias da minha existência sem a vovó. O outro foi quando meu pai recebeu a herança.
Eles queriam até mesmo me prometer em casamento. Eu, aos meus 12 anos, quase fui dada por meus pais a um velho asqueroso.
Hoje, já não sinto mais o ódio, nem a mágoa que estava enraizada no meu coração. No entanto, a adolescência foi difícil, tornei-me uma garota rebelde e fiz o que é possível imaginar. Com exceção de matar, roubar e desrespeitar a minha avó.
Me doía a rejeição de meus pais, eramos uma família feliz. Eu amava ir à confeitaria, gostava de ver o meu pai fazer seus deliciosos doces e salgados.
Sim, nós eramos felizes!
O problema não é o dinheiro ou a riqueza, mas a atitude das pessoas em relação a isso. E a ganância levou os meus pais à ruína.
Eles nunca entraram em contato para saber como estava ou se precisava de alguma coisa. Somente soube deles, porque a minha avó sonhou com meu pai e foi visitá-lo.
Quando retornou, com a notícia de que eles estouraram quase todo o dinheiro da herança e o que sobrou, minha mãe roubou de meu pai e fugiu com o amante. Quis ir até lá, abraçá-lo e dizer que tudo ficaria bem. Entretanto, ele me culpou, disse para minha avó que, se eu tivesse me casado, nada daquilo teria acontecido.
E para piorar a situação, as duas confeitarias faliram.
Então, parei de cogitar essa ideia, mas admito que sinto muito a falta de casa e da minha melhor amiga, Laís. Já tem uns três anos que não nos falamos mais, perdemos contato. E, eu não gosto de redes sociais, é um mundo muito tóxico. Desde quando permitir Jesus entrar na minha vida, que desativei todas as contas.
Mas estou pensando em reativá-las novamente, preciso mostrar para o máximo de pessoas o que Deus fez na minha vida e ainda há de fazer muito mais.
Ouço o barulho na cozinha e sei exatamente de quem se trata. Caminhei vagarosamente até lá.
— Dormiu novamente daquele jeito? Uma hora dessas, te encontrarei caída debaixo daquela sacada.
Passei por ele e fingi não o notar, essa é a consequência das burrices que você faz. Decidi morar com esse abençoado, ele era amoroso e me apelidou carinhosamente de minha n**a. Porém, quando vi o celular dele, não era a única, tinha uma senzala. E, como ele não queria nada com Deus, era a confirmação de que eu precisava para terminar de uma vez.
Estava apenas atrasando a minha vida e impedindo o meu batismo. Não somos casados e graças a Deus! — Estou falando com você, Melina Saori.
Melina — Não somos casados, Brian. Essa casa não é a sua, vá embora e me deixe em paz de uma vez por todas.
Brian — Não pense que se livrará de mim, Melina. Eu ainda sou seu marido, quer você queira ou não.
Melina — Só na sua cabeça doente e solte o meu braço. Ele soltou. — Agora saia da minha casa.
Ele riu, mas é um sorriso perverso.
Brian — Lembra do que o antigo pastor da sua igreja falou? É sua obrigação orar por mim e continuarmos juntos.
Melina — É, e onde ele está agora? Preso! E infelizmente você não está também, papai tem dinheiro para pagar fiança.
Ele se aproximou de mim, mas alguém entrou na casa.
Alguém — Melina? É a esposa do pastor Russel. — Desculpa entrar assim, mas a porta estava aberta e ficamos preocupados.
Russel — Está tudo bem, Melina? Você não foi mais aos cultos, ficamos preocupados e viemos fazer uma visita.
Melina — Estou bem, um pouco mais calma agora. A porta se encontra aberta porque o Brian já está de saída, não é mesmo? Ele só veio me fazer uma breve visita, irmã Rute.
Ele balança a cabeça e sai, nos deixando a sós.
Rute — Desculpa por invadirmos assim sem pedir licença. Ficamos tão preocupados que nem mesmo demos a paz.
Ela riu e me abraçou. Observo o meu pastor, que continuou olhando para Brian até que ele sumisse do alcance de nossa visão.
Ele solta o ar com força e diz:
Russel — Melina, quero que arrume todas as suas coisas. Você ficará conosco em nossa casa pastoral. Não sinto nada bom naquele rapaz.
Franzi a testa.
Rute — Eu também não, ficamos aflitos quando encontramos a porta aberta. A irmã Nanda pediu que cuidássemos de você. Por favor, não seja teimosa e vamos para nossa casa. Pegue tudo que for necessário e venha conosco.
Balancei a cabeça e subi para arrumar as minhas coisas com a ajuda da irmã Rute. Um tempo depois, desci com algumas malas. Arrumamos tudo no carro do pastor e no meu fusquinha, presente de minha avó.