Capítulo 2

1197 Words
De pé, diante da casa onde passei os anos mais felizes com minha avó, de coração partido, assisto às chamas avermelhadas a destruí-la lentamente. Lágrimas correm timidamente pelo meu rosto e, fingindo não as notar, dou graças a Deus. Poderia ter sido pior, a intenção de Brian era me matar. “Dai graças ao Senhor, porque ele é bom.” Rute — Tudo ficará bem, meu amor. Ela me envolveu num abraço carinhoso e afagou minhas bochechas, enquanto limpava minhas lágrimas. — Deus sabe o que faz, Mel. — Sei que sim, ter ido para casa pastoral foi um livramento de Deus. Só não entendo porque tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Respirei profundamente para me acalmar. Esta manhã, recebi uma ligação anônima informando que a minha casa havia sido queimada. Não acreditei, a princípio. Sabia que a ligação era do Brian, meu número é novo e poucas pessoas sabem dele. No entanto, a irmã Ester, que reside perto, me ligou para perguntar onde eu estava e se estava bem. Rute — Vamos à delegacia registrar um boletim. Encontraram um galão de gasolina, esse incêndio foi intencional. Balancei a cabeça e deixei que ela me conduzisse. Ao adentrar o carro, encontrei Miriam, a filha caçula do pastor. Não havia notado a sua presença, até agora. Ela pegou em minha mão e disse: Miriam — Não chora, você é uma princesa do Senhor. Não permita o chifrudão ver o quanto está triste, sorria para confundir o capiroto. Ela me arrancou uma risada sincera, a garota tem apenas treze anos. Rute — Não sei o que fazer com você, Miriam. Ela balançou a cabeça, mas está rindo, assim como eu. — Não estou triste, Miri. São muitas coisas ao mesmo tempo, Deus deve ter confundido-me com a mulher maravilha. Miriam — Se pelo menos o seu bebê estivesse aqui, não é? Seria tudo diferente. Não entendo o motivo pelo qual Deus levou o seu filho. Imediatamente olhei para ela, não gosto de comentar isso. Não é que me doa, não dói. Entendi que não estava preparada para ser mãe, eu tinha apenas 17 anos e era usuária de drogas, nem sequer sei quem era o pai do meu bebê. Estava drogada demais para saber que fui abusada e não lembro nada daquele fatídico dia. É tudo um borrão, mas sei que fui jogada num carro e a minha virgindade foi vendida pelos meus “amigos”. Deus teve misericórdia de mim, se não tivesse um joelho dobrado clamando pela minha vida, nem sei o que teria acontecido. Ele nasceu prematuro com sete meses, não sei muito sobre o que aconteceu naquele dia. Só lembro que desmaiei e, quando acordei, foi numa cama de hospital. Ao meu lado estava minha avó, ela chorava descontroladamente com um pacotinho nos braços. Lembranças: Nanda — Você tem apenas alguns minutinhos, ele continua respirando. Mas não é por muito tempo, aproveite. Antes de sair do quarto, ela disse: — Quando encontrar a sua dracma perdida, tudo fará sentido. Sabia exatamente o que ela queria me dizer com a dracma perdida, eu precisava voltar novamente a ter a minha comunhão com Deus, orar, recuperar tudo que eu havia se perdido. Minha avó usara tantas vezes a parábola da ovelha perdida e a do filho pródigo. Ela o colocou em meus braços, senti uma coisa diferente, uma emoção sem tamanho. Meus olhos se encheram de lágrimas e, em silêncio, aproveitei os últimos minutos de vida do meu filho. Era um sentimento fora do comum. Quando ele, por fim, deu seu derradeiro suspiro e fechou seus olhinhos que m*l se abriram, meu coração se encheu de tristeza. Mas agradeci a Deus pelo tempo que me permitiu ficar com ele e ser mãe, mesmo sem merecer. Esse foi um dos dias mais felizes da minha vida, mesmo que breve. Eu me senti regozijada. Rute — Miriam, Deus! Você deixará a Melinda pior do que já está. Não está ajudando, filha, ore, meu amor. Deixei meus devaneios com a irmã Rute, chamando a atenção de Miriam. — Falar do meu filho não me deixa triste, mas saudosa. Ele foi uma das melhores coisas que me aconteceram, mesmo que por um curto período. Miriam — Você vai ter outro bebê, Mel. Deus vai te dar outro. Sorri, mas não é de alegria. Infelizmente, não posso mais ter filhos. — Não posso mais ter bebês, Miri. Ela se encolheu no canto e não disse mais nada. Fizemos todo o percurso em silêncio, mas ele foi quebrado pelo celular da irmã Rute, tocando insistentemente. Rute — Filha, atende aqui para mamãe, por favor. Ela pegou o celular no bolso do casaco e atendeu. Miriam — É o papai! Rute — Coloca no viva voz, por favor, meu amor. Obrigada. Ligação: Rute — Diga, meu Isacão. Miriam revirou os olhos, me fazendo rir. Russel — Amor, preciso que você venha para casa. Onde está? Rute — Indo à delegacia, estou levando Melinda para fazer um boletim contra aquele filho de Belial. (Significado: maligno, indigno, inútil…) Russel — Amor, preciso que venha para casa e traga Melinda. Um irmão da congregação em Neville ligou e disse que o pai dela passou m*l e foi levado para o hospital em estado grave. Melinda — Meu Deus! O que houve? Comecei a me desesperar, minhas lágrimas, que haviam cessado, retornaram. Rute — Estamos indo, Deus está no controle. Ela encerrou a chamada e rapidamente olhou para mim, pelo retrovisor do carro. Miriam apertou a minha mão com força, tentando me passar algum conforto, não quero perder meu pai. Eu o amo! Por que tudo está sendo tão difícil? Perguntei enquanto limpo as lágrimas. “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.” A voz da minha avó se fez presente em minha mente. Respirei fundo, não posso ser ingrata com Deus. — “Não cai uma folha da árvore sem permissão de Deus.” Ele está no comando de nossas vidas. Sussurrei em voz baixa. Miriam — Amém! Sussurrou ela, que ainda continua segurando firmemente a minha mão. […] Neville Celine — Já encontrou alguém para ser a nova babá da Valentina, Théo? Perguntou Celine assim que passei pela porta. — Quando eu tiver tempo, irei procurar, agora estou ocupado. Daqui a pouco tenho um compromisso importante. Ela arregalou os olhos e levou ambas as mãos à boca, mas eu não me importo. Celine — Se a sua avó estivesse viva, Théo estaria muito triste agora. Por Deus, ela é uma criança. Além de empregada e patroa, ela e a minha avó eram melhores amigas. — Não quero me preocupar com agora, Celine. Amanhã resolvo isso. Arregacei as mangas da camisa social e vou até o bar servir de uma dose de bebida. Celine — Bem, você quem sabe. Hoje é o meu último dia aqui, estarei viajando hoje. Ela saiu, me deixando pensativo. Mas essa agora! Onde conseguirei uma babá para essa garota? O problema é que na minha casa não entra qualquer pessoa e todos os meus empregados têm contrato de confidencialidade. Ninguém sabe dela, a não ser Celine e eu. Claro, e aquele homem!
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