Melina:
Ao acordar, já era tarde. Meu horário habitual é às seis da manhã, mas hoje levantei às sete. Pode ser o cansaço dos eventos recentes.
Laís já não estava mais quando levantei.
Devagar, desço a ladeira do morro. No caminho para a padaria, percebi que muita coisa mudou por aqui.
Tudo parece mais opressivo, hostil e inóspito. Porém, o lugar não perdeu a beleza e as suas casinhas, acolhedoras, permanecem as mesmas. No caso, as antigas.
Eu sempre amei o fato de elas serem quase umas coladas às outras, acho tão fofo. Olho para o lado e vejo um grupo de homens. Meu coração acelerou ao perceber que estão me encarando.
Homem 1 — Olha só, quem voltou ao morro. Um bom filho a casa torna, não é mesmo, Melina?
Franzi a testa, essa voz eu conheço. Ele é um dos homens que trabalhava para o Trevoso.
“ Me cobre com teu Sangue, Senhor.”
Homem 2 — Está surda, filha da p**a?
Meu coração acelerou, batendo fortemente na minha caixa torácica.
“ O que esses homens querem de mim, Senhor? “
Um deles caminhou em minha direção, minhas pernas bambearam por um tempo.
Guilherme — O que está havendo aqui? Circulando, vão trabalhar, cambada de vagabundo.
Ele parou a moto a uma distância de mim.
— Obrigada! Agradeci.
Guilherme — Não fique desfilando por aí, não te salvarei da próxima.
Falou grosseiramente, me olhou de cima a baixo e saiu.
Queria entender o que se passa na cabeça do ser humano. Fui rapidamente à padaria, comprei meu pão e voltei para casa o mais depressa possível. Não posso me dar o luxo de encontrar nenhum desses homens novamente.
Na volta para casa, foi mais tranquilo, devido às crianças estarem indo para a escola e às pessoas para seus trabalhos.
Vejo que absolutamente nada mudou, as mesmas músicas, funk, pagode… variedades para quem gosta. Aproveitei que já estou aqui e passei no supermercado para comprar algumas coisas, visto que olhei nos armários e não vi nada o que comer.
Peguei algumas coisas nas prateleiras, outras das hortaliças e por último frigorífico.
Quando estava terminando de passar tudo no caixa, ouvi uma voz doce me chamar.
Mulher — Melina? É você mesmo? Virei-me rapidamente para saber de quem se trata.
— Naná, é a senhora? Ela me envolveu num abraço carinhoso.
Naná — Não estou tão velha assim, estou? Neguei! Sabia que voltaria um dia, meu amor. Vá à igreja hoje à tarde, terá culto de oração e ensaio dos jovens. Será às quatro da tarde.
— Estarei lá, foi um prazer rever a senhora, Naná.
Ela me abraçou novamente e disse:
Naná — O agir de Deus é lindo! Ela alisou a minha bochecha. — Estarei te esperando, compareça. Nossa congregação mudou-se para a rua onde fica a confeitaria do seu pai.
Balancei a cabeça e nos despedimos. Virei-me para a mulher do caixa que está me olhando na contente.
— Desculpa, não quis atrapalhar o seu trabalho.
Mulher — Folgada, não tenho o dia todo para esperar a beleza terminar de conversar, não. Hoje tem festa, preciso terminar o meu turno.
Balancei a cabeça e saí do supermercado.
Fiquei me perguntando como levaria todas essas sacolas, mas logo avistei um taxista. Graças ao meu bom Deus. Ele é um homem de meia-idade.
Ele se aproximou e disse:
Taxista — Um táxi, minha patroa? Confirmei com a cabeça. — Meu nome é Arthur, muito prazer. Ele pegou todas as sacolas da minha mão e colocou no carro. — Para onde?
— Ladeira da montanha, por favor. Ele olhou para mim e franziu a testa. — Sou filha de Yuri, é para onde vou.
Ele balançou a cabeça e colocou o carro em movimento, mas quando ele ia virar a esquina, um homem nos cortou com a moto.
Seu Arthur freou o carro e meu coração quase saltou pela boca. — Jesus! Que homem louco! Levei a mão ao peito.
Arthur — Louco é apelido, esse daí ultrapassou todos os limites da loucura. Ele é o novo dono do morro.
Olhei para trás, mas não vi nem vestígios da criatura de preto. Foi a única coisa que pude enxergar, as roupas pretas.
— E o que aconteceu com o trevoso? Ele coloca o carro em movimento novamente.
Arthur — Ele o matou e tomou o trono.
Abri e fechei a boca, mas preferir me manter em silêncio. Olhei pela janela e estranhei a quantidade de homens armados. Nunca houve esse número, ontem, quando cheguei, não havia observando tudo com mais atenção, mas agora é... tão estranho. — Todos os dias são o mesmo e, para piorar, hoje tem festa! Ganho um dinheiro a mais, mas é um pouco perigoso. A maioria que pega o meu táxi são mulheres drogadas e bêbadas.
— Deus envia anjos para nos livrar dos perigos noturnos.
Ele olhou-me pelo retrovisor e sorriu gentilmente. Alguns minutos depois, ele estacionou em frente à minha casa.
Descemos, ele me ajudou a colocar as sacolas em casa, paguei e agradeci.
Peguei as sacolas e segui para a cozinha, estranhei meu pai não ter aparecido ao menos para tomar uma xícara de café.
Enquanto arrumo tudo em seus devidos lugares, preparo tudo para o almoço.
[…]
Théo Montana:
Hoje, acordei de péssimo humor, não consegui uma babá e não quero aproximação com aquela criança! p***a, não queria me preocupar com isso, não agora.
— Refaça! É o quinto relatório que r***o e mando refazer. — Inúteis! Não sabem fazer um simples relatório? Como foram contratados se não são qualificados? Nunca se faz o que se pede!
A garota saiu da minha sala chorando, me levantei e fui até a janela de vidro. Afrouxei o nó da gravata, fechei os olhos e respirei profundamente.
“Me perdoe. Por favor, me perdoe. É para seu próprio bem.”
**
“ Me ajude, socorro, Théo!”
“Não, por favor, não.”
Abri os olhos novamente e retornei para minha sala. Toda vez que os fecho, ouço a voz dela me pedindo socorro. E recordo do que fiz.
Vou em direção ao bar e sirvo-me de uma dose de bebida, antes de ir para a reunião. Ingeri a última dose, coloquei o copo sobre a mesa e saí da sala. Mas parei ao ouvir a auxiliar da minha secretária dizendo:
Laís — Ele está possuído hoje, e é próprio capeta encarnado. Não ligue para aquele filho de Nabucodonosor, mula de Balaão.
Ela não me viu, está de costas. Mas o que despertou a minha curiosidade foi o fato dela usar partes de textos bíblicos para me ofender.
— Suponho que o capeta seja eu, não é mesmo? E os outros… considerarei como adjetivos.
Laís — Não é sobre o senhor, estava falando, mas sobre outro capeta.
Ela arregalou os olhos e levou a mão sobre a boca, se dando conta do que acabou de falar.
— Faça valer o salário que ganhar, senhorita… Ele olhou para o meu crachá — Laís! Não é paga para me ofender. Que seja a última vez!
Ela confirmou com a cabeça, me virei e saí.