Capítulo 4

1495 Words
Debrucei-me sobre a janela, observando as árvores e suas folhas coloridas anunciando a chegada do outono. Suspirei ao pensar no quanto amava olhar a belíssima perfeição que é o alto da montanha. O cheiro de ar puro da natureza é algo tão magnífico. Claro que é, Deus é perfeito e criou tudo com excelência. As diversas cores das árvores me fazem lembrar do arco-íris… verdes, vermelhas, amarelas, rosas e laranjas. A visão é tão esplendorosa, nunca me cansaria de admirar. Claro, só é possível ter toda essa vista privilegiada, porque moro na parte mais alta do morro e o meu quarto fica no sótão. Escolha minha, sempre amei observar as estrelas, o céu e todo morro pelo meu telescópio. Um presente do meu pai, às vezes observávamos as estrelas juntos. Saí da janela e com as mãos no bolso voltei a inspecionar o meu quarto, constatando que tudo está exatamente como deixei. Meus olhos pousaram no meu telescópio, aproximei-me, posicionei o objeto corretamente na janela e me perdi por alguns momentos observando o cenário a minha frente. O meu quarto sempre me ofereceu uma vista espetacular do morro. Mas algo me chamou a atenção, uma pessoa no cume, no topo da montanha. Como conseguiu subir lá? Me questionei. Me afastei do telescópio e limpei, pode ser que a lente esteja suja. Olhei novamente. Não estou vendo coisas, há alguém no topo da montanha e parece ser um homem. Como essa pessoa conseguiu isso? É proibido subir até topo do morro, devido a tantos acidentes e mortes. Laís — Dá para me ajudar aqui, ou está difícil? Me assustei. — Depressa, não tenho o dia todo, Saori. — Estou indo, dramática! Ela me olhou com uma feição exageradamente indignada, que chega a ser engraçada. Laís — Deveria te deixar com fome, ingrata! Sorri e peguei as sacolas da mão dela. — Também te amo, amiga! Ela revirou os olhos e entrou. Laís — Como foi a conversa com o seu pai? Soltando o ar com força, disse: — Não foi muito agradável, mas já esperava aquela reação dele. Ela me abraçou e disse: Laís — Trouxe a sua pizza e seu milkshake favorito. Sabia que precisaria! Já para mim, uma cerveja. — Urina do capeta, Laís? Ela gargalhou alto. — Não é para rir, não. Cruzei os braços. — Parou de ir à igreja? Indaguei preocupada. Laís — Sabe que nunca fui crente, Saori. Apenas frequentava. Embora goste de ouvir a palavra de Deus, não estou preparada para seguir a lei cristã. Se você tivesse um chefe como o meu, também encheria a cara. Aquele morador de Sodoma e Gomorra, golias dos infernos. Explodimos em uma gargalhada, nem mesmo ela aguentou. — É tão r**m assim? Negativou com a cabeça. — Então? Laís — Gosto do meu trabalho, eles pagam bem. O problema é o meu chefe, aliás, o de todos naquela empresa. Trabalhar para Théo Montana não é nada fácil. Franzi a testa e perguntei: — Quem é Théo? Novamente, ela me olhou com a feição indignada. Laís — Em que mundo você vive, Saori? De que planeta você veio? Meu Deus! Vamos nos atualizar, querida. Já ouviu falar nos Acostas Montana, os donos de Neville? — Sim, mas nunca me importei em saber sobre a vida deles. Nunca vi nenhum m****o da família Montana, a não ser o Frederico e a Margô. E para ser sincera, não me recordo de como eram. Laís — Sim, os pais dele. Nunca mais os vi, mas ouvi dizer que a senhora Margô faleceu há algum tempo. Quem administra tudo é o Théo, pouco o vemos na empresa. Dizem que ele trabalha de casa. Arregalei os olhos. — Você está trabalhando lá? Fazendo o quê? Laís — Auxiliar de escritório. Ele quase não dá as caras por lá e, quando aparece, é para nos oprimir. O que tem de bonito e gostoso, tem de maligno. Uma hora, mandarei ele tomar bem no tanque de betesda. — Vigia na terra, Lai. Ela riu. Laís — Você não conhece aquela criatura, Saori. Ele é extremamente arrogante, bruto, e******o e c***l. E sem contar que acha que o mundo gira em torno dos Montana. Decidi arrumar as minhas coisas, enquanto degusto da minha pizza e meu milkshake. Abri as malas, ambas sobre a cama, e comecei a transferir as roupas para o meu guarda-roupa. A cada peça guardada, sentia a satisfação de estar em casa. — Esses dias, ele rasgou o planejamento de um projeto e pediu para a pessoa refazer, foram cinco vezes, Saori. Na quinta vez, ele demitiu a pessoa! Não saio de lá porque o salário é ótimo e ainda não terminei meu curso. Preciso daquele emprego, por isso ainda suporto aquele filho de Nabucodonosor. Ainda tem um contrato de confidencialidade que ele nos faz assinar assim que entramos na empresa. — Não use palavras bíblicas para ofender as pessoas. Terminei com as roupas e esvaziei a segunda mala, que continha objetos pessoais. — Parece que ele é atormentado de espírito. Segurar a língua, isso é muito para você que fala pelos cotovelos. Laís — No entanto, não sei tocar harpa como Davi e nem tenho a sua extraordinária voz para cantar. No que diz respeito à capacidade de manter a língua, é extremamente frustrante não poder fazer uma fofoca. Ri e neguei com a cabeça. — Eu não sou cantora, Lai. Adoro ao Senhor! E você sabe o que a Bíblia diz sobre a língua. Ela bufou e disse: Laís — Se você colaborasse, com essa voz que tem, poderíamos estar ricas agora ou viajando pelo mundo. Eu seria sua empresária, ganharíamos muito dinheiro. — Tudo que existe nesse mundo é ilusão pura, Lai. Agora, voltando ao assunto. Por que não arranjou um emprego aqui no morro? Laís — Salário, Saori. Ganho três salários e meio. Se há algo que aquele ser humano faz, é pagar bem os seus funcionários. Temos todos os direitos. Também, se eles não pagassem bem, não teriam mais nenhum funcionário naquela empresa. Ela riu e tomou um gole de sua bebida. — O que houve com o Guilherme? Indaguei mais preocupada do que curiosa. Ela fez o gesto do chifre com os dedos e levou à testa. Laís — Estava pegando uma glitter, a Paty meteu uma gaia bem linda nele. Coitado, pensei. — Ela sempre subia aqui para as festas, mas parou. E a fulaninha é nada mais nada menos que Émilie, da família Bertie. Me virei rapidamente para ela, não posso acreditar. Ela é a caçula dos Bertie, a segunda família mais poderosa de Neville. A garota pisa no chão porque não tem jeito. — Pasme, gata! A glitter é peguete do meu chefe. A garota ficou mais insuportável do que já era. Precisa ver quando ela vai à empresa, entra na sala dele e quando sai é toda desajeitada. Ela apenas usou o Guilherme como um brinquedinho. Talvez tivesse entediada e subia para as festas do morro escondida para se divertir um pouquinho. — Coitado, Laís. Ninguém merece uma traição dessa. Quem é o novo chefe do morro? Laís — Não o conheço, ele é estranho. Só usa roupas pretas, um moletom de capuz, uma máscara e óculos escuros. Já faz um tempo que ele se tornou o dono do morro. Ele deu uma sentença para sua mãe. — É, me informaram sobre isso. Ele não tem direito de tirar a vida de ninguém. Preciso dar uma palavrinha com esse senhor. Laís — Acho melhor não, amiga. Esse é pior que o trevoso. Com ele não tem diálogo, é morte. — Ele não vai matar a minha mãe! Exclamei com raiva. Ela balançou a cabeça. Voltei a atenção, a minha mala e peguei o porta-retrato, no qual estou abraçada com a minha avó e ela com a mão na minha barriga. Estava com seis meses. Laís — Jogue tudo para fora, Saori. — Outro dia, amiga. Preciso tomar um banho e descansar. Laís — Você vai reabrir a confeitaria? Seu pai vendeu bastante coisa de lá. — Iria, mas uma criatura, da qual me envolvi, roubou todo o meu dinheiro. Não era muito, mas dava para recomeçar. Suspirei ruidosamente. — Por enquanto, irei procurar um emprego, Deus me dará uma direção do que fazer. Terminei meus estudos e fiz apenas um curso rápido de confeiteira. Sempre fazia algumas coisas para auxiliar na obra da igreja. Laís — Deus te deu dois dons, Saori. Cantar e fazer maravilhas com as mãos para alegria dos fanáticos por doces, assim como o seu pai. Agora vou me deitar, porque preciso estar na toca do d***o às oito e meia. — Está repreendido em nome de Jesus, Laís. Ela gargalhou, se jogou na cama e disse: Laís — Quando quiser conversar sobre todos os eventos que aconteceram com você, estarei aqui para te ouvir. Confirmei com a cabeça, ainda não estou pronta para falar sobre isso. Peguei a toalha e entrei no banheiro.
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