Capítulo 1
CAPÍTULO 1
Alice Narrando
Eu não me lembro ao certo de quando me tornei amiga de Tracy, nem do motivo pelo qual nós duas — mesmo sendo o completo oposto da outra, — nos tornamos amigas. Mas era bom ter alguém como ela por perto e entrar naquela mansão com uma decoração elegante e ao mesmo tempo, rústica, me fez lembrar disso.
— Céus! — Tracy resmungou, — nós viemos passar o verão aqui e ele nem mesmo está disposto a nos encontrar para dar as boas vindas?
As portas grandes de madeira escura, se tornavam ainda maiores quando comparadas a falta de estatura de Tracy, mas nada era mais engraçado do que vê-la com as mãos na cintura, batendo o pé no chão com a indignação de não ser o centro das atenções.
— Mamãe estava certa! — Ela diz com os braços se cruzando sobre o peito, — ele simplesmente não se importa comigo! Ou com qualquer coisa além de si mesmo.
“Injusto”, pensei mesmo que no fim, aquilo não tivesse nada haver comigo. Mas eu conhecia Tracy, e também conhecia sua mãe. Eu as conhecia bem o suficiente para saber que nenhuma das duas tinha caráter ou propriedade para chamar alguém de egoísta ou insinuar que outra pessoa, se importava apenas consigo mesmo.
Mesmo assim, lá estava ela. Ignorando a beleza de sua nova casa, para surtar por seu pai — não estar lá.
— Tracy, talvez ele tenha entendido que chegaríamos mais tarde, — eu tentei dizer, mas ela bufou de irritação.
— Eu não me importo! Ele deveria se esforçar mais! — Ela esbravejou, mas meus olhos não conseguiam parar, não quando tudo naquele lugar... havia mudado.
A mansão de Tracy e de seu pai, havia sido construída por Thomas e certamente tinha seu toque especial em cada centímetro. Ele cuidou de cada coisinha e após se livrar de sua esposa — que para mim mais parecia um carma, — ele redecorou todo o lugar.
As tapeçarias exageradas e extravagantes foram jogadas fora, os papeis de parede coloridos? Certamente queimados. Os sofás? Mudados, e claro... os quadros, Thomas parecia ter tomado cuidado especial com eles.
Restaurados, trocados, iluminados da maneira correta .
Muitas coisas poderiam serem questionadas nessa vida, mas o bom gosto e o tato de Thomas para a arte, certamente não era uma delas .
— A arte é como algo vivo, Alice.
Ele havia me dito uma vez, quando eu me encantei ali, parada em frente a um quadro que nem mesmo sabia a quem pertencia .
— Ela pulsa como uma artéria viva e cheia de sangue, ela é voluptio e claro ... cheia de desejos .
Eu nunca tinha entendido aquela frase, mas de certa forma, não consegui esquece-la. Nem dela... e nem do seu olhar .
— Alice ? — Tracy gritou me trazendo de volta a mim.
— Oi ?
— No que diabos você estava pensando? — Ela me encarava com incredulidade e irritação, como se fosse inadmissível que alguém olhasse para algo além dela .
— Perdão — eu sorri, um sorriso quase verdadeiro, — eu me distrai. Acho que eu tinha me esquecido de como a sua casa era bonita ...
Tracy bufou.
— Eu preferia antes, — ela disse jogando os cabelos para trás enquanto olhava com desdém para a nova decoração, — papai sempre foi um exagerado, mas esse divorcio ? Céus... isso foi demais .
“Claro,” eu pensei enquanto abraçava meus próprios braços .
Para Tracy, nada daquilo era real, nem o termino do casamento de seus pais — e nem o fato de que sua casa, era surreal .
Não.
Tracy conhecia apenas o seu lindo mundo encantado, o mundo onde ela era uma herdeira milionária, com uma mansão linda que mudaria de decoração por algo bobo como uma separação.
“Não pense demais”, eu disse a mim mesma e sorri em frente ao espelho da sala. “Apenas foque em suas férias de verão , se divirta, Alice. Essa é a sua chance .”
— Papai? — Tracy gritava indo de porta em porta, andando desenfreada pelos corredores. — Onde diabos esse velho se meteu ?
Sorri .
— Você não deveria chamar o seu pai assim, — falei, mas ela me ignorou, como sempre fazia e um grito de irritação surgiu quando ela abriu a porta que levava para a piscina — de uma única vez .
— PAI! — Ela gritou enquanto saia da casa e deixava a luz entrar no lugar .
— Tracy! — A voz de Thomas me alcançou, antes que meus olhos pudessem repousar sobre aquela pele bronzeada e o sorriso sedutor do homem que tinha idade para ser o meu pai. — Filhinha, eu fico feliz de te ver aqui!
— Feliz? — Tracy resmungou, — você nem foi me receber, como espera que eu acredite em algo assim? Hum?
Thomas riu e saindo da piscina, ele a encarou.
— Querida, seu pai também merece uma folga, não concorda?
Eu senti minhas bochechas esquentarem, meus olhos deslizando pelo corpo escultural de Thomas, pelas pernas, braços e claro... abdômen. Eu me lembrava perfeitamente da primeira imagem que tinha tido do pai de Tracy, mas de alguma forma... ele parecia ainda melhor depois de alguns anos.
— Alice? — Ele me chamou com aquela voz rouca e sedutora.
“Se controle, Alice!” Eu gritei para mim mesma e como uma boa amiga, sorri, caminhando em direção aos dois — que agora estavam a beira da piscina.
— Olá, mister Thomas...
Eu falei tentando parecer o mais comportado possível, mas meus olhos não conseguiam se desprender daquele corpo perfeito, daqueles olhos que me encaravam como se pudessem ler minha alma e os cabelos molhados que grudavam em seu pescoço, da mesma forma como eu queria que-...
“Não!” Gritei em minha própria mente, “Thomas é o pai de Tracy, pare de pensar nisso! Se controle, Alice!”
— Eu disse que viriamos juntas, papai! — Tracy gritou com irritação e um bico logo se formou em sua boca, — como você pode se esquecer? Essas são as nossas férias de verão!
Thomas que conhecia a filha mimada que tinha, sorriu e a puxou para perto, beijando sua bochecha e acariciando seu ombro.
— Me perdoe, querida. Eu não me esqueci, apenas me surpreendi por Alice ter crescido tanto desde a ultima vez que a vi, — ele tentou se corrigir, mas até mesmo eu não consegui acreditar.
Era claro, ele havia se esquecido. Mesmo assim, eu não poderia julga-lo ou sequer considerar que ele estava errado em ignorar coisa ou outra que era dita por sua filha.
Eu adorava Tracy, mas as vezes... ela era difícil de se lidar.
— Você tem muita sorte, papai. — Tracy disse e com um suspiro leve, ela beijou sua bochecha de forma demorada, — tem sorte que eu o amo tanto, que sou até mesmo capaz de ignorar uma falha como essa.
Thomas sorriu.
— Obrigada pela piedade, querida.
Tracy deu de ombros.
— Eu sou assim, fazer o quê? Mas agora, eu preciso de um banho! — Ela disse com as mãos para cima, — eu te vejo mais tarde, então veja se não vai se atrasar, — seus olhos então se voltaram para mim, — e você tente não se perder, Alice!
Assenti.
— Certo, Tracy.
Thomas riu, um riso quase sincero enquanto sua criança se afastava de nós. De repente, o clima que antes era descontraído e leve, se tornou difícil de se lidar.
— Então... — pigarreei, — eu penso que seria melhor se eu fosse embora, mister Thomas. Temo que...-
Ele me interrompeu.
— Thomas.
Disse me encarando enquanto se sentava em uma das cadeiras de descanso.
— O que disse?
— Me chame apenas de Thomas, Alice. Se puder, claro.
— Certo, — Falei enquanto engolia em seco, por que por um momento, imaginei como seria chama-lo em outro tipo de situação. Como seria dizer seu nome em... outras circunstâncias. — Thomas... — murmurei e minhas bochechas, queimaram com as imagens que surgiram em minha mente.
— Bem melhor assim. — Ele disse com um sorriso que me fez perder a força que havia em minhas pernas.
Se continuasse dessa forma... eu iria enlouquecer antes mesmo de nossas férias chegarem ao fim.