Capítulo 2 — Onde a Força Começa a Falhar

1695 Words
Eu não dormi. Fiquei acordado observando você respirar, contando o intervalo entre uma inspiração e outra como se isso pudesse me dar algum controle sobre o tempo. Cada movimento do seu peito era uma confirmação de que você ainda estava ali. Cada pausa um aviso c***l de que isso podia mudar. Quando o sol começou a entrar timidamente pelas cortinas, você se mexeu. — Aaron…? — sua voz saiu rouca. — Estou aqui — respondi na mesma hora. Você abriu os olhos devagar, confusa por um segundo, até a lembrança voltar inteira. Vi isso acontecer. Vi quando seu olhar perdeu a leveza ao lembrar do nome da doença, do que estava por vir. — Que horas são? — perguntou. — Cedo — menti. Já passava das sete. Você tentou se sentar, mas o corpo não obedeceu como antes. Estendeu a mão instintivamente, e eu a segurei antes mesmo que percebesse. — Devagar — murmurei. — Eu não sou de vidro — você tentou brincar. Mas a verdade é que eu tinha medo de te tocar com força demais. Medo de que você quebrasse. Levei você até o banheiro, fiquei de costas enquanto você se trocava, respeitando um espaço que, pela primeira vez, parecia frágil demais para invadir. Quando você saiu, vestida de forma simples, confortável demais para alguém que sempre teve elegância natural, algo apertou no meu peito. — Vamos? — você disse, tentando parecer firme. Assenti. No carro, o silêncio era espesso. A cidade passava pela janela como um filme que eu não conseguia assistir direito. Minha mão estava apoiada na sua coxa, não por posse, mas por necessidade. Eu precisava te sentir ali. — Você não precisa ir comigo — você disse de repente. — Pode resolver suas coisas depois. — Não existe “depois” hoje — respondi sem olhar para você. Você não insistiu. O hospital tinha cheiro de limpeza exagerada e desespero disfarçado. Pessoas andando rápido demais, olhares cansados, vidas suspensas em corredores claros demais para tanta dor. Você segurou minha mão mais forte quando nos chamaram. — Ei — falei, me abaixando à sua frente. — Olha pra mim. Você obedeceu. — Seja o que for… nós atravessamos juntos. Você assentiu, mas seus olhos estavam molhados. A sala de quimioterapia era silenciosa demais. Havia outras pessoas ali, algumas sozinhas, outras acompanhadas. Algumas já sem cabelo. Algumas com olhar vazio. Todas lutando. Quando a enfermeira explicou o procedimento, você prestava atenção demais, como se estivesse tentando memorizar cada palavra para não ter medo depois. — Vai doer? — você perguntou. — Um pouco — ela respondeu com cuidado. — Mas vamos monitorar tudo. Quando a agulha entrou, você fechou os olhos. Eu senti. Senti como se fosse em mim. — Está tudo bem — sussurrei. — Respira comigo. Você respirou. E então o líquido começou a correr pelo tubo. A guerra começou ali. Nos primeiros minutos, você ficou quieta demais. Depois veio o enjoo. O suor frio. A mão apertando a minha com força. — Aaron… — sua voz falhou. — Estou aqui. — Não deixa eu apagar. Meu coração disparou. — Você não vai apagar — falei com firmeza, mesmo sem saber se era verdade. — Olha pra mim. Continua comigo. Você abriu os olhos com dificuldade. — Se eu morrer… — você começou. — Não — interrompi. — Não diz isso. — Aaron, me escuta— — Não — repeti, a voz quebrando. — Eu não vou te ouvir falar disso. Você ficou em silêncio, lágrimas escorrendo devagar. Quando tudo terminou, você parecia menor. Mais leve. Como se parte de você tivesse sido levada ali mesmo. No caminho de volta, você vomitou. Segurei seu cabelo, ajoelhei no asfalto do estacionamento sem me importar com quem via. Não havia dignidade naquele momento. Só amor e medo. — Desculpa — você murmurou. A palavra me atingiu como uma facada. — Nunca mais pede desculpa por estar viva — eu disse, com a voz dura. Em casa, você dormiu quase imediatamente. Eu fiquei sentado ao seu lado, observando o cansaço te dominar. E então veio a culpa. Eu pensei em todas as vezes que cheguei tarde. Em todas as vezes que ignorei sinais. Em todas as vezes que escolhi o império ao invés de você. Meu telefone vibrou. Uma mensagem. Depois outra. Problemas. Conflitos. Um acordo quebrado. Olhei para o aparelho. Depois para você. Desliguei. Pela primeira vez, o mundo podia esperar. À noite, você acordou assustada, com o corpo tremendo. — Aaron… eu estou com medo — você disse, sem tentar ser forte. Eu te puxei para meus braços. — Eu sei. — E se isso não funcionar? Respirei fundo. — Então a gente tenta outra coisa. — E se não der tempo? Engoli em seco. — Então eu vou te amar em cada segundo que existir. Você chorou em silêncio, escondendo o rosto no meu peito. E ali, naquela noite, eu entendi algo que ninguém nunca me ensinou: Ser forte não é intimidar o mundo. É permanecer quando ele começa a levar tudo. E o pior medo não é perder o controle. É amar alguém que você n******e salvar. Você acordou no meio da madrugada com um gemido baixo, quase um pedido de socorro contido. Eu despertei no mesmo instante, como se meu corpo tivesse aprendido a vigiar o seu. — Amor? — chamei, tocando seu ombro com cuidado. Você estava suando frio, o corpo encolhido, os olhos semicerrados. — Tá doendo… — murmurou. — Tudo. Levantei num pulo, acendi a luz fraca do abajur. Seu rosto estava pálido de novo, mais do que antes, como se a quimioterapia tivesse sugado algo essencial. — Onde? — perguntei, tentando manter a calma. — Não sei… — você respondeu, confusa. — É como se eu estivesse… vazia por dentro. Essa palavra me destruiu. Vazia. Peguei o copo d’água, ajudei você a se sentar, segurei sua cabeça enquanto bebia pequenos goles. — Respira — pedi. — Devagar. Eu estou aqui. Você encostou a testa no meu peito, fraca demais para se manter ereta sozinha. — Desculpa acordar você… — disse, quase num sussurro. Meu maxilar travou. — Você não me acordou — respondi. — Eu nunca dormi. Você ergueu os olhos para mim, surpresa. — Aaron… você precisa descansar. Soltei um riso curto, sem humor. — Depois. Te levei até o banheiro novamente quando o enjoo voltou. Segurei seus cabelos, senti seus dedos se cravarem no meu braço como se aquilo fosse a única âncora possível. Cada vez que seu corpo estremecia, algo em mim gritava para fazer alguma coisa — qualquer coisa — e não havia nada a fazer. Quando tudo passou, você se apoiou em mim, exausta. — Eu não quero virar isso — você disse de repente. — Não quero que nossa vida vire hospital, remédio e dor. Fechei os olhos por um instante. — Não vai virar — respondi rápido demais. Você se afastou um pouco para me olhar. — Você n******e mentir pra mim, Aaron. Engoli em seco. — Então não mente pra mim também. Você franziu a testa. — Sobre o quê? Sobre o fato de que você estava se despedindo aos poucos e eu fingia não ver. Mas eu não disse. — Nada — respondi. — Só… não some de mim. Você tocou meu rosto com a ponta dos dedos, gesto fraco, mas cheio de intenção. — Eu estou tentando ficar. Essa frase ficou presa em mim como um espinho. No dia seguinte, você não conseguiu se levantar sozinha. Suas pernas falharam no meio do quarto, e eu te segurei antes que caísse. — Isso não é normal — você disse, assustada. — É o efeito do tratamento — respondi, embora não tivesse certeza nenhuma. Te carreguei até a cama. Você protestou, tentou rir. — Eu consigo andar— — Hoje não — cortei, mais duro do que queria. Você ficou em silêncio, ofendida. — Você não manda em mim — disse por fim. Suspirei. — Não… mas eu fico. Mesmo quando você não consegue. Você virou o rosto, chorando baixinho. Passei o resto do dia ali, sentado ao seu lado. Ignorei ligações. Ignorei homens que nunca ouviram um “não” meu. Ignorei tudo que não fosse o som da sua respiração. À tarde, enquanto você dormia, notei algo no travesseiro. Fios. Poucos ainda. Quase nada. Mas estavam ali. Meu peito apertou de um jeito que não sei explicar. Não era vaidade. Não era estética. Era a confirmação física de que a doença estava avançando. Quando você acordou, percebeu meu olhar fixo. — O que foi? — perguntou. Hesitei. Depois mostrei. Você olhou para os fios e ficou imóvel. — Então começou… — murmurou. — Amor— — Não — você interrompeu. — Não tenta consertar isso com palavras. Você estendeu a mão, pegou os fios e os segurou por um instante antes de deixá-los cair na lixeira. — Eu achei que teria mais tempo — completou, com a voz vazia. Sentei ao seu lado, puxei você para mim. — Você ainda tem tempo — insisti. — Muito. Você não respondeu. À noite, quando finalmente dormiu, eu saí do quarto em silêncio. Fui até o escritório, fechei a porta e apoiei as mãos na mesa. Olhei para as armas guardadas. Para os documentos. Para o império que eu passei a vida inteira construindo. E pela primeira vez, tudo aquilo parecia inútil. Que poder era esse que não podia impedir seu corpo de falhar? Que tipo de rei perde o que ama e continua governando? Meu telefone vibrou novamente. — Fala — atendi, baixo. — Temos um problema — disseram do outro lado. Fechei os olhos. — Resolve — respondi. — Sem mim. — Senhor— — Eu disse sem mim. Desliguei. Voltei para o quarto e me deitei ao seu lado, puxando você com cuidado. Você murmurou algo dormindo e se encaixou em mim automaticamente, como se seu corpo ainda confiasse que eu podia proteger você. Passei a mão pelos seus cabelos, tentando memorizar cada detalhe. Porque naquele momento, um pensamento h******l começou a se formar, lento e c***l: Talvez amar também seja aprender a perder. E eu ainda não estava pronto.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD