Capítulo 3 — Quando o Amor Vira Vigilância

1685 Words
Eu comecei a contar o tempo de outro jeito. Não eram mais horas ou dias. Eram sintomas. O tempo passou a ser medido entre um enjoo e outro. Entre uma noite sem dor e uma madrugada em que você acordava chorando baixo demais para pedir ajuda. Cada pequeno intervalo de normalidade parecia um empréstimo curto demais. Você acordou naquela manhã antes de mim. Quando abri os olhos, encontrei você sentada na beira da cama, vestindo um dos meus casacos, olhando para o nada. Seus pés m*l tocavam o chão. — O que você está fazendo acordada? — perguntei, a voz ainda pesada de sono. Você se virou devagar. — Não consegui dormir — respondeu. — Minha cabeça não para. Sentei ao seu lado. — A minha também não. Você sorriu de leve, mas havia algo estranho ali. Um cansaço que não era só físico. Um distanciamento sutil, como se você estivesse um passo à frente… ou atrás. — Você sonhou? — perguntei. — Sonhei que estava correndo — respondeu. — Mas minhas pernas não se mexiam. A frase ficou entre nós como um presságio. Levei você até a cozinha. Preparei um café fraco para mim, um chá para você. Observei cada gesto seu com atenção excessiva. Como segurava a xícara. Como respirava. Como engolia. — Para de me olhar assim — você disse de repente. — Assim como? — Como se eu fosse… quebrar. Engoli em seco. — Eu só estou preocupado. — Não — você corrigiu, firme. — Você está com medo. Não neguei. — Eu preciso sair hoje — você continuou. — Preciso ir ao mercado. Preciso andar. Fazer algo normal. — Eu vou com você. — Não — respondeu rápido demais. — Eu vou sozinha. Aquilo me atingiu de um jeito estranho. — Por quê? Você respirou fundo. — Porque eu preciso lembrar que ainda consigo. O silêncio caiu pesado. — E se você passar m*l? — perguntei. — E se cair? E se— — Aaron — você interrompeu, com a voz mais alta do que o habitual. — Eu ainda sou uma pessoa. Não uma paciente em tempo integral. Fechei os olhos por um instante. — Eu não estou tentando te prender — disse. — Estou tentando te manter viva. — Às vezes parece a mesma coisa — você respondeu, e saiu do quarto antes que eu pudesse responder. Fiquei parado, sentindo algo novo se infiltrar em mim: medo misturado com impotência. Quando você voltou, uma hora depois, eu estava exatamente no mesmo lugar. — Eu trouxe pão — você disse, levantando a sacola como se fosse um troféu pequeno demais para a guerra que travávamos. — Você demorou — observei. — Eu caminhei devagar. Aproximei-me para te abraçar, mas você hesitou por um segundo antes de permitir. Esse segundo me doeu mais do que qualquer grito. À tarde, você passou m*l de novo. O enjoo veio mais forte, mais insistente. Você correu para o banheiro, e eu fui atrás, ajoelhando no chão frio, segurando seus cabelos. — Não é igual às outras vezes — você murmurou entre um espasmo e outro. — O que quer dizer? — É diferente… — você respirou fundo. — É como se meu corpo estivesse reagindo errado. Meu coração acelerou. — Vamos ao hospital. — Não — você respondeu, limpando a boca. — Não agora. Por favor. — Amor— — Eu só preciso deitar. Levei você até a cama. Você se encolheu, puxando o cobertor até o queixo. — Aaron… — você disse, com os olhos fechados. — Se eu começar a ficar insuportável… promete que não vai me amar menos? A pergunta me atravessou. — Nunca — respondi sem pensar. — Mesmo se eu mudar? — Mesmo se você mudar. — Mesmo se eu não for mais eu? Segurei seu rosto com cuidado. — Você sempre vai ser você pra mim. Você chorou em silêncio. À noite, você recusou o jantar. — Não tenho fome — disse. — Você precisa comer. — Eu preciso respirar — retrucou. A tensão se espalhou pela casa como fumaça. — Você está se afastando — eu disse, finalmente. — Porque dói ficar — você respondeu. — Dói fingir normalidade enquanto tudo está desmoronando por dentro. — E você acha que dói menos pra mim? Você me olhou, cansada. — Eu sei que dói. Mas a dor é minha também. Mais tarde, quando você dormiu, eu encontrei o lixo do banheiro. Um teste de gravidez vazio. Meu coração parou por um segundo. Não havia resultado visível. Só a embalagem rasgada. Fiquei ali parado, segurando aquilo como se fosse uma a**a apontada para mim. — Não — murmurei sozinho. — Ainda não. Guardei o pensamento no fundo da mente, onde coloco tudo que não posso enfrentar imediatamente. Voltei para o quarto. Você dormia de lado, respirando com dificuldade. A mão repousava instintivamente sobre o ventre. Sentei ao seu lado e fiquei observando. — O que você está escondendo de mim? — sussurrei. Você se mexeu, mas não acordou. Naquela noite, eu entendi algo terrível: O amor não me deixava mais livre. Ele me tornava vigilante. Controlador. Assustado. E eu não sabia se estava te protegendo… ou te sufocando. E no fundo do meu peito, uma certeza começou a crescer, silenciosa e c***l: Essa história ainda ia doer muito mais. Eu fiquei acordado a noite inteira. Não porque você estivesse gemendo de dor — dessa vez, não. Mas porque o silêncio estava alto demais. Havia algo errado naquele silêncio. Um tipo de calma artificial, como o momento exato antes de um disparo. Você respirava devagar, de costas para mim. A mão ainda repousava sobre o ventre, protegendo algo que nem você parecia entender direito. Observei aquele gesto repetidas vezes, tentando decidir se era instinto, coincidência ou medo. Estendi a mão, toquei de leve seus dedos. Você se mexeu. — Aaron… — murmurou, ainda meio adormecida. — Shh… — sussurrei. — Dorme. Mas eu sabia que não era eu quem precisava dormir. Na manhã seguinte, você acordou pior. Não fisicamente — emocionalmente. Sentou-se à mesa do café sem dizer uma palavra. Mexeu na comida sem comer. Olhava para fora da janela como se estivesse em outro lugar. — Você quer conversar? — perguntei. — Não — respondeu. — Se eu começar, eu não paro. Essa resposta me deu medo. — Então me escuta — eu disse. — Eu estou aqui. Mesmo quando você não fala. Você assentiu, mas seus olhos continuaram distantes. Quando tentei tocar você, afastou-se de novo. — Não agora — pediu. E aquele não agora soou perigosamente parecido com um nunca. No meio da manhã, você passou m*l de repente. Não houve aviso. Não houve tempo. Apenas correu para o banheiro e se ajoelhou no chão frio. — Amor! — fui atrás. Dessa vez, o enjoo veio diferente. Mais intenso. Mais profundo. Seu corpo se curvava como se algo estivesse tentando sair de dentro de você. — Isso não é normal — eu disse, segurando seus cabelos. — Nada disso é normal — você respondeu, ofegante. Quando finalmente passou, você ficou sentada no chão, abraçando os joelhos. — Eu não aguento mais ser observada — disse de repente. — O quê? — Seu olhar — você levantou os olhos para mim. — Parece que você está esperando o momento em que eu vou quebrar de vez. Senti o golpe. — Eu estou tentando evitar isso. — Você n******e — respondeu, com a voz embargada. — Você n******e me impedir de sentir. — Eu posso ficar — retruquei. — Às vezes… — você respirou fundo — ficar dói mais. Ajudei você a se levantar. Te levei de volta para a cama. Você se deitou de lado, virada para a parede. — Me deixa sozinha um pouco — pediu. E eu obedeci. Mas fiquei do outro lado da porta, como um guarda inútil. À tarde, ouvi você chorando baixinho no banheiro. Não bati. Não entrei. Respeitei um limite que me custou caro demais. Quando você saiu, seus olhos estavam vermelhos. O rosto, lavado demais. As mãos tremiam. — Você está escondendo algo de mim — eu disse, sem rodeios. Você parou. — Não — respondeu rápido demais. — Está sim. — Aaron— — Eu vi o teste — interrompi. Você empalideceu. — Não tinha resultado — disse, defensiva. — Eu sei — respondi. — Mas por que você fez? O silêncio caiu pesado. Você sentou na cama devagar, como se estivesse cansada demais para sustentar o próprio peso. — Porque meu corpo não está reagindo como antes — confessou. — Porque tem coisas acontecendo que não fazem sentido. Porque eu precisava saber se… se tinha mais alguma coisa errada comigo. Alguma coisa errada comigo. A frase ficou ecoando. — E você vai me contar quando souber? — perguntei. Você demorou a responder. — Talvez. Talvez. Aquela palavra me gelou. — Eu sou seu marido — falei, a voz baixa, controlada à força. — Eu não sou um espectador da sua vida. Você finalmente me olhou. — Às vezes eu queria que fosse — disse. — Porque aí você não sofreria tanto. Aproximei-me devagar. — Eu sofro porque te amo. Você fechou os olhos. — E eu sofro porque sinto que estou te destruindo. Segurei seu rosto com cuidado. — Você não é uma destruição. Você é o que me mantém humano. Você chorou outra vez. Naquela noite, você dormiu cedo. Exausta demais para discutir, pensar ou resistir. Eu fiquei observando você. O jeito como sua respiração mudava de ritmo. O jeito como seu corpo parecia lutar contra si mesmo. E então, num pensamento que eu não queria ter, mas que veio mesmo assim, cru e inevitável, eu me perguntei: E se não for só a doença? A pergunta não trouxe alívio. Trouxe terror. Porque se houvesse algo mais crescendo dentro de você… algo que exigisse escolhas ainda mais cruéis… Eu não sabia se teria forças para sobreviver a isso também. E ali, no escuro do quarto, eu entendi: O amor não estava mais me salvando. Ele estava me preparando para a pior perda da minha vida.
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