O quarto estava escuro, iluminado apenas pelas luzes fracas da rua que passavam pela cortina fina. Elisa deitou-se na cama de toalha, o cabelo ainda úmido escorrendo sobre o travesseiro. O celular vibrava ao lado, com várias notificações perdidas.
Bia.Chamadas não atendidas. Mensagens curtas. Emojis de fogo. Interrogações.
Ela suspirou e ligou de volta.
— Finalmente garota! — a voz de Bia surgiu do outro lado, ofendida e dramática. — Eu já tava achando que você tinha sido levada pela diretora pra uma masmorra escolar ou fugido com o professor Rafael Duarte no meio da aula!
Elisa soltou uma risada baixa, cobrindo o rosto com a mão.
— Até parece… — murmurou. — Eu só demorei no banho, estava muito cansada, relaxa um pouco.
— Você sumiu! O que a diretora queria com você? Fiquei te procurando depois, mas você já tinha evaporado!
Elisa ficou em silêncio por um segundo. Respirou fundo. Ela sabia que Bia não deixaria barato o sumisso dela.
— Fui chamada por causa das notas. Tão despencando. A diretora falou que eu vou ter que fazer reforço.
— Aff, sério? Mas com quem?
Nova pausa.
— Com o Rafael.
Silêncio. Três segundos. Quatro.
— … COM O QUÊÊÊÊ??? — gritou Bia do outro lado. — NÃO. NÃO. NÃO. VOCÊ VAI TER AULAS PARTICULARES COM O DEUS DA LITERATURA? SOZINHA??? VOCÊ E ELE??? DENTRO DE UMA SALA???
— Sim, Bia! Cala a boca! — Elisa riu, vermelha, tampando os ouvidos mesmo sabendo que isso não ajudava por telefone.
— Isso não é reforço, é fanfic pronta! Você tem noção do perigo? A tensão s****l entre vocês dois já dava pra sentir da quadra de esportes, imagina numa sala fechada! Não quero nem imaginar oque vocês dois fariam juntos trancados dentro de uma sala de aula.
— Ai, para... Até parece que isso ia acontecer Bia. — disse, rindo, mas também se contorcendo de nervoso. — Foi a diretora que escolheu. Disse que ele era o único com horário livre. Eu até tentei contestar, porém não havia como.
— Claro que não! Porque o universo quis te castigar com o melhor castigo possível. E vocês começam quando?
— Amanhã. Sete da manhã.
— Meu Deus… isso tá parecendo cena de filme proibido! Você e ele. No silêncio da escola. Com o cheiro de café e livro velho. As palavras dele ecoando só pra você…
— Bia, pelo amor de Deus — Elisa enterrou o rosto no travesseiro, a respiração acelerando só de pensar.
— Eu tô falando sério! E você tá ferrada, porque eu conheço sua cara. Você vai tentar resistir, mas se ele passar uma mão no quadro e olhar nos seus olhos daquele jeito dele… você vai tropeçar no próprio juízo.
Elisa mordeu o lábio, o rosto queimando.
— É errado, Bia. E eu sei disso. Ele é meu professor. E eu sou menor. Eu não devia nem pensar…
— Mas pensa. E ele também. Você viu o jeito que ele te olhou quando vocês se esbarrão mais sedo? O homem tá tentando manter a postura, mas o olhar dele tava mais quente que o sol do recreio.
— Chega! — gritou Elisa, rindo. — Você tá maluca.
— Maluca, mas realista. Só… cuidado. Isso é perigoso. Sexy, sim. Mas perigoso. E você já tá com a cabeça cheia por causa dos seus pais. Não mistura tudo.
Elisa suspirou, mais calma agora. O quarto estava silencioso, e mesmo sem dizer, ela sabia que Bia a conhecia como ninguém.
— Eu sei. Obrigada por me lembrar.
— Por nada. Agora dorme. Amanhã, você tem uma aula com o Rafael Duarte às sete da manhã. E eu quero relatório completo no intervalo, me manda mensagem entendeu?
— Ai, meu Deus... Tá bom. Boa noite, sua doida.
— Boa noite, sua futura aluna preferida do professor Rafael.
Elisa desligou sorrindo, mesmo com o estômago dando voltas. A ansiedade era tanta que a vontade de dormir tinha evaporado.
Porque amanhã, ao abrir aquela porta da sala 03, ela saberia que não era só uma aula.
Era o começo de algo que talvez ninguém estivesse preparado pra controlar.
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O despertador ainda piscava no criado-mudo quando os gritos começaram.
— Já vai sair de casa essa hora? — a voz áspera do pai ecoou pela cozinha.
Elisa prendeu a respiração, com a mochila nas costas e os livros apertados contra o peito.
— Tenho aula de reforço às sete… — respondeu baixo, como se tentasse evitar o confronto entre os pais.
— Reforço? — ele riu, debochado. — Pra quê? Com todo o dinheiro que eu gasto nessa escola particular, você ainda precisa de aula extra? você só pode estar maluca.
A mãe, já à mesa, levantou o rosto com irritação.
— Ricardo, não começa. A menina tá tentando se dedicar, você só sabe cobrar, é cobrança atrás de cobrança.
— Cobrar? Eu cobro porque pago! — ele estalou a mão na mesa. — Tô cansado de sair pra trabalhar enquanto ela fica brincando de ser estudante. Vai ver que esse reforço aí é desculpa pra outra coisa.
— Por que você sempre insinua essas coisas pai ? — Elisa se defendeu, a voz trêmula de raiva e decepção. — Eu tô tentando fazer tudo certo! Mas vocês dois vivem brigando, não dá nem pra respirar aqui dentro, as vezes eu sinto vontade de desaparecer dessa casa, de desaparecer da vida de vocês.
— Olha como fala comigo, menina! Foi essa a educação que eu lhe dei ? — o pai se levantou da cadeira, apontando o dedo em sua direção.
A mãe também se levantou, agora aos gritos. Todos falavam ao mesmo tempo. Ninguém ouvia ninguém.
Aquela manhã foi mais um campo de guerra. E Elisa saiu de casa com o gosto amargo da culpa e da dor, sentindo-se pequena demais para o tamanho da pressão que carregava, ela só queria terminar o ensino médio logo e ir para outra cidade bem longe dos pais para recomeçar uma nova vida sozinha.