Helena percebeu que tinha perdido o controlo no momento mais simples possível.
Não foi num beijo, não foi numa declaração. Foi quando começou a contar os minutos para vê-lo.
Ela dizia a si mesma que era apenas hábito, rotina ou mesmo coincidência.
Mas o coração não entende de desculpas lógicas.
**
Naquela quarta-feira, Miguel chegou atrasado à aula. O lugar ao lado dela ficou vazio por dez minutos que pareceram uma hora.
Quando ele finalmente entrou, ofegante, cabelo levemente desalinhado, Helena sentiu algo que não queria admitir:
Alívio.
— Perdi alguma coisa importante? — ele cochichou enquanto se sentava.
— Só metade da explicação.
— Ótimo. Então vou depender de você.
Ela revirou os olhos, mas entregou o caderno para ele copiar. Pequenos gestos, confiança silenciosa e proximidade natural.
Era assim que começava.
***
Na semana seguinte, houve uma festa organizada pela turma e Helena quase não foi.
Festas significavam descontrolo, barulho, gente demais. E ela não gostava da sensação de perder a compostura.
Mas Miguel insistiu.
— Vai ser divertido.
— Você não me conhece em festas.
— Quero conhecer.
Aquilo foi o suficiente.
***
A música estava alta. As luzes, baixas. O ambiente tinha aquele cheiro de liberdade irresponsável que só universitários conhecem.
Helena estava diferente, cabelo solto, vestido simples, mas leve. Miguel demorou dois segundos a mais do que devia para desviar o olhar.
— Você está… — ele começou.
— Normal?
— Não, está linda!
O coração dela tropeçou.
Ela tentou fingir naturalidade, mas não conseguiu evitar o sorriso.
**
Mais tarde, já perto da meia-noite, estavam sentados na escada do lado de fora do prédio.
O barulho da festa chegava abafado.
— Você já gostou de alguém de verdade? — ela perguntou de repente.
Miguel demorou a responder.
— Já achei que sim.
— E não era?
— Era mais medo de ficar sozinho do que amor.
Ela absorveu aquilo.
— E agora?
Ele virou o rosto na direção dela.
— Agora eu estou tentando entender o que é.
O silêncio entre eles não era mais confortável.
Era elétrico.
**
Uma garota da turma apareceu chamando Miguel para dançar.
Helena sorriu e disse que tudo bem.
Mas não estava tudo bem.
Ela ficou ali, sentindo algo apertar dentro dela. Algo que não tinha nome oficial, mas todos conhecem, ciúme.
Miguel percebeu.
E voltou mais cedo do que precisava.
— Está tudo bem? — ele perguntou.
— Claro.
— Helena…
Ela suspirou.
— Eu não gosto dessa sensação.
— Qual?
— De querer algo que talvez nem seja meu.
Miguel aproximou-se devagar.
— E quem disse que não é?
O mundo inteiro pareceu diminuir naquele instante.
Ela respirou fundo.
— Você vai embora no próximo ano.
Ele passou a mão pelos cabelos.
— Talvez.
— Eu não sei começar algo que pode ter prazo de validade.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— E se não tiver?
Ela queria acreditar.
Mas tinha medo demais.
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Quando ele a levou até casa naquela noite, ficaram parados na porta por tempo demais.
Olhares demorados. Respirações desencontradas.
— Boa noite, Helena.
— Boa noite, Miguel.
Ele inclinou-se levemente. Não foi um beijo completo, foi quase.
Um quase que queimou mais do que se tivesse sido.
Quando ela entrou, encostou a porta e levou os dedos aos lábios.
Não era mais amizade, não era mais simples. E o mais assustador de tudo?
Ela já não queria que fosse.
***
Depois daquela noite, nada voltou ao normal.
E talvez o problema fosse justamente esse: nenhum dos dois queria que voltasse.
Helena passou dois dias evitando olhar Miguel diretamente. Não por falta de vontade. Mas porque tinha medo de confirmar o que já estava evidente.
Ele, por outro lado, parecia decidido.
Na sexta-feira, depois da aula, segurou a mão dela antes que ela pudesse escapar.
— Podemos parar de fingir?
O toque foi firme, mas não invasivo.
— Fingir o quê? — ela perguntou, mesmo sabendo.
— Que isso aqui não está acontecendo.
O coração dela acelerou.
— E o que exatamente está acontecendo?
Miguel deu um passo mais perto.
— Eu estou gostando de você. Muito mais do que planejei.
Ela sentiu o mundo inteiro inclinar.
— Miguel…
— Se você disser para eu parar, eu paro. Mas não me faça fingir que é só amizade.
Helena respirou fundo.
Ela tinha medo. Do futuro. Da distância. Da intensidade.
Mas naquele momento, tinha mais medo de se arrepender.
— Eu não quero que você pare.
Ele sorriu, como se estivesse esperando por aquilo desde o primeiro café derramado.
O beijo não foi cinematográfico.
Foi hesitante. Lento. Quase tímido.
Mas foi real.
E foi suficiente para mudar tudo.
****
Os dias seguintes foram estranhamente leves.
Eles não anunciaram nada. Não houve pedido formal.
Mas todos perceberam.
Os lugares passaram a ser fixos. As mãos, dadas. Os olhares, mais íntimos.
Helena estava feliz, mas a felicidade vinha acompanhada de uma pergunta constante:
“Quanto tempo isso vai durar?”
Miguel falava com entusiasmo sobre o intercâmbio. Ela fingia entusiasmo junto.
Até que numa tarde, não conseguiu.
— Você realmente vai? — ela perguntou.
— É uma oportunidade importante.
— Eu sei.
— Mas isso não muda o que sinto.
Ela queria acreditar nisso.
Mas distância muda tudo.
E o medo começou a crescer silencioso.
***
Relacionamentos não quebram de uma vez.
Eles racham primeiro.
Pequenas discussões começaram a surgir. Ciúmes bobos. Respostas atravessadas.
Helena odiava a ideia de parecer insegura.
Miguel odiava sentir que precisava provar algo o tempo todo.
Numa noite, depois de uma discussão por mensagem, ficaram horas sem se falar.
Helena encarava o telemóvel.
Orgulho contra saudade.
Miguel apareceu na porta dela.
— A gente não pode brigar por coisas pequenas — ele disse.
— Então para de agir como se eu tivesse que aceitar tudo.
Silêncio.
Ele segurou o rosto dela.
— Eu não quero te perder.
Ela fechou os olhos.
— Então não me deixa sentir que vou.
Mas o problema era maior do que os dois queriam admitir.
O tempo estava passando.
E a viagem se aproximava.