Capítulo 3

1502 Words
Intercâmbio! A palavra começou a pesar, Miguel recebeu a confirmação oficial. Helena sorriu, abraçou, parabenizou e chorou sozinha depois. — Você está distante — ele disse alguns dias depois. — Eu estou tentando me preparar. — Para quê? Ela respirou fundo. — Para não depender de alguém que vai embora. Ele ficou em silêncio. Porque no fundo, ele também tinha medo. *** A discussão não começou grande, mas terminou devastadora. — Você já está indo embora antes mesmo de ir! — Miguel acusou. — Porque dói menos assim! — Você prefere terminar antes que eu vá? Ela ficou em silêncio. E o silêncio respondeu por ela. Ele saiu sem bater a porta. E naquela noite, Helena percebeu que amar alguém também significa correr o risco de perdê-lo. *** Miguel viajou. Sem despedida adequada e sem promessa concreta. As mensagens começaram a ser frequentes, depois espaçadas e depois confusas. Helena mergulhou nos estudos e ele mergulhou numa nova rotina. A distância não acabou com o sentimento, mas o transformou. E às vezes, transformação dói mais que fim. *** A última mensagem foi simples: "Acho que estamos tentando salvar algo que está se desfazendo." Helena leu três vezes e não respondeu. Porque algumas dores não têm argumento. Ela não o bloqueou, não o apagou, mas guardou, como se guarda algo que um dia foi lar. *** O silêncio não foi imediato, ele foi gradual. Primeiro as mensagens demoravam algumas horas. Depois um dia inteiro, depois dois. Helena fingia que não percebia, mas percebia. Ela ainda acordava e, antes mesmo de abrir totalmente os olhos, pegava o telemóvel. Não para mandar mensagem. Só para verificar se havia alguma. Quase nunca havia. Miguel estava em outro país agora, outro fuso, outra rotina, outras pessoas. E o pior não era a ausência física, mas sim a sensação de que ele estava aprendendo a viver sem ela. *** E na universidade, tudo parecia igual, as mesmas salas, os mesmos professores e a mesma rotina, mas nada era igual. Ela já não tinha com quem dividir comentários silenciosos durante as aulas. Não tinha alguém para segurar sua mão por baixo da mesa quando ficava nervosa numa apresentação. Agora ela era só Helena, sem “Helena e Miguel”. E aquilo doía mais do que ela admitiria em voz alta. ** Numa sexta-feira à noite, as amigas insistiram para que ela saísse. — Você precisa distrair a cabeça .- disseram. Helena acabou indo. Vestiu algo bonito, arrumou o cabelo, passou um batom, mas não era sobre aparência. Era sobre provar para si mesma que ainda sabia existir sozinha. No meio da música alta, alguém puxou conversa. Um rapaz simpático, do curso de Direito. Ele era educado e até interessante! Mas quando riu, não foi o riso que ela procurava, e quando tocou sua mão, não foi o toque que ela conhecia. E foi ali que Helena entendeu algo doloroso: Superar não é substituir, e ela voltou para casa cedo. E naquela noite, não chorou por Miguel, mas chorou por si, pela parte dela que tinha se permitido depender. *** As semanas passaram. As mensagens com Miguel tornaram-se educadas, distantes, quase formais. “Como vão as aulas?” “Está tudo bem por aí?” “Boa sorte na prova.” Nenhum “sinto sua falta”. Nenhum “penso em você”. Até que, numa madrugada, ele mandou: "Aqui é tudo novo. Estou tentando acompanhar." Ela ficou olhando para a tela, tentando acompanhar. Talvez fosse isso que ele estivesse fazendo com a própria vida e talvez ela também precisasse fazer o mesmo. Helena começou a acordar mais cedo, passou a correr no campus antes das aulas. Voltou a tocar piano nas noites silenciosas do apartamento. Reaproximou-se de colegas que tinha deixado de lado. Era estranho, e a dor estava ali, mas junto dela vinha uma versão mais forte de si mesma. Ela começou a perceber que amar alguém não deveria significar desaparecer. E talvez, se algum dia eles voltassem a se encontrar, ela queria estar inteira e não metade. *** Três meses depois da partida de Miguel, uma mensagem chegou: "Precisamos conversar." O coração dela não disparou, ele apertou, há diferença. Ela sabia que aquela conversa não seria sobre saudade, mas sim que seria sobre decisão. E, pela primeira vez desde que ele partiu, Helena não sentiu pânico, sentiu maturidade. Talvez amar também fosse saber soltar. E talvez o capítulo deles ainda não tivesse terminado, mas ela já não era a mesma menina que tinha medo de ficar sozinha. Agora ela sabia: Ficar sozinha não era abandono, era construção. *** O silêncio da madrugada era pesado. Helena estava sentada na poltrona da sala de estar do seu apartamento, o laptop apoiado no colo, a xícara de chá esquecida na mesa ao lado. O relógio marcava 2h37. Ela deveria estar dormindo, mas não conseguia. Miguel estava a milhares de quilômetros de distância agora. Paris, segundo ele, estava fria, cinza e vibrante ao mesmo tempo. Helena podia imaginar a cidade iluminada pelas luzes de Natal, as ruas movimentadas, cafés apertados com cheiro de pão e café fresco — e ele lá, sem ela. Ela relia a última mensagem dele: "Helena… precisamos conversar." Não era mensagem de w******p, não. Era um e-mail, longo, com pontuação irregular, frases quebradas e muitos pontos de interrogação. Cada palavra parecia pesada. Ela sentiu um aperto no peito que não sabia se era saudade, medo ou raiva de si mesma. — Por que você está aqui e eu não consigo estar? — murmurou para si mesma. Helena respirou fundo, fechou os olhos e tentou se concentrar no que ela mesma tinha aprendido nas últimas semanas: a distância não era ausência de sentimento. Era teste. Era dor que ensinava. --- Ela abriu a chamada de vídeo finalmente. A tela piscou, e lá estava ele, mais cansado do que nas últimas fotos que enviara, com o cabelo bagunçado e a barba começando a crescer. Os olhos ainda eram os mesmos, mas havia algo diferente: mais sério, mais consciente da vida, mais pesado. — Helena… oi — disse ele, hesitante. — Oi, Miguel — respondeu ela, tentando controlar a voz trêmula. Houve um silêncio estranho, aquele tipo de silêncio que fala mais do que qualquer conversa. Eles não precisavam se ver para sentir que a distância mudara algo entre eles. — Eu… sinto falta de você — começou Miguel, a voz baixa. — Sinto muito. Cada dia que passa parece mais difícil. Eu não sei se estou fazendo certo. Helena engoliu em seco. A saudade queimava como fogo. Mas ela respirou fundo, tentando organizar seus pensamentos: — Eu também sinto falta. Mas sentir falta não muda nada — disse ela, olhando para a tela, vendo o reflexo dele nos olhos. — Você está vivendo a sua experiência, e eu estou vivendo a minha. Temos que aprender a lidar com isso, Miguel. Não adianta nos sufocar com culpa ou arrependimento. — Eu sei — ele disse, e suas mãos se moviam nervosamente diante da câmera. — Mas às vezes parece que o tempo está nos afastando mais rápido do que qualquer esforço. Helena ficou olhando, entendendo que aquela era a realidade do amor deles: mais tarde, mais cedo, mais distante, mais difícil. Mas real. --- Eles passaram a noite inteira conversando. Não era apenas sobre saudade ou planos futuros; era sobre como sobreviver à ausência. Miguel contou sobre os primeiros dias na nova cidade: o frio, a dificuldade de se localizar, a rotina universitária diferente, colegas que falavam outra língua. Helena contou sobre como estava lidando com as aulas, os trabalhos acumulados, as noites solitárias no apartamento silencioso, o piano que tocava quando sentia falta dele. Cada história parecia reforçar algo: a distância era c***l, mas também os estava fortalecendo. — Eu sinto que estamos crescendo separados — disse Miguel. — E é assustador, porque não sei se voltaremos a nos encaixar da mesma forma. — Talvez não — respondeu Helena, baixinho. — Mas talvez nem seja preciso voltar a ser igual. Talvez seja suficiente continuarmos tentando, mesmo diferentes. Ele assentiu, e por um instante, a tela parecia menor do que a distância real. Mas havia esperança. — Eu quero tentar — disse Miguel finalmente. — Eu quero continuar construindo, mesmo que seja aos pedaços, mesmo que seja longe. Helena sorriu. Quase lágrimas escorreram. — Eu também quero. Mas precisamos aceitar que será difícil. Muito difícil. E assim passaram a madrugada inteira, dividindo angústias, lembranças, planos e promessas silenciosas de continuar tentando. Cada palavra, cada silêncio, cada gesto na tela fortalecia algo invisível entre eles. No final, Helena desligou o laptop e respirou fundo. Olhou pela janela para a cidade silenciosa. O frio da madrugada parecia menos pesado. Ela não sabia se conseguiriam superar tudo, mas sabia uma coisa: o amor deles agora tinha raiz, não era apenas calor de proximidade física. Era coragem, esperança e escolha. E talvez fosse isso que tornava o amor verdadeiro — não a presença constante, mas a decisão diária de ficar, mesmo longe.
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