Mas que pörra

1660 Words
Mia - Por que está aqui? - Deixo a pergunta sair com força, finalmente libertando milhares de sentimentos que segurei nos últimos segundos. - Eu estava em casa. O Matthew me ligou e disse que você precisa de uma carona. - Ele responde simplesmente, e bebo cada palavra, cada mudança de tom na sua voz, bebo dos seus olhos como se estivesse com sede durante a vida toda. - Ele não me avisou. - Explico e dou um passo para trás, lutando para vestir a máscara de frieza que aprendi com tanto custo usar na presença dele. - Desculpe a minha surpresa. - Falo, mas nada na minha voz diz que eu estou satisfeita com isso. Que porrä Matthew!! - Percebi pela sua cara. - Ele olha ao redor e respira fundo, antes de apertar a boca em uma linha fina. - Pronta para ir? - Pisco, porque ainda não consegui entender em que mundo o meu irmão achou que isso era uma boa ideia. Tudo o que ele sabe é que eu odeio o menino diante de mim. Homem. Ele é um homem agora. - Preciso de 5 minutos. - De repente me dou conta da roupa que estou, do cabelo preso em um coque solto e dos olhos inchados. - Eu vou… - Leve o tempo que precisar… Mas, pretendo chegar em casa antes do amanhecer. - Ele explica e encara a mala perto da porta. - Posso colocar essa no carro? Confirmo com a cabeça, sem conseguir usar a minha voz. - Vou te dar privacidade para gritar com o Mat em paz. - Ele puxa a minha mala e fecha a porta atrás de si. E eu fico ali, congelada no lugar, querendo fazer exatamente o que ele sugeriu que eu faria. Gritar com o meu irmão. Por não me avisar. Por mandar ele me buscar. Por piorar os meus nervos que já estavam em frangalhos. Seguro o celular na mão com força, pronta para discar, mas respiro fundo. Thomas Bradford me conhece a ponto de saber o que eu planejava no fundo da minha mente. Antes mesmo de decidir que eu iria ligar para o Mat, ele sabia que eu faria isso. Só que não sou mais a menininha que ele destruiu o coração. Não. Eu sou uma pessoa completamente diferente, e que não vai se lamentar pela carona ou pelas quase 6 horas trancadas em um carro, com ele, até Ann Arbor. Me encaro no espelho e arrumo o cabelo como consigo. Jogo água no rosto e respiro fundo, antes de sair, puxando a mala pelo corredor. Vejo a picape de longe e caminho com confiança até ela. Só que ele não está lá. Aperto os olhos, olhando em volta, e logo vejo ele sair da sala do senhorio. Thomas caminha na minha direção com confiança, as mãos no bolso e o ar frio saindo esfumaçado da sua respiração. Ele não olha para mim, apenas pega a minha mala e coloca na traseira da picape. - Pronta para ir? - Ele caminha até a porta do motorista. - Eu preciso pagar… - Eu já acertei tudo. - Ele fala, apontando para a sala do senhorio. - Não precisava… - Ordens do seu irmão. - Mordo a língua, porque o Matthew sabe o quão fodidamentë dura eu estou, então a ordem de pagar pela minha estadia faz sentido. - Vamos? - Ele abre a porta e eu o sigo. Assim que bato a porta sou inundada por ele. O cheiro da cabine da picape é exatamente o que eu me lembro. Uma mistura de menta com uma nota amadeirada e respiro fundo antes de colocar o cinto. Ele liga o carro e vejo no painel do GPS que serão 5 horas e 40 minutos dentro do carro com ele. O único som entre nós é o ronco do motor e uma playlist calma e quase fico grata pela falta de conversa, enquanto seguimos pela estrada, com o sol se pondo no horizonte. Os meus pensamentos voam, se misturando entre o passado e o presente e sinto os meus olhos traidores queimarem com lágrimas, e apenas por isso, fecho os olhos e encosto a cabeça no vidro, deixando que o calor do aquecedor me envolva. Estou quase adormecendo quando ouço ao longe um apito leve. - Pacote retirado. - Ele atende a ligação no bluetooth, mas eu continuo de olhos fechados. - Te devo o campeonato, Capitão. - A afirmação do meu irmão me obriga a encarar o homem ao meu lado. - Não por isso, Math. - Ele responde, mas mantém os olhos na estrada, as mãos firmes no volante. - Como ela está? - O Mat pergunta e com isso o Thomas me olha. - Ela está te ouvindo. - Ouço o meu irmão rir, mas falo antes que ele possa fazer qualquer piada. - Vou sobreviver. - Respiro fundo. - Me avisar teria sido gentil, Matthew. - Tento soar brava, mas falho. - Você não aceitaria. - Estalo a língua. - Mia, eu sei que não é o ideal, mas o Tom já estava aí. - Eu sei. - Respondo. - Obrigada… Aos dois. - Olho para o motivo do meu desconforto e ele apenas assente. - Não me agradeça ainda… Espere para ver seu novo quarto antes. - Mat, vou resolver isso quando chegar aí. - É a vez dele estalar a língua. - Será impossível te colocar em um dormitório ou sororidade no meio do semestre Amélia, então, por enquanto, você vai morar comigo. - Me jogo no banco, fechando os olhos com força. - Não é o ideal, mas você vai ter seu quarto e um banheiro só seu. É muito mais do que eu esperava, sendo honesta. - Você mora com 5 jogadores. - Eu relembro. - 6 na verdade. - O Thomas responde. - O Kit liberou o quarto? - Ele pergunta pro meu irmão. - Ele me devia um favor. - Depois da Jeniffer? - Antes dela. - Me sinto uma intrusa na conversa dos dois e logo o Matthew volta a falar comigo - De qualquer forma, as aulas voltam só na segunda, então você vai ter tempo de se adaptar e a mamãe… - Você contou para a mamãe??? - Agora sim eu estou brava. - Amélia, o que você queria? - Ele rebate, com o tom de irmão maduro. - Você estava noiva e resolveu atravessar o distrito inteiro… - O que você falou pra ela? - E porque ela ainda não me ligou? - Contei o pouco que eu sei. - Passo a mão pelo cabelo, sentindo a frustração entrar nos meus nervos. Acho que o Thomas pressente que eu estou perto de explodir, porque ele interrompe. - Dalton, chegamos antes do dia nascer… Daí vocês conversam. To na interestadual. - Beleza Brow. - Meu irmão responde. - Não me odeie, Mia. - Ele me pede e eu solto uma risada alta. - Tarde demais, cabeção! - Ouço ele rir antes de desligar. Qualquer controle que eu sentia antes, evaporou por completo depois de descobrir onde eu vou morar. E isso não tem nenhuma relação com morar com 6 jogadores enormes. Não. É por causa do homem ao meu lado que os meus pensamentos estão disparando. - Você mora lá também, certo? - Só percebo as palavras saindo quando ouço os dentes dele trincando. - Sim. - É a única resposta que ele se digna a me dar, e a única que eu preciso. Depois do que parece uma vida, ele completa. - No quarto do lado do seu. - E me encara com intensidade. E por um momento quase parece aquele menino por quem eu me apaixonei, aquele que me beijou com muita vontade, antes de arrebentar o meu coração. - Excelente. - Respondo, e o sarcasmo sai em cada letra. - Algum problema com isso, Mia Back? - Estou enrolando uma mecha dea minha franja no dedo, tentando ignorar a sequência de problemas que eu vejo com isso. Sem falar no apelido tenebroso, que eu odeio com todas as minhas forças, mas ainda assim, é um bálsamo na voz dele. Mas, o problema número 1: Dividir a casa e estar a uma parede de distância dele? - Na verdade, não vejo nenhum problema. - Consigo fazer com que as palavras sejam minimamente verdadeiras. Nem quero pensar na quantidade de garotas que o homem lindo ao meu lado leva para o próprio quarto. - Desde que as paredes não sejam finas… - Completo e sinto o rosto queimar. Ele absorve as minhas palavras e começa a rir. O som mais gostoso do mundo. Um som que eu nem me permito pensar, e que mexe com cada célula do meu corpo. - Não se preocupe com isso, Mia Back. - Ele fala entre risos. - Não costumo dividir a minha cama. Agora é a minha vez de rir. - Você é capitão do time, o Quarterback, a fila de líderes de torcida deve fazer volta no quarteirão. - Acuso, porque lembro do ensino médio, quando ele era o garoto mais disputado do colégio. - Nunca disse o contrário, Mia Back. - Ele continua sorrindo, e eu poderia morar nessa pörra de sorriso. - Mas, o meu quarto é meu. E uso apenas para dormir. Ótimo. Ele segue sendo um galinha. Mas, come fora. - Excelente. - Respondo, com menos sarcasmo dessa vez. - Sinto não dizer o mesmo. Não sei o que me leva a provocar. Talvez a esperança de que uma das feridas no meu coração doa menos. - Isso é problema do seu irmão, não meu. - Ele responde e não existe nada do sorriso de antes. Nem mesmo uma fagulha de animação no tom dele. - Algumas coisas não mudam. - Eu rebato e ele segue em silêncio. Fecho os olhos, encostou no vidro e me forço a parar de pensar que eu queria que as coisas fossem diferentes.
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