Mia
- Por que está aqui? - Deixo a pergunta sair com força, finalmente libertando milhares de sentimentos que segurei nos últimos segundos.
- Eu estava em casa. O Matthew me ligou e disse que você precisa de uma carona. - Ele responde simplesmente, e bebo cada palavra, cada mudança de tom na sua voz, bebo dos seus olhos como se estivesse com sede durante a vida toda.
- Ele não me avisou. - Explico e dou um passo para trás, lutando para vestir a máscara de frieza que aprendi com tanto custo usar na presença dele. - Desculpe a minha surpresa. - Falo, mas nada na minha voz diz que eu estou satisfeita com isso.
Que porrä Matthew!!
- Percebi pela sua cara. - Ele olha ao redor e respira fundo, antes de apertar a boca em uma linha fina. - Pronta para ir? - Pisco, porque ainda não consegui entender em que mundo o meu irmão achou que isso era uma boa ideia.
Tudo o que ele sabe é que eu odeio o menino diante de mim.
Homem.
Ele é um homem agora.
- Preciso de 5 minutos. - De repente me dou conta da roupa que estou, do cabelo preso em um coque solto e dos olhos inchados. - Eu vou…
- Leve o tempo que precisar… Mas, pretendo chegar em casa antes do amanhecer. - Ele explica e encara a mala perto da porta. - Posso colocar essa no carro?
Confirmo com a cabeça, sem conseguir usar a minha voz.
- Vou te dar privacidade para gritar com o Mat em paz. - Ele puxa a minha mala e fecha a porta atrás de si. E eu fico ali, congelada no lugar, querendo fazer exatamente o que ele sugeriu que eu faria.
Gritar com o meu irmão.
Por não me avisar.
Por mandar ele me buscar.
Por piorar os meus nervos que já estavam em frangalhos.
Seguro o celular na mão com força, pronta para discar, mas respiro fundo.
Thomas Bradford me conhece a ponto de saber o que eu planejava no fundo da minha mente.
Antes mesmo de decidir que eu iria ligar para o Mat, ele sabia que eu faria isso.
Só que não sou mais a menininha que ele destruiu o coração. Não.
Eu sou uma pessoa completamente diferente, e que não vai se lamentar pela carona ou pelas quase 6 horas trancadas em um carro, com ele, até Ann Arbor.
Me encaro no espelho e arrumo o cabelo como consigo. Jogo água no rosto e respiro fundo, antes de sair, puxando a mala pelo corredor. Vejo a picape de longe e caminho com confiança até ela.
Só que ele não está lá.
Aperto os olhos, olhando em volta, e logo vejo ele sair da sala do senhorio.
Thomas caminha na minha direção com confiança, as mãos no bolso e o ar frio saindo esfumaçado da sua respiração. Ele não olha para mim, apenas pega a minha mala e coloca na traseira da picape.
- Pronta para ir? - Ele caminha até a porta do motorista.
- Eu preciso pagar…
- Eu já acertei tudo. - Ele fala, apontando para a sala do senhorio.
- Não precisava…
- Ordens do seu irmão. - Mordo a língua, porque o Matthew sabe o quão fodidamentë dura eu estou, então a ordem de pagar pela minha estadia faz sentido. - Vamos? - Ele abre a porta e eu o sigo.
Assim que bato a porta sou inundada por ele.
O cheiro da cabine da picape é exatamente o que eu me lembro. Uma mistura de menta com uma nota amadeirada e respiro fundo antes de colocar o cinto.
Ele liga o carro e vejo no painel do GPS que serão 5 horas e 40 minutos dentro do carro com ele. O único som entre nós é o ronco do motor e uma playlist calma e quase fico grata pela falta de conversa, enquanto seguimos pela estrada, com o sol se pondo no horizonte.
Os meus pensamentos voam, se misturando entre o passado e o presente e sinto os meus olhos traidores queimarem com lágrimas, e apenas por isso, fecho os olhos e encosto a cabeça no vidro, deixando que o calor do aquecedor me envolva.
Estou quase adormecendo quando ouço ao longe um apito leve.
- Pacote retirado. - Ele atende a ligação no bluetooth, mas eu continuo de olhos fechados.
- Te devo o campeonato, Capitão. - A afirmação do meu irmão me obriga a encarar o homem ao meu lado.
- Não por isso, Math. - Ele responde, mas mantém os olhos na estrada, as mãos firmes no volante.
- Como ela está? - O Mat pergunta e com isso o Thomas me olha.
- Ela está te ouvindo. - Ouço o meu irmão rir, mas falo antes que ele possa fazer qualquer piada.
- Vou sobreviver. - Respiro fundo. - Me avisar teria sido gentil, Matthew. - Tento soar brava, mas falho.
- Você não aceitaria. - Estalo a língua. - Mia, eu sei que não é o ideal, mas o Tom já estava aí.
- Eu sei. - Respondo. - Obrigada… Aos dois. - Olho para o motivo do meu desconforto e ele apenas assente.
- Não me agradeça ainda… Espere para ver seu novo quarto antes.
- Mat, vou resolver isso quando chegar aí. - É a vez dele estalar a língua.
- Será impossível te colocar em um dormitório ou sororidade no meio do semestre Amélia, então, por enquanto, você vai morar comigo. - Me jogo no banco, fechando os olhos com força. - Não é o ideal, mas você vai ter seu quarto e um banheiro só seu.
É muito mais do que eu esperava, sendo honesta.
- Você mora com 5 jogadores. - Eu relembro.
- 6 na verdade. - O Thomas responde. - O Kit liberou o quarto? - Ele pergunta pro meu irmão.
- Ele me devia um favor.
- Depois da Jeniffer?
- Antes dela. - Me sinto uma intrusa na conversa dos dois e logo o Matthew volta a falar comigo - De qualquer forma, as aulas voltam só na segunda, então você vai ter tempo de se adaptar e a mamãe…
- Você contou para a mamãe??? - Agora sim eu estou brava.
- Amélia, o que você queria? - Ele rebate, com o tom de irmão maduro. - Você estava noiva e resolveu atravessar o distrito inteiro…
- O que você falou pra ela? - E porque ela ainda não me ligou?
- Contei o pouco que eu sei. - Passo a mão pelo cabelo, sentindo a frustração entrar nos meus nervos.
Acho que o Thomas pressente que eu estou perto de explodir, porque ele interrompe.
- Dalton, chegamos antes do dia nascer… Daí vocês conversam. To na interestadual.
- Beleza Brow. - Meu irmão responde. - Não me odeie, Mia. - Ele me pede e eu solto uma risada alta.
- Tarde demais, cabeção! - Ouço ele rir antes de desligar.
Qualquer controle que eu sentia antes, evaporou por completo depois de descobrir onde eu vou morar. E isso não tem nenhuma relação com morar com 6 jogadores enormes. Não.
É por causa do homem ao meu lado que os meus pensamentos estão disparando.
- Você mora lá também, certo? - Só percebo as palavras saindo quando ouço os dentes dele trincando.
- Sim. - É a única resposta que ele se digna a me dar, e a única que eu preciso. Depois do que parece uma vida, ele completa. - No quarto do lado do seu. - E me encara com intensidade.
E por um momento quase parece aquele menino por quem eu me apaixonei, aquele que me beijou com muita vontade, antes de arrebentar o meu coração.
- Excelente. - Respondo, e o sarcasmo sai em cada letra.
- Algum problema com isso, Mia Back? - Estou enrolando uma mecha dea minha franja no dedo, tentando ignorar a sequência de problemas que eu vejo com isso. Sem falar no apelido tenebroso, que eu odeio com todas as minhas forças, mas ainda assim, é um bálsamo na voz dele.
Mas, o problema número 1: Dividir a casa e estar a uma parede de distância dele?
- Na verdade, não vejo nenhum problema. - Consigo fazer com que as palavras sejam minimamente verdadeiras. Nem quero pensar na quantidade de garotas que o homem lindo ao meu lado leva para o próprio quarto. - Desde que as paredes não sejam finas… - Completo e sinto o rosto queimar.
Ele absorve as minhas palavras e começa a rir.
O som mais gostoso do mundo.
Um som que eu nem me permito pensar, e que mexe com cada célula do meu corpo.
- Não se preocupe com isso, Mia Back. - Ele fala entre risos. - Não costumo dividir a minha cama.
Agora é a minha vez de rir.
- Você é capitão do time, o Quarterback, a fila de líderes de torcida deve fazer volta no quarteirão. - Acuso, porque lembro do ensino médio, quando ele era o garoto mais disputado do colégio.
- Nunca disse o contrário, Mia Back. - Ele continua sorrindo, e eu poderia morar nessa pörra de sorriso. - Mas, o meu quarto é meu. E uso apenas para dormir.
Ótimo. Ele segue sendo um galinha. Mas, come fora.
- Excelente. - Respondo, com menos sarcasmo dessa vez. - Sinto não dizer o mesmo.
Não sei o que me leva a provocar. Talvez a esperança de que uma das feridas no meu coração doa menos.
- Isso é problema do seu irmão, não meu. - Ele responde e não existe nada do sorriso de antes. Nem mesmo uma fagulha de animação no tom dele.
- Algumas coisas não mudam. - Eu rebato e ele segue em silêncio.
Fecho os olhos, encostou no vidro e me forço a parar de pensar que eu queria que as coisas fossem diferentes.