Mia
Alguns anos antes
- Eu quero ir! Que droga! - Rebato pela milésima vez ao argumento do meu irmão que os treinos são perigosos para mim. - Que bosta, Mat, sou sua irmã mais velha e maior de idade, posso ir onde eu quiser!
Eu sou apaixonada por futebol americano, e claro que a vida ia me presentear com um irmão jogador de elite e duas pernas esquerdas, afinal, o meu equilíbrio é uma porcaria.
- Não quero você perto do time! - Ele fala pelo que deve ser a centésima vez.
- Para de implicar com a sua irmã. - É o meu pai que intervém, porque afinal, a minha paixão veio dele. - Ela gosta de jogar, e treinar com o irmão dela é um pedido razoável.
- Os caras ficam olhando para ela e não prestam atenção nos treinos.
Eu reviro os olhos.
Violentamente.
Porque desde que voltamos das férias, isso se tornou um problema.
Talvez tenha relação com a mudança do meu corpo durante o verão? Ou o par de seiös que cresceu do nada? Ou mesmo com a bundä empinada?
Bem, eu não me importo.
- Eu não vou me exibir para o seu time. Quero apenas assistir… E lançar algumas bolas…
Os treinos aos sábados são os únicos que eu consigo assistir, devido aos horários das minhas aulas.
- Você não vai e pronto! - Ele rebate e de novo eu me sinto raivosa, porque ele é maior e mais forte que eu, mesmo eu sendo a mais velha.
- Matthew, não faça isso. Deixa a sua irmã ir. - O meu pai intervém mais uma vez, mas o meu irmão segue irredutível.
Talvez ele saiba…
- Quer saber? Eu não me importo com o que você quer.
- Se você aparecer lá eu vou te chutar para fora! - Ele sai de casa, batendo a porta e eu estou quase rosnando quando ouço o carro ligar. Olho para o meu pai, que está me dando um sorriso lupino, um sinal claro de que quer aprontar.
- Vá se trocar Mia, eu vou ao treino e vou te levar comigo. - Paro por um segundo, encarando a ideia do meu pai. - Isso é uma ordem! - Ele completa sorrindo e eu já estou correndo.
***
A alegria que eu sinto ao saltar do carro é descontrolada, e vejo nos olhos do meu pai que ele compartilha da mesma alegria. Ele joga o braço nos meus ombros e caminhamos com calma para dentro do estádio.
- Você vai arrumar problemas com o seu menino de ouro. - Aviso mais uma vez.
- Mas a minha menininha de ouro estará feliz. - Ele dá um peteleco na ponta do meu nariz, o que me arranca uma risada. - E falta menos de um ano para eu te perder para a faculdade, então… Que se dane. Vou mimar você o máximo que eu puder.
Consigo ver o ódio no olhar do meu querido irmão assim que nos vê na primeira linha da arquibancada, logo atrás do senhor Julius, o treinador do time e o homem mais assustador que eu conheço.
Ele dá um aceno para nós, e nos sentamos enquanto dividimos uma pipoca.
Estou muito animada, porque o time nitidamente está melhor, e temos grandes chances esse ano. Enquanto estamos aqui, o treinador Julius quase faz os meninos sangrarem, e honestamente, é uma alegria ver esse bando de brutamontes sofrer.
- EHHH TOUCHDOWN! - Gritamos juntos assim que o meu irmão enterra a bola na end zone. Ele aponta na nossa direção antes de ser engolido pelos companheiros de time.
- Eles melhoraram muito depois que o Bradford virou capitão. - O meu pai comenta, e por mais despretensioso que seja o seu comentário, sinto o meu coração bater mais forte.
Cantarolo uma confirmação, enquanto corro os olhos no campo, em busca do tal Capitão.
Levo menos de 5 segundos para encontrar ele e assim que ele me encara de volta, sinto o meu rosto queimar de vergonha. Ele leva dois dedos na altura do capacete e faz o sinal que vejo ele fazer para o meu irmão nos últimos 5 anos.
Repito o gesto, e sinto o meu sorriso largo.
- Sabe… Talvez esse seja o real motivo do menino de ouro querer você longe dos treinos. - Meu pai fala, em um tom cheio de provocação.
- Queeee? - Aperto os olhos na direção dele, e ele está sorrindo.
- Você cresceu filha… E ele também. - Eu sei que ele está falando do Thomas, mas mesmo assim, finjo confusão. - Eu sou o seu pai e consigo ver quando você fica vermelha toda a vez que o Bradford aparece lá em casa. - Ele faz uma pausa. - Você também evita ir na casa dele com o Mat.
Abaixo os olhos, porque não consigo mentir para ele.
O meu pai sempre teve um dom de fazer todas as minhas verdades mais obscuras saírem para a luz, completamente diferente da minha mãe, que quase me obriga a mentir.
- Eu acho ele bonito, pai. - Admito, mas essa não é toda a verdade, nem de longe.
- E seu irmão deve saber disso.
- Eu vou para a faculdade em menos de um ano… E o meu irmão não vai ter mais poder sobre a minha vida. - Rebato, porque o meu irmão mais novo tomando decisões por mim é ridículo.
- Ninguém nunca terá poder sobre você, minha menina… - Ele me abraça, e isso é tudo o que eu preciso agora.
Bem, o abraço do meu pai, e os olhos verdes que me encaram do centro do campo.
Os olhos dele.
***
Dias atuais
- … E agora quando eu resolvi sair de casa, me dei conta que eu não tinha mais nada. - Completo, antes de morder mais um bolinho.
O sabor da infância acalmou o meu coração de uma forma inexplicável.
Contar para ele também, pelo visto.
- Preciso que você seja mais detalhista, Mia Back. - O apelido me arranca um sorriso, e ignoro a tensão que sinto na voz dele.
- Ele zerou todas as minhas economias. - Explico. - Vendeu o meu carro. - Suspiro. - O argumento era: Estamos construindo um futuro juntos… É para o casamento… - Tento listar mais coisas, mas ao que parece, eu fui apenas burra. - Pensei muito nos últimos dias, e honestamente, não sei onde as coisas deram errado. - Bebo um longo gole de café, mas o Tom continua imóvel ao meu lado.
Com certeza, absorvendo as informações.
- E você foi embora, e deixou tudo lá? - Assenti. - Por quê? - Agora ele está completamente incrédulo.
- O trabalho e o desgaste de tentar cobrar dele qualquer valor, não pagaria a terapia. - Forço uma piada e o menino ao meu lado arregala os olhos.
Homem.
O homem ao meu lado.
- Amélia…
- Olha, Tom, eu fiz o que consegui, que foi juntar tudo o que vi, que era meu, e sair pela porta. - Explico, sentindo o cansaço atingir os meus ossos. - Ele que se fodä, de verdade!
A decisão de virar essa página veio duas noites atrás, quando finalmente o Paul desistiu de tentar falar comigo. Ele mandou toneladas de mensagens e ligou muitas vezes. Mas, levou menos de 48 horas para ele desistir, finalizando com uma única frase, quase 4 anos juntos.
Eu desisto.
- Certo. - O Tom bebe um longo gole de café, acho que para engolir o que eu estou contando. - Mas o carro… - A dor afunda no meu coração, porque o carro era tudo para mim. - Para quem ele vendeu o carro?
Meu Ford Explorer cinza, 98.
O presente do meu pai quando fiz 18 anos. A última parte viva dele em mim.
O carro que eu vi ele cuidando durante a minha vida inteira, justamente para me presentear.
Não era novo, mas estava inteiro e era meu.
Eu evito pensar muito nisso, porque a facilidade que o Paul teve para me convencer deveria me envergonhar.
- Para um amigo. - Respondo. - Um colega do time…
O Paul é Quarterback também, o que deve ser uma espécie de carma.
Ou um sinal de que terei o coração partido.
- Ele joga pela Universidade? - Assinto e me concentro no saco de bolinhos, que agora tem apenas um. Encaro o Tom, com a melhor expressão de inocência que eu consigo e ele sorri quando se dá conta do meu pedido silencioso. - Pode comer o último, Mia. - Estou sorrindo de novo, porque além de estar realmente com fome, esses bolinhos aqueceram um pedaço da minha alma que eu nem sabia que estava congelado.