Capítulo 3

1734 Words
O motorista sem dizer nada, engatou a marcha e o comboio começou a se mover. O veículo por dentro estava escuro. A única luz que tinha era do reflexo da neve do lado de fora. Lyra estava rígida como uma tábua. Cada musculo do seu corpo doía pela tensão. Ela não conseguia encontrar uma posição que não sentisse a dureza e a firmeza do corpo dele por baixo da sua própria pele fina. A coxa dele rente a dela perecia pedra. O braço que agora envolvia sua cintura parecia uma corrente inquebrável. Ela precisava de espaço. Precisava respirar um ar que não tivesse com aquele cheiro viciante do alfa, o mesmo cheiro que deixava sua respiração mais curta e irregular. Reunindo à última centelha de coragem que ainda tinha no corpo exausto, ela colocou as duas mãos tremulas no peito de Kaelen, em cima da camisa rasgada e pegajosa, e empurrou. Foi igual tentar empurrar uma montanha com as duas mãos. Ele não se moveu um milímetro. Pelo contrário. Ao sentir aquele empurrão fraco e as mãos frias dela no seu peito, o corpo dele ficou perigosamente imóvel. Lentamente, ele abaixou o rosto naquele breu até que o hálito quente dele chegasse próximo a orelha dela, fazendo com que os pelos de seu corpo se arrepiassem em uma mistura de pânico e antecipação física. - Fique quieta. - A voz dele era áspera igual um cascalho, rocando na sua orelha, carregada daquele mesmo rosnado territorial de antes. -Me solta, - Lyra exigiu. A voz saiu rouca, fina e fraca hesitando na última silaba. Ela odiou a si mesma por soar tão frágil. Ela apertou os dedos no peito dele, arranhando o tecido. - Me deixa sentar no banco. O silencio que se seguiu pareceu roubar todo o oxigênio do carro. O motorista lá na frente parece ter parado de respirar. A mão de Kaelen, que estava repousada no quadril dela, subiu lentamente. O toque dos seus dedos era firme, traçando a linha da coluna dela bem lentamente quase torturante que fez sua espinha arquear instintivamente contra a sua própria vontade. Ele levou a mão até a nuca dela, adentrando seus dedos longos nos seus cabelos desalinhados e prateados, e puxou. Não foi um puxão pra machucar, mas para subjugar. Ele forçou o rosto dela a se virar, a obrigando a olhar diretamente para ele no escuro. Os olhos dele ainda não eram humanos. O âmbar era selvagem e brilhantes, se destacavam na escuridão do carro, e a pupila dele estava dilatada, preenchendo quase toda a íris. A fera dele estava na borda, observando ela com uma fome crua e que fez o coração dela bater tão rápido que o peito dela chegou a doer. -Você não vai pra lugar nenhum que não seja exatamente onde você ta agora, - ele sussurrou, e a calma em sua voz era mais letal do que se ele tivesse dado um grito. -O seu lugar é aqui. Entendeu? A loba de Lyra choramingou de prazer diante da dominação, a maldita traidora, mas o lado humano da garota sentiu o gosto amargo do ódio. - Você acabou de matar a minha matilha, - Ela disse, as palavras tremendo de ódio e de lagrimas que ela não queria derramar. O contato visual com ele exigia um esforço tremendo, a aura de força dele quase obrigando ela a abaixar a cabeça, mas ela apertou os lábios nos dentes até sentir o gosto de sangue na sua boca para se manter firme. - Você destruiu minha casa. Eu não sou seu bichinho de estimação. Você não pode simplesmente me sequestrar! A menção da sua antiga matilha não teve um produziu nem um efeito de culpa das expressões duras do alfa supremo. Na verdade, pareceu que ele ficou mais irritado ainda. O cheiro de cedro se tornou amargo, pesado de agressividade. O polegar de Kaelen roçou na bochecha de Lyra limpando restos de fuligem com uma suavidade doentia que contrastava a violência da sua expressão. O calor da pele dele queimou a bochecha fria dela. -Eles não eram sua matilha, - Kaelen corrigiu ela, a voz saiu baixa e perigosa, seus olhos desceram para os lábios trêmulos dela antes de voltar a se ficar nos olhos violetas dela. - Eles não sabiam o que possuíam. Eles te deixaram cheirando a ervas baratas, usando roupas velhas e tremendo de frio. Eles a deixaram fraca. Ele inclinou o corpo milimetricamente para frente, o espaço entre seus rostos desaparecendo. O magnetismo animal do elo de companheiros puxava as células de Lyra na direção dele, implorando para que ela fechasse os últimos centímetros e descansasse a cabeça na curva daquele pescoço musculoso. O esforço físico para não ceder à biologia era exaustivo, fazendo-a suar frio sob as roupas velhas. — Eles morreram porque estavam no meu caminho, — continuou o Alfa, a frieza de um psicopata ecoando no tom casual de sua confissão. — Eu teria queimado este continente inteiro até que não sobrasse nada além de cinzas, apenas para encontrá-la, Lyra. Se você acha que pode sair de perto de mim agora que eu a tenho... você está terrivelmente enganada. Ele sabia o meu nome. A constatação caiu nela igual um bloco gelo. Como? Na hora da invasão? Ela não era ninguém, um fantasma na periferia da sociedade da lua de prata. Ninguém nem prestava atenção nela. Mas o rei alfa tinha dito o nome dela com uma familiaridade estranha, como se o provasse, como se já conhecesse na sua língua. Lyra não respondeu. Sua garganta estava apertada demais com o pânico e com a realidade terrível daquela situação. Ela fechou os olhos com força, incapaz de sustentar o brilho dourado e opressivo do olhar dele, e deixou que a exaustão do seu corpo vencesse aquela batalha contra o medo. Sentindo a rendição rápida do corpo duro da garota, o rosnado do peito dele parou. Ele ajeitou o abraço, puxando ela ainda mais para o meio do seu corpo, acomodando a cabeça ela no seu ombro esquerdo, bem em cima do próprio coração. As batidas eram lentas, fortes e constantes, um ritmo que devia ser de um monstro, mas que contras leis da natureza e do bom senso, começou a acalmar o tremor dos ombros de Lyra. O comboio seguia na estrada escura, se afastando do sul que cheirava a fumaça e entrando nos pinheiros cobertos de gelo, subindo em direção as montanhas. Encolhida no colo do assassino do seu povo, cercada pelo cheiro de chuva e cedro e pela força possessiva que a matinha quieta, a loba traidora de Lyra adormeceu envolta pelo poder de seu parceiro. E pela primeira vez na sua vida miserável, a mente humana de Lyra Vance não soube como lutar. Ela estava indo para o covil do lobo de gelo e a pior parte era que ele nao a mataria. A pior parte era que ela tinha certeza absoluta que ele nunca a deixaria ir embora. O despertar do sono profundo para o despertar não foi suave. Não houve um despertar lento ou o conforto de lençóis conhecidos. O despertar de Lyra foi um golpe físico, começou com uma dor aguda na base do pescoço e a ausência repentina da vibração grave do motor de baixo dela. Antes de abrir os olhos, seus sentidos foram brutalmente invadidos. A primeira coisa que percebeu foi o calor. Um calor pesado, seco e febril que estava debaixo de sua bochecha. O travesseiro onde seu rosto estava não era macio, era duro, feito de músculos tensos que subiam e desciam em um ritmo calculado e lento. A segunda coisa que ela percebeu foi o cheiro. A fragrância invasiva de madeira de cedro antiga que vem antes de uma tempestade de raios estava tão entranhada em seu nariz que Lyra sentiu o gosto na sua língua, no céu de sua boca com uma familiaridade que a deixou apavorada. A memória da noite anterior desabou sobre ela como blocos de concreto. O fogo. Os gritos de sua matilha sendo massacrada. O porão escuro. Os olhos cor de âmbar do alfa supremo procurando-a no escuro. Ela se engasgou e seus olhos se arregalaram. A escuridão do SUV blindado foi substituída pela luz do amanhecer que estava cinzenta e anêmica. Lyra tentou se afastar, bruscamente e movida pelo instinto do pânico que está sentindo. Ela colocou as mãos no peito largo de Kaelen Blackwood e empurrou seu corpo para trás. A tentativa foi inútil. O braço do alfa, que estava na sua cintura durante a viagem, se apertou como uma barra de ferro no momento em que ela flexionou os músculos. Ele não deixou ela se mover mais do que alguns centímetros, apenas o suficiente para erguer o rosto e olhar para ele. Kaelen já estava acordado. Na verdade, pela forma em que ele estava paralisado e pela certeza em seus olhos, Lyra duvidou que ele tinha fechado os olhos por um único segundo durante a viagem para o norte. O preto nos seus olhos tinha diminuído, restando apenas o branco ao redor da íris, mas a cor continuava sendo dourada, e selvagem focada apenas nela. Ele a observava com a mesma expressão neutra e calma. Não tinha empatia. Apenas posse. - Onde...- a voz de Lyra falhou, a garganta seca ardendo com o esforço. Ela engoliu em seco, o gosto da fumaça da noite anterior ainda lá. - Onde estamos? -Em casa, - Kaelen respondeu. A voz dele era baixa e rouca que desceu pela espinha de Lyra, um calor inapropriado para o seu baixo-ventre. A porta do lado de Kaelen foi aberta. O ar que invadiu o interior do carro era frio. A temperatura estava muito abaixo de zero, e o vento forte do norte parecia agulhas de gelo que foram diretamente para a pele exposta de Lyra, seus braços e seu rosto. Ela estremeceu violentamente, os dentes batendo um no outro. O suéter fino e desgastado que usava, ideal para o clima quente do sul do seu antigo território, era inútil aqui. Ao sentir o tremor do corpo dela no seu, as sobrancelha escuras de Kaelen se juntaram em um vinco. O maxilar dele travou. Com um movimento ágil para o espaço apertado do carro, ele pegou a jaqueta grossa que estava jogada no banco da frente e jogou sobre os ombros de Lyra, quase a cobrindo inteira com o tecido pesado de lã escura.
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