A jaqueta pesada quase a afundou no banco, o cheiro era completamente dele, e o instinto traidor da sua loba ronronou ao gesto de calor e proteção do parceiro. Lyra odiou a si mesma por puxar a jaqueta para mais perto do pescoço, contrariando a necessidade básica de sobrevivência em vez de jogar a jaqueta na cara dele.
Kaelen saiu do carro primeiro. As botas pesadas dele esmagando a neve grossa no chão. O frio parecia não o afetar, apesar da camisa rasgada deixar o os braços e seu peito exposto. A biologia de um alfa supremo, especialmente a de uma linhagem do norte, era parecida com uma fornalha interna.
Ele se virou, preenchendo o espaço da porta do carro com seu tamanho, e estendeu as mãos para dentro.
Lyra recuou para dentro do carro, até suas costas estrem na porta oposto à dele, que ainda estava trancada.
-Eu posso andar, - ela mentiu. Suas pernas pareciam gelatina. Seu estômago estava embrulhado pela falta de comida e pela adrenalina das últimas horas. Ele sequer tinha sapatos adequados, estava só de meia, tinha perdido suas botas na correria anterior.
Kaelen não discutiu. Ele apenas adentrou o carro, ignorando o espaço pessoal dela, e agarrou-a pelos tornozelos. Com um puxão firme que fez ela arfar de susto, a deslizando pelo banco até a beirada. Antes que Lyra pudesse protestar, ele ja estava com os braços ao redor dela de novo, a levantando no ar e a colocando no peito como se ela pesasse como uma criança.
-Você não vai pisar no gelo descalça, - ele disse contra o cabelo dela.
Lyra virou o rosto para longe do pescoço dele, se recusando a sentir mais do seu cheiro, e olhou para fora pela primeira vez.
O ar sumiu dos seus pulmões.
O território da matilha lua de prata era composto por chalés rústicos juntos em vales verdes. O quartel-general da matilha eclipse de sangue não era uma vila, estava mais para uma fortaleza encostada em uma enorme rocha n***a de uma montanha enorme. As muralhas eram feitas de blocos de granito escuro, com torres de vigia que se erguiam pontudas. As janelas eram de vidro e à prova de balas, refletindo a imagem dos pinheiros mortos que os cercava. A arquitetura era brutal, fria e impenetrável. Parecia o covil de um vilão de histórias antigas, um lugar em que o sol se escondia.
O pátio do lado de dentro, tinha o tamanho de dois campos de futebol, estava revestido de pedras escuras. Dezenas de guerreiros, homens e mulheres todos marcados por cicatrizes e gigantes, estavam alinhados em fileiras.
No momento em que Kaelen pisou no pátio, a visão foi de centenas de lobos abaixando a cabeça ao mesmo tempo, o que arrepiou a espinha de Lyra e não tinha a ver com o frio abaixo de zero. Era uma exibição de lealdade e medo tão grande que o ar estava pesado, era difícil até para respirar. O silêncio era absoluto. Ninguém se atrevia a olhar para cima. Ninguém se atrevia a olhar o prêmio que o alfa supremo carregava em seus braços.
Lyra escondeu o rosto na curva da jaqueta dele. Ela se sentiu exposta, pequena e estava ciente de que naquele monte de assassinos ela era a mais fraca.
Kaelen caminhou pelo pátio com passadas longas. Ele não cumprimentou ninguém. Ele não ligou para as reverências. Ele só estava focado em um objetivo.
Eles passaram pelas portas duplas de carvalho e aço n***o que foram abertas por guardas. Dentro da fortaleza era tão opressivo quanto o exterior, mas o luxo era incrível. O piso de chique e aquecido de baixo para cima, com um calor agradável. As paredes de pedra estava cobertas com tapetes escuros e antigos, além do cheiro fraco de lenha queimando.
Era o covil de um rei guerreiro, rico até demais, construído sobre ossos das matilhas conquistadas. A culpa revirou o estômago de Lyra.
Ele não parou no saguão principal. Não virou nos corredores que abrigavam as salas administrativas ou os alojamentos da matilha. Ele caminhou em direção a uma grande escada de mármore n***o que ia até os andares de cima, área que parecia ser restrita pela aura territorial que emanava no ar cada vez que subiam mais.
A loba de Lyra gemeu em reconhecimento e agrado. Aquele era o centro do território. O ninho do alfa.
O pânico que estava adormecido pela exaustão e pelo choque do frio, começou a surgir novamente, passando devagar pela garganta dela. Ela começou a se contorcer nos braços dele.
-Me põe no chão. - Sua voz era fina, começando a ficar histérica. Ela empurrou o ombro dele. - Eu não sei para onde você tá me levando, mas pode parar. Me põe no chão agora!
Os braços de Kaelen se fecharam com mais força, ignorando as tentativas inúteis dela de sair. Os músculos naquela camisa rasgada pareciam pedras.
-Fique quieta Lyra! - Ele ordenou, a voz bem mais calma que a agressiva da noite anterior, substituída por uma paciência que assustava mais ainda.
Eles chegaram no último andar. Um corredor largo e iluminado pela luz fria que entrava das janelas que iam do chão ao teto na parede. No final do corredor, tinha portas duplas.
Kaelen chutou uma das portas para abrir e entrou.
O cômodo não era um quarto de hóspedes. O cheiro de Kaelen estava em todo o lugar, dominante que fez os olhos de Lyra lacrimejarem. Cheirava a ele em cada centímetro, cedro escuro, chuva fria e aquele poder absoluto de um supremo.
Era enorme, do tamanho da enfermaria inteira que Lyra gerenciava na lua de prata. Paredes de pedra escura e uma lareira imensa onde o fogo queimava, com brasas grossas. As janelas tinham uma visão das montanhas afiadas de neve. Mas o que prendeu o olhar assustado dela foi a cama. Enorme, com pilares de madeira escura e coberta com peles grossas e edredons pretos, bem no centro do quarto.
Kaelen finalmente parou. Ele afrouxou o aperto, permitindo que as pernas dela deslizassem pelo seu corpo até que tocassem o tapete grosso e quente que tinha no chão.
Assim que se endireitou, Lyra recuou tropeçando, o instinto de fuga gritou mais alto que a razão. Ela esbarrou na borda de uma poltrona de couro que tinha ali, agarrou o encosto até que os dedos ficassem brancos com tanta força que ela segurava, a jaqueta do alfa caiu dos seus ombros até o chão.
Ela estava ofegante, o peito subindo e descendo. O ar quente do quarto fazei ela suar. Seu cabelo platinado, normalmente feito tranças e arrumados, estavam aparecendo um ninho de passarinho. Ela sabia que estava parecendo um animal encurralado.
Kaelen parecia uma estátua sombria no meio do quarto. Ele não se moveu na direção dela. Ele só ficou parado, a poucos metros de distância, as mãos ao lado corpo, observando ela ofegante com aqueles olhos dourados, possessivos. A calmaria antes do abate.
O silencio se estendeu até ser cortado. A tensão no quarto era fina o suficiente para ser cortada com a adaga de prata que ela tinha perdido ontem à noite.
-Por que eu estou aqui? - A voz dela saiu baixa e rouca, mas era como se fosse alta diante da quietude daquele quarto imenso. O medo a forçava a tentar ter alguma lógica em meio a loucura. - Eu não sou uma guerreira. Eu não tenho conexões políticas. Eu... Eu sou só uma curandeira de patente inferior. Thorne não vai pagar resgate por mim, mesmo que você não tenha matado ele. Eu não valho nada.
A mandíbula de Kaelen estalou. O som foi perigoso. O peito largo dele aumentou enquanto ele respirava lentamente, puxando oxigênio que de repente pareceu faltar para Lyra.
Ele caminhou na direção dela. De forma lenta, calculada para não causar um ataque de pânico, mas ainda assim tinha uma pressão a sombra de um poder de um predador.
Lyra tentou recuar, mas suas costas bateram na parede do lado da janela. Ela estava encurralada.
Kaelen não parou até que estivesse bem perto. Ele era tão alto que Lyra precisava inclinar a cabeça para trás para mater o contato visual, se recusando a abaixar o olhar e expor o pescoço em submissão.
Ele levantou uma mão grande. Lyra fechou os olhos com força, em preparação, à espera de um golpe. A humilhação da situação, estar encolhida diante dele queimou em sua pele como um ácido.
Mas o golpe não veio.
Em vez disso, ela sentiu a textura áspera dos dedos de Kaelen na lateral da sua bochecha suja de fuligem. O toque era o contrário do que ele era, de tão delicado, o que a fez sentir um arrepio na espinha. O calor que irradiava da pele dele queimou diante do ar gelado entre eles.
Ela abriu os olhos rapidamente. O rosto dele estava tão perto que ela podia ver um risco prateado em volta da íris dourada, a prova de que seu lobo estava bem próximo da borda. A respiração dele bateu no rosto dela, se misturando com o oxigênio escasso de Lyra.
-Você acha que eu estou interessado em política ou resgates vindos de homens mortos? - A voz dele apenas como um zumbido baixo e poderoso.
O polegar de Kaelen passou pelo lábio inferior de Lyra que estava tremendo. O atrito da pele áspera dele e a carne macia da boca dela foi elétrico. A loba de Lyra uivou em sua mente, exigindo que ela desse o braço a torcer, que abrisse os lábios que tocasse com a língua aqueles dedos. A batalha interna entre as duas fez ela machucar a palma da própria mão com as unhas para manter o controle.
-Você não tem ideia do que você é, não é? - Kaelen murmurou, a obsessão rasgando na sua voz contida, revelando a fome brutal que estava tentando segurar. O olhar dele foi dos olhos violetas dela em choque para a veia que pulsava no seu pescoço. Onde deveria ter a marca de um alfa, decretando um vínculo para a eternidade.
Ele inclinou o rosto, o nariz passando pela sua mandíbula, farejando o pulso acelerado.
-Eu destruí o seu mundo inteiro ontem à noite, Lyra, - Ele sussurrou contra o pescoço dela, o hálito quente a fez arrepiar todos os pelos do corpo – E eu faria de novo e de novo, mil vezes, para arrancar você daquele lugar inútil e colocá-la exatamente onde você pertence.