Capítulo 5

1764 Words
Ele recuou, o suficiente para que ela pudesse processas as palavras, olhos brilhando como moedas de ouro. -Este é o seu quarto agora, - ele disse, a voz transmitindo autoridade fria e irrefutável. - Esta é a sua matilha agora. E você é minha. A partir de hoje, a única coisa que você tem que se preocupar em curar... é o limite da minha paciência se você tentar fugir de mim. A declaração não foi um pedido romântico. Pareceu a porta de uma cela se fechando, o som metálico ecoando no destino do qual Lyra Vance, mesmo com sua teimosia, não conseguiria escapar. Ela estava no domínio do lobo de gelo, e a caçada tinha apenas começado. O ar parecia vidro quebrado nos pulmões de Lyra. Cada respiração rasgava sua garganta, e ela continuava encostada entre a parede e o calor do peito de Kaelen. Os olhos dourados do alfa supremo dissecavam ela, observando cada pequeno tremor de seu corpo, saboreando o conflito entre o terror dela e a submissão chorosa de sua loba. Então, com a mesma rapidez que invadiu o espaço dela, Kaelen recuou. A perda de repente daquele calor a atingiu como um golpe físico. Lyra tropeçou um pouco para a frente, os joelhos ameaçando falhar, mas ela apertou as unhas nas palmas das mãos para ficar em pé. O peito largo de Kaelen subiu em uma profunda respiração, os olhos dele piscando enquanto o dourado predatório se acalmava, no lugar apareceu um castanho muito escuro quase preto. A expressão do líder implacável voltou ao seu rosto. O monstro recuou, e no lugar ficou o general que tinha acabado de vencer uma guerra. -Eu tenho relátorios para ouvir. O sangue da sua antiga matilha manchou meu território até a fronteira, e meus guerreiros precisam de ordens, - ele disse, na voz dele não tinha aquela obssessão de antes, só estava fria. Ele virou as costas para ela, e caminhou até a porta. Antes de a abrir, ele parou e olhou para ela de novo. O olhar foi até o suéter imundo de Lyra, as meias sujas, e desgosto marcou seu rosto. -Tem um banheiro ali,- ele apontou com o queixo para uma porta de vidro fosco no canto do quarto. - Tome banho. Tire o cheiro de cinza e do sangue daqueles homens. Eu não quero nada que lembre a lua de prata em você quando eu voltar. Ele não esperou por resposta. A porta se abriu e fechou com um estrondo baixo. Segundos depois, o som nitido de uma trava de metal deslizando foi ouvida pelo quarto. Ele tinha trancado ela. O som do ferrolho foi um gatilho. A pouca sanidade que ainda restava em Lyra nas últimas doze horas acabou. Aquela adrenalina que ainda tinha também sumiu de uma vez, deixando para trás apenas um doloroso cansaço. As pernas dela cederam. Ela deslizou nas pedras da parede até que caisse de joelho no tapete. Ela abraçou o próprio corpo, enterrando o rosto nos braços cruzados sobre os joelhos, e se permitiu finalmente chorar. Era patético e quebrado. Ela chorou pelos rostos que viu na neve, por sua pequena clínicae por aquela maldita loba que no fundo de sua mente estava choramingando pela ausência do assassino que a tinha deixado ali. Ela ficou no chão até que o frio começasse a ficar insuportável, se lembrando que chorar não ia mudar a temperatura abaixo de zero do norte. O banheiro não era qualquer um, parecia um santuário de pedra vulcânica e vidro temperado, maior que a cabana que ela viveu a vida inteira. No centro, uma banheira cavada na própria rocha dominava o espaço, mas foi o boxe de vidro sem porta com múltiplos chuveiros que atraiu Lyra. Com os dedos dormentes e sem coordenação ela tirou o suéter rasgado do copo. Ela o deixou cair no chão, depois sua calça jeans surrada e as meias sujas. Ficar nua naquele lugar a fez cruzar os braços sobre os s***s, um instinto de proteção i****a quando não tinha ninguém ali para ver ela. A imagem dela mesma no imenso espelho a deixou enjoada, pálida como um morto, coberta de fuligem, os cabelos loiros prateados grudados no pescoço embaraçados e com manchas de sangue seco que nem sequer era dela espalhadas na clavícula. Ela caminhou para dentro do boxe e girou os registros de metal fosco. A água não caiu, ela despencou igual uma cachoeira. Estava quase fervendo. Quando aquela água chegou na pele gelada de Lyra, ela soltou um grito, os músculos se retorcendo com o choque térmico. O contraste era doloroso, quase como uma queimadura, mas Lyra aguentou. Ela se forçou a ficar debaixo daquele monte de água, fechando os olhos enquanto o calor violento começava, pouco a a pouco, derreter a tensão entre seus músculos. A água escorria pelo seu corpo, pesada e purificadora. Quando Lyra abriu os olhos e olhou para baixo, o estômago revirou. A água que escorria era marrom, cinza, e em alguns momentos era rosada. As cinzas de sua casa. O sangue de seu antigo alfa. Os retos de uma vida que Kaelen Blackwood havia tirado sem piscar, tudo desaparecendo pelo ralo. A repulsa a fez esfregar a própria pele com as mãos com tanta força que vergões vermelhos começaram a aparecer. Ela queria arrancar a sujeira, queria arrancar a sensação dos dedos imensos de Kaelen que parecia ter ficado impresso nos seus quadris e nuca. Tinha espaços escupidos na pedra cheio de frascos escuros. Ela pegou o primeiro sabonete líquido que encontrou. Ao derramar na mão, o cheiro invadiu o vapor quente do banheiro, prendendo a respiração dela na garganta. Cedro. Chuva. Ozônio e madeira antiga. Era o cheiro dele. Puro, concentrado, sem a interferência do sangue ou da acidez do suor da batalha. O ódio tomou conta dela, ela sentiu vontade de arremessar o frasco de vidro na parede. Mas o corpo dela estava exausto de mais para lutar, e sua loba... a sua loba ronronou, um som profundo e faminto na base da nuca de Lyra. Usar o sabonete dele era um ato de submissão, uma aceitação de sua marca. Com um rosnado de pura frustração dirigida a ela mesma, Lyra ensaboou seu corpo, fechando os olhos enquanto a espuma limpava toda a sujeira e impregnava sua pele com a essência do rei alfa. A dúvida interna a enlouquecia. Ela repudiava o luxo exagerado daquele banheiro, odiava a riqueza construída brutalmente, mas seu corpo miserável e desnutrido gemia de alívio e conforto com a água quente e o calor relaxante. Ela era uma traidora. Meia hora se passou antes que sua pele ficasse enrugada e a exaustão a forçasse a desligar os registros. Ela colocou uma toalha felpuda e preta, grande o suficiente para a cobrir do peito até o tornozelo, e secou o cabelo platinado o melhor que pôde. O clique da porta se abrindo e passos fizeram seu sangue gelar. Lyra se encolher na parede do banheiro, segurando a toalha como um escudo. Devagar, ela espiou dentro do quarto. Não era Kaelen. Uma jovem fêmea estava no centro do tapete. Ela era pequena, os ombros curvados em uma postura de submissão absoluta que parecia enraizado em seus ossos. Usava roupas simples de algodão. Em suas mãos que estavam tremendo, ela equilibrava uma bandeja de prata fumaçando e no outro uma pilha de roupas dobradas. Quando Lyra deu um passo hesitante para fora do banheiro, a garota congelou. A reação não foi de curiosidade, mas de puro terror. Ela soltou um som de susto e na mesma hora baixou a cabeça, os olhos nos próprios pés, inclinando o pescoço para expor a jugular. -Perdoe a intrusão senhora, - a garota gaguejou, a voz era um sussurro assustado. O barulho das xícaras de porcelana batendo na bandeja entregava o tremor de suas mãos. - O alfa supremo exigiu que a senhora fosse alimentada e vestida imediatamente. Lyra franziu o cenho, a confusão junto a desconfiança. Senhora? -Você não precisa fazer isso, - Lyra disse, a voz saindo rouca pelo choro recente. Ela deu um passo à frente. - Pode levantar a cabeça. Eu sou apenas uma curandeira. Sou uma prisioneira dele, assim como... A garota deu dois passos para trás assustada, quase derrubando a bandeja. Ela negava furiosamente com a cabeça, ainda sem olhar para ela. - Não, não, senhora, por favor, não se aproxime. O seu cheiro... - a garota engoliu em seco, respirando rápido. - O alfa a marcou. A senhora cheiro a ele. Cheira a morte para qualquer um que ousar desrespeitá-la. Ele arrancaria minha cabeça se eu a olhasse nos olhos. A senhora é a companheira dele. A intocável. As palavras caíram em cima de Lyra como se fossem pedras de gelo. A serva não via ela como uma cativa patética arrastada para o norte, ela via ela como um troféu vivo do ser mais letal do continente. O cheiro de Kaelen nela, agora mais forte pelo sabonete, era um aviso gritante para toda a matilha: Minha. Fiquem longe. A ômega colocou a bandeja na mesa, as roupas na poltrona apressada e fugiu do quarto como se estivesse na mesma jaula que um demônio com fome, trancando a porta. Sozinha de novo, o cheiro vindo da bandeja de prata finalmente atingiu o cérebro de Lyra. Carne assada, pão quente e manteiga, sopa de raízes. O estomago de Lyra roncou muito alto que chegou a doer, a lembrando que ela não comia há praticamente vinte e quatro horas. Mas antes da comida, as roupas. Ela largou a toalha e caminhou até a poltrona. As roupas pareciam ter saído do guarda-roupa de Kaelen, mas menor para o tamanho dela. Tinha uma legging térmica grossa e macia, que se parecia como uma segunda pele, e um suéter de lã tricotado cinza escuro, felpudo e grande. Quando ela vestiu o suéter foi até o meio das suas coxas, as mangas escondendo suas mãos. Era ridículo, mas era a coisa mais quente e luxuosa que Lyra já tinha vestido na vida. E as roupas serviam perfeitamente. O nível de obsessão para ele saber as medidas dela antes mesmo dela ser trazida para o norte a enjoou, a fome quase que desapareceu. Ela se sentou na poltrona, puxando a bandeja para o colo. Ela pegou um pedaço de pão quente, os dedos tremendo. Só o cheiro a fez fechar os olhos de alívio. Ela abriu a boca para dar a primeira mordida. O som do ferrolho destrancando foi ouvido. Lyra congelou com o pão próximo aos lábios. A porta se abriu devagar. Kaelen Blackwood entrou.
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