Capítulo 05

1139 Words
Duda narrando Eu não posso negar que a Cleo e a Helena me acolheram de uma forma única. Elas sabiam que eu não estava legal, mas mesmo assim tentaram me distrair, tentaram me divertir, de alguma forma, elas queriam me fazer sentir pertencente aquela família, aquele lugar, e mesmo com toda dor, com todo cansaço, eu me sentia… Eu via a emoção, o cuidado e o carinho da Cléo ao me olhar, ao falar comigo, da mesma forma que eu sentia a implicância e o caos que é a Helena… Mas, de alguma forma, eu sentia aqueles olhos negros marcantes me buscando, e eu evitava olhar na direção de onde vinha aquele calor, porque sinceramente, só podia ser o cansaço falando por mim, porque não tem lógica, eu m*l cheguei, o cara é dono do morro, um filho pro meu pai, eu não posso deixar tudo revirar dentro de mim — gente, muito obrigada por tudo, mas eu realmente preciso descansar…— eu falo com a Cléo e a Helena me despedindo delas Elas ainda tentam me convencer mais uma vez, mesmo sabendo da minha resposta, a ir no pagode mais tarde, mas hoje era sem chances. Quando eu passei me despedindo do meu pai, daquele homem que eu sonhei tanto em conhecer, e nos parecíamos já família há anos, só pela forma como ele me fazia sentir acolhida e amada, já me dava um pouco de paz. Mas ainda assim, agora ainda mais perto, aqueles olhos dele pareciam penetrar a minha alma, eu realmente evitava olhar na sua direção, eu realmente fugia dos seus olhos, mas eu sentia cada pedacinho do meu corpo pegando fogo com as suas encaradas. Eu subi o mais rápido que consegui e fui direto pro quarto me jogando direto na cama depois de trancar a porta. Eu queria tomar banho, respirar, mas eu não conseguia fazer nada, eu só me joguei ali e deixei todo o peso do meu corpo e desse dia tão cansativo e estressante cair sobre aquele colchão. A perda da minha mãe ainda estava doendo muito. Foi tudo tão rápido que eu juro que tem hora que nem mesmo eu entendo como tudo aquilo aconteceu. Ela não estava doente, ela tinha passado o final de semana fora, viajando a trabalho, e quando voltou, ela voltou com muita dor de estômago, foi o tempo de corrermos pro hospital mas não deu tempo de salvarem ela. Isso tudo pra mim parecia muito confuso, era muito pesado, porque por mais que eu e ela tivéssemos muita divergência eu só tinha ela. Ela nunca foi a mãe mais amorosa ou super presente, ou nem um pouco como as mães das minhas colegas da escola, mas era a minha mãe. E era justamente isso que estava mexendo tanto comigo. Agora eu preciso arrumar um emprego, talvez largar a faculdade, e ver o que vou fazer do meu futuro, porque apesar de eu ter amado a Cléo e o meu pai, eu não quero nunca ficar nas costas deles, eu preciso colocar a mente no lugar. Eu levantei da cama, me forcei a pegar uma roupa na mochila, e vi o celular da minha mãe lá dentro, estava descarregado então eu coloquei pra carregar e fui tomar um banho, tirar o peso do dia da mente. Assim que entrei no banho e comecei a lavar meu cabelo eu lembrei do toque do Don na minha perna, sua mão quente, forte, áspera, me causando arrepios no mesmo instante mais uma vez. Eu espero sinceramente que ele não more aqui, ou que se morar eu consiga um emprego rápido pra não ter que conviver com ele todos os dias. Isso seria estranho, como meu pai disse, somos irmãos, parece que meu pai cria ele desde sempre, e eu não quero causar um transtorno na família, e eu também, bom… eu nunca tive nada com homem algum, agora imagina criar sentimentos por um que eu deveria ver como irmão ? Não dá, definitivamente sem chances… Terminei de tomar meu banho, troquei de roupa colocando um short que a Cléo tinha comprado desses de lycra e uma camisa confortável mais soltinha que tinha ali, sem sutiã mesmo, agora eu precisava ficar um pouco confortável. Penteei meu cabelo molhado, tirei o excesso de umidade com a toalha, e me joguei na cama relaxando completamente e logo em seguida apagando. Acordei perdida, não sabia onde eu estava e eu despertei no pulo depois de ter um pesadelo terrível. Essas lembranças parecem que nunca vão me deixar pra trás. Parece que eu nunca vou conseguir seguir a minha vida sem essa sombra, essa mancha, esse momento horrível que eu passei a anos atrás, mas que vira e mexe ele vem a tona na minha memória me tirando o sono — que inferno, por que eu lembrei disso agora…? — eu soco a cama sentindo o choro entalar na garganta na hora Conviver com a minha mãe nunca foi fácil, e ela sempre me jogava na cara que era ela quem mandava ali, que era ela quem fazia de tudo por mim, e que eu deveria sempre obedecer a ela em tudo. E a única vez, um único momento que eu me revelei, que eu gritei e me impus ela me tirou de errada e falou que eu estava ficando louca, dali pra frente eu nunca mais fui a mesma, até que aquela pessoa sumiu e eu nunca mais tive notícias, achei que teria paz, só que aí começaram os pesadelos, as crises de pânico, e o medo toda vez que eu ouvia um carro parando na porta de casa pra deixar a minha mãe. Eu levantei sentindo a minha garganta seca, sai do quarto vendo a casa toda escura, um silêncio, só o barulho do lado de fora e algum pagode altíssimo tocando. Olhei no relógio que tinha no microondas e já marcavam 3h da madrugada, bem a hora da assombração mesmo… cocei os olhos e parei de frente ao filtro enchendo o copo com água quando ouvi o barulho na porta e antes mesmo de virar eu senti aquele mesmo cheiro que fazia o meu corpo entrar em alerta e a minha pele começar a ferver — perdeu o sono maninha ? — eu logo sinto sua presença atrás de mim e sua voz rouca no meu ouvido Me viro rápido de frente pra ele engolindo seco e ele toma o copo de água da minha mão bebendo a água fazendo eu reparar no seu peitoral marcado com vários arranhões e lotado de tatuagem fazendo eu perder o foco na hora — tudo bem ? — ele pergunta se inclinando na direção e colocando o copo na bancada, e volta deslizando sua mão pela minha cintura fazendo eu recuar no mesmo instante que sinto sua palma tocando a minha minha pele…
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