O Olhar que Mudou Tudo

1218 Words
Claire se movia pela festa com passos rápidos e atentos, equilibrando com perfeição a bandeja de taças de champanhe em uma das mãos. Tentava ignorar os olhares insistentes e os comentários disfarçados de elogios que vinham do grupo de homens à sua frente. Eram senhores mais velhos, todos impecavelmente vestidos, com taças nas mãos e sorrisos que ela não sabia distinguir se eram genuínos ou apenas máscaras habilmente colocadas pelo interesse. Alguns flertavam descaradamente, enquanto outros a observavam como quem avalia um objeto em uma vitrine. Claire sentia o peso de cada olhar, mesmo que tentasse não demonstrar. O desconforto dentro dela era camuflado por sorrisos breves e passos apressados. Suas mãos suavam contra a bandeja reluzente e fria, e o corpo estava mais tenso do que gostaria de admitir. Cada músculo parecia estar em alerta, como se lutasse para manter o controle sobre algo que escapava lentamente. Terminou de servir o grupo, esforçando-se para manter o sorriso profissional colado no rosto. Os homens continuavam a conversar, trocando olhares cúmplices entre si, tentando puxar assunto com ela. Mas Claire manteve o foco no trabalho, respondendo apenas o necessário, sem dar margem para conversas prolongadas. Não era o que queria, mas estava ali por um motivo: o dinheiro. Cada taça servida, cada sorriso forçado, representava mais um passo rumo ao tratamento da mãe. Isso, no entanto, não tornava a situação menos desconfortável. Aquela festa luxuosa parecia pertencer a um mundo distante do seu, onde as pessoas viviam cercadas de privilégios que ela m*l podia imaginar. O contraste entre o glamour do ambiente e a realidade que enfrentava diariamente pesava sobre seus ombros como uma carga invisível. Assim que se afastou do grupo, Claire soltou o ar que não percebera estar prendendo, um suspiro rouco que queimou sua garganta como o champanhe barato que serviam nos bastidores. Mas o alívio foi efêmero - dura menos que as bolhas numa taça recém-servida. Seus passos apressados foram interrompidos por uma voz que cortou o burburinho do salão como uma faca quente na manteiga - grave, controlada, e carregada de uma autoridade que não pedia, mas exigia atenção: — Uma taça de champanhe, por favor. Claire congelou no meio do movimento, seu corpo reagindo antes da mente. Ao se virar, o salão girou com ela num redemoinho de luzes e silhuetas borradas, até seu olhar colidir com o dele. O homem era uma silhueta cortada em granito - ombros largos demais para parecer civilizado, postura ereta como se tivesse engolido uma espada. Seu terno escuro parecia pintado sobre a pele, o tecido de lã moldando cada músculo sem esforço. Até as dobras do material caíam com perfeição geométrica, como se desafiasse as leis da física. Mas eram os olhos que a prenderam - azuis como o céu antes de uma tempestade, intensos o suficiente para doer. Eles a encaravam com a concentração de um predador avaliando sua caça, ou talvez de um ourives examinando uma joia rara. O resto do salão desfocou, os sons abafaram-se como se alguém tivesse puxado um plugue no mundo. Claire sentiu o arrepio antes de percebê-lo - uma linha de fogo gelado descendo sua coluna vertebral, fazendo cada pelo em seus braços se erguer. Havia uma eletricidade ao redor dele. Sua presença não ocupava espaço - redefinia-o, distorcendo a gravidade do ambiente para orbitar ao seu redor. Seus dedos se apertaram em torno da bandeja, as juntas brancas de tanto pressionar. Aquele rosto talhado em ângulos perfeitos ecoava em sua memória - a capa de uma Forbes esquecida na sala de espera? Uma aparição fugaz no jornal matinal durante o café da manhã no quarto de hospital onde a mãe estava? Quando seus olhos castanhos - geralmente tão focados, tão no controle - encontraram os dele, Claire teve a estranha sensação de estar caindo sem se mover. Era como olhar para um quebra-cabeça que sabia ser importante, mas cujas peças insistiam em escorregar entre seus dedos. O ar faltou em seus pulmões, e pela primeira vez naquela noite, seu sorriso treinado vacilou - não por cansaço, mas por algo mais primitivo, mais perigoso. A bandeja em suas mãos subitamente pesou como chumbo, cada taça de cristal tilintando numa risada muda. Em algum lugar distante, alguém derrubou um garfo, o som metálico ecoando como um sinal de alarme. Por outro lado, Saymon observava Claire com um interesse inesperado, os olhos fixos nos dela com uma intensidade que parecia atravessar suas defesas. Ele estava acostumado a controlar tudo ao seu redor, a ler as pessoas como páginas de um livro aberto. Mas algo na forma como ela reagia ao seu olhar despertava nele algo adormecido há muito tempo. Por um instante, esqueceu a festa, os negócios e tudo ao redor. Existia apenas aquele encontro. Mas o momento foi interrompido abruptamente. — Claire, preciso de você na mesa dez! A voz veio como um balde de água fria, trazendo-a de volta à realidade. Ela olhou rapidamente para a mesa distante e, com um sorriso forçado, afastou-se de Saymon. — Claro, senhor — disse, tentando controlar o desconforto que ainda a invadia. Com a bandeja novamente equilibrada, Claire se afastou, mas sentiu como se tivesse deixado algo para trás. Sentia o olhar de Saymon em sua nuca, como se ele a observasse enquanto se afastava. Não sabia o que era aquilo, mas havia uma inquietação dentro de si, um misto de curiosidade e confusão. Saymon, por sua vez, não conseguia desviar o olhar. Algo naquela mulher o intrigava profundamente. Ele, acostumado a estar no controle, sentia uma estranha agitação crescer dentro de si. Claire não era como as outras mulheres da festa. Não havia nela o interesse calculado ou os olhares aduladores que ele conhecia tão bem. Havia algo genuíno, uma ingenuidade contida, como se ela estivesse ali, mas não pertencesse àquele mundo. A troca de olhares foi intensa, mas Saymon sabia que não podia se perder naquele pensamento. Desviou os olhos para os outros convidados e começou a caminhar em direção ao bar, onde conversas e negócios o aguardavam. Claire atravessava o salão com o coração acelerado. Tentava se concentrar no trabalho, mas o pensamento voltava constantemente ao homem de olhos azuis. Sua presença a perturbava — não de forma negativa, mas intensa demais para ser ignorada. Quem era ele? E por que a olhava daquele jeito? Respirou fundo, decidida a manter o foco. Não era o momento para distrações. Sua mãe ainda precisava de tratamento. Nada, nem mesmo um homem como aquele, deveria desviá-la de seu objetivo. Mas algo dentro dela insistia em se agitar. Enquanto servia a próxima mesa, Saymon ainda rondava seus pensamentos. Seu olhar intenso, sua postura confiante, a maneira como parecia capaz de ver através dela… tudo isso ficou gravado em sua memória como uma marca indelével. E, no fundo, Claire sabia: sua vida acabara de mudar — só não sabia ainda como. Ela era uma nota dissonante naquela sinfonia de luxo — e talvez fosse justamente isso que a tornava impossível de ignorar. Em meio à opulência e às máscaras cuidadosamente construídas, Claire carregava consigo uma autenticidade rara, algo que Saymon não conseguia explicar, mas que sentia com clareza. E, enquanto os dois seguiam seus caminhos separados naquela noite, ambos sabiam que aquele breve encontro havia plantado uma semente que poderia florescer de maneiras inesperadas.
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