Minutos antes de Robert Lancaster entrar no escritório ….
“— Oi, padrinho. Agora não posso falar — disse Joaquim, apressado.
— Você recebeu o envelope? — perguntou Vitor do outro lado da linha.
Joaquim franziu o cenho, intrigado. — Como você sabe do envelope?
— Fui eu que pedi para entregar — respondeu Vitor com calma.
Joaquim endireitou-se na cadeira. — Como assim, Vitor? O que você tem a ver com isso?
— Recebi uma denuncia dos técnicos do laboratório. Eles me informaram que Robert estava adulterando os fármacos a mando de August Moretti. Pedi para que um deles fizesse os laudos técnicos detalhando todas as alterações — explicou Vitor.
— Então foi proposital? — perguntou Joaquim, indignado.
— Foi, sim. Mas, na conversa que você terá com Robert, continue agindo como se tudo não passasse de um descuido ou ganância isolada da parte dele.
Joaquim bufou. — Mas, padrinho, o que ganhamos com isso? Ele destruiu anos de pesquisa, perdemos milhões, além dos prazos e a credibilidade com nossos investidores.
— Por enquanto, sugiro que você diga que está disposto a perdoar a dívida, mas imponha uma condição: ele deve dar a mão da filha caçula, Paula Lancaster, em casamento para você.
Joaquim ficou boquiaberto. — Casamento? Padrinho, eu nem conheço essa jovem! E se eu não gostar dela? E se Robert não aceitar?
— Robert não terá escolha. Ele é uma peça menor nesse jogo, Joaquim. Você é persuasivo e sabe como conduzir as coisas. Ele vai ceder.
— Ainda não entendo o que ganhamos com isso. Paula Lancaster pode até ter boa posição social, mas está longe de ser uma aliança no nosso nível.
Vitor respondeu, enigmático: — Deixe isso comigo. Confie no seu padrinho.
Joaquim respirou fundo. — Tudo bem. Vou resolver.
— Cuide-se, Joaquim. A ligação foi encerrada.”
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Robert, quando chegou em casa, encontrou sua família reunida na sala de estar, rindo de algo que Angel, a filha mais velha, havia dito. O contraste entre a leveza do momento e o peso em seu coração quase o fez perder o controle.
— Preciso falar com vocês, — ele disse, a voz grave.
Mary, sua esposa, parou de rir imediatamente, percebendo o tom sério do marido. Angel e Paula trocaram olhares curiosos enquanto se acomodavam no sofá. Robert sentou-se numa poltrona, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos segurando a cabeça. Ele respirou fundo antes de começar.
— Eu cometi um erro, — ele disse, sem olhar para ninguém. — Tentei alterar a fórmula do fármaco em que estávamos trabalhando. Achei que poderia melhorar os resultados, mas tudo deu errado.
Paula, sempre a mais compassiva, inclinou-se para frente, preocupada.
— Mas, pai, o que isso significa?
— Significa que perdemos tudo. — Robert olhou para ela com tristeza. — A fórmula inteira foi comprometida, e todo o investimento foi por água abaixo. São mais de seis milhões de dólares.
A revelação caiu como uma bomba na sala. Mary levou as mãos à boca, os olhos arregalados de choque. Angel, por outro lado, cruzou os braços, uma expressão de puro desgosto no rosto.
— Como assim, ruína? — Angel exclamou, a voz carregada de indignação. — Onde nós vamos morar? O que meus amigos vão pensar de mim? Eu não vou para uma universidade pública!
Robert suspirou profundamente. Ele sabia que Angel, com sua personalidade fútil e egoísta, reagiria assim. Mary, embora mais reservada, parecia prestes a explodir de nervosismo.
Paula, porém, foi a única que tentou manter a calma. Ela colocou a mão no braço do pai, tentando confortá-lo.
— Talvez possamos pedir um empréstimo, ou hipotecar a casa. Deve haver alguma solução.
Robert balançou a cabeça lentamente.
— Não, filha. Nem mesmo isso seria suficiente. A dívida é grande demais.
Ele fez uma pausa longa antes de finalmente dizer o que realmente precisava ser dito. Com a cabeça baixa, quase num sussurro, ele confessou:
— Joaquim ofereceu uma saída. Disse que perdoaria a dívida, mas com uma condição: que você se casasse com ele.
O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor. Paula ficou paralisada, tentando absorver as palavras. Mary começou a andar de um lado para o outro, murmurando para si mesma, enquanto Angel apenas balançava a cabeça em desaprovação.
— Você não pode estar falando sério, — Paula finalmente disse, a voz trêmula.
Robert olhou para a filha, com os olhos cheios de culpa.
— Eu não sei mais o que fazer. É a única maneira de evitar a ruína.
Mary parou de andar e virou-se para o marido, os olhos faiscando.
— Você está sugerindo entregar nossa filha como se fosse um bem negociável? Isso é… isso é absurdo, Robert!
— Eu sei que parece loucura, mas não temos outra escolha, — ele respondeu, quase implorando.
Angel, que até então permanecera em silêncio, falou com frieza:
— E se ele não cumprir o acordo? Como sabemos que Joaquim não vai simplesmente nos deixar na mão depois de conseguir o que quer?
— Ele precisa cumprir, — Robert disse, embora sua voz não transmitisse confiança.
Paula sentiu-se encurralada. A ideia de casar-se com um homem que m*l conhecia, ainda mais alguém com a reputação de Joaquim, parecia absurda. Mas ao mesmo tempo, a pressão para salvar sua família pesava sobre seus ombros como uma corrente impossível de quebrar.
Mary, que estava junto à janela, virou-se para a filha, com lágrimas nos olhos.
— Paula, querida, isso tem que ser sua decisão. Não podemos forçá-la.
Todos os olhos estavam fixos em Paula, que sentiu o peso do mundo sobre ela. Sua mente estava um caos, cheia de perguntas e dúvidas. Ela queria gritar, protestar, dizer que jamais faria isso. Mas então olhou para o pai, que parecia quebrado, e para sua mãe e irmã, que dependiam tanto dele.
— Eu… — ela começou, a voz trêmula. — Eu não sei.