Ponto de Vista: Tasha
Aquele silêncio no rádio me cortou mais do que qualquer lâmina.
O meu pai não perguntou como eu estava. Não quis saber se eu estava machucada, se precisava de água ou se estava bem. A única preocupação dele foi rosnar ameaças para proteger a própria pele. A verdade doía como um soco no estômago, mas a frieza do Fernando me atingia de um jeito ainda pior.
Ele continuava ali, parado na minha frente, a poucos centímetros de mim. O corpo forte, coberto de tatuagens, exalava um calor que parecia dominar o quarto todo. Os olhos escuros dele me devoravam, compenetrados, como se ele quisesse ver o exato momento em que o meu mundo desmoronava por completo.
— Ele não perguntou de você... — falei, a voz quase sumindo, numa mistura de raiva e desilusão.
— Eu te avisei, Tasha — a voz dele veio baixa, arrastada, cheia de uma autoridade que me dava arrepios. — Tu foi criada numa bolha de vidro. Achava que o teu coroa era um santo só porque ele te dava tudo do bom e do melhor. Mas a verdade é que tu sempre foi só uma fachada bonita pra esconder a sujeira dele.
— E você é o quê? — dei um passo na direção dele, encurtando a distância, recusando-me a me entregar à fraqueza. — Um justiceiro? Você se acha melhor do que ele só porque não usa farda? Você é um criminoso, Fernando!
A reação dele foi imediata.
Com um movimento rápido e preciso, ele segurou a minha cintura e me prensou contra a parede de tijolos do quarto. O impacto nem doeu, mas o choque de ter o corpo dele colado ao meu fez o meu fôlego trancar na hora. Sentia a respiração quente dele contra o meu pescoço, o cheiro de perfume forte misturado com tabaco invadindo os meus sentidos.
— Meu nome é Terror, p***a — ele rosnou no meu ouvido, a voz rouca e perigosa. — E eu nunca disse que era santo. A diferença entre eu e o teu pai é que eu não me escondo atrás de um distintivo pra ser monstro. Eu sou a cara do que o teu pai criou quando me jogou naquela cela há dez anos.
Tentei empurrar o peito dele, mas era como tentar mover uma rocha. A minha mão ficou presa contra o tecido fino da regata dele, sentindo o coração dele bater num ritmo acelerado, desmentindo a postura fria de sempre.
— Me solta... — murmurei, mas o meu próprio corpo traía as minhas palavras. O meu coração parecia que ia pular pela boca, não só de medo, mas de algo novo, quente e perturbador que queimava no meu baixo ventre.
— Não solto — ele disse, levantando a mão livre e segurando o meu queixo com firmeza, me obrigando a olhar no fundo dos olhos dele. — Tu tá no meu território agora, patricinha. Tu é minha refém, minha moeda de troca... e a única pessoa nesse mundo que tem a audácia de encarar o Terror sem tremer na base.
O olhar dele desceu devagar para a minha boca. Por um segundo — um segundo eterno —, a frieza cirúrgica dele deu lugar a um brilho faminto, obscuro, absolutamente obcecado. A tensão entre nós dois era tanto que o ar parecia faiscar.
Antes que qualquer um de nós desse um passo além da conta, o rádio na cintura dele estalou bem alto, quebrando o transe:
— CHEFE! VISÃO! O COROA PERDEU O JUÍZO! ELE MANDOU A MILÍCIA INVADIR O BECO DO FOGO! TÁ TENDO TIROTEIO, CHEFE! ELES VIERAM PRA QUEIMAR TUDO!
O Terror soltou o meu queixo, mas não se afastou de imediato. A expressão dele fechou na hora, o olhar ficando sombrio como a noite.
— Querem guerra? — ele murmurou pra mim, um sorriso diabólico nascendo no canto dos lábios. — Então vão ter.
Ele deu um passo para trás, puxou uma pistola preta que estava presa no cós da calça e destravou a arma num estalo seco que ecoou pelo quarto.
— Fica aí quietinha. Se tentar dar uma de esperta e sair desse quarto, os meus cria não vão perguntar quem tu é antes de atirar — avisou ele, ajeitando a arma na mão. — Eu vou lá embaixo resolver o teu pai.
Ele caminhou até a porta de ferro, parou por um segundo e olhou para trás por cima do ombro:
— E não esquece, Tasha... se esse morro cair hoje, tu cai comigo.