🥀 Capítulo 6🥀

1538 Words
Hannah Brooks — Obrigada por me deixar ficar, Susan… eu realmente detesto incomodar. Prometo que é só até eu… — Nada disso. — ela me corta com um sorriso simples, desses que não pedem explicação nem dívida emocional. — Nada de se preocupar, Hannah. Você pode ficar o tempo que precisar. O quarto de hóspedes fica no fim do corredor, última porta à direita. Suas coisas já estão lá. E quanto às outras, as que ficaram na garagem, amanhã a gente dá um jeito. Engulo em seco. Sinto meus olhos arderem por um breve momento, aquele tipo de ardência que vem antes do choro que você não quer deixar sair. — Você é um anjo, Susan. — digo, a voz falhando um pouco apesar do esforço. — Eu… eu realmente não acredito que isso tá acontecendo. Ela me observa com aquela calma que só quem já atravessou muitas tempestades consegue sustentar. — Eu cresci em uma família estranha, querida. — diz, em tom baixo, quase confidencial. — Eu sei como é ser deixada de lado pra agradar os outros. A gente aprende cedo demais a se diminuir pra caber. Agora vai. Toma um banho, descansa. Eu vou preparar alguma coisa pra gente comer. — Mas… e o Peter? — pergunto, insegura. — Você tem certeza que ele não vai se incomodar? — Peter não se importa. — ela responde sem hesitar. — Agora faça o que eu estou dizendo e vá se organizar. Ela praticamente me empurra com delicadeza na direção do corredor. — O banheiro é a porta da frente do quarto de hóspedes, tá? — completa, já se virando. Antes que eu consiga dizer qualquer outra coisa, Susan dá meia-volta e desaparece pelo corredor, subindo as escadas como quem volta para a própria rotina depois de estender a mão para um estranho naufrágio. Sigo as instruções e entro no quarto de hóspedes. A maioria das minhas coisas já está ali. As mais importantes, pelo menos. Minhas roupas dobradas às pressas, a mochila jogada sobre a cadeira, meu notebook encostado na escrivaninha. O quarto é pequeno, simples, quase tímido. Uma cama de solteiro, um guarda-roupa estreito, uma escrivaninha no canto. As paredes pintadas de um verde suave que acalma os olhos. O cheiro de lavanda flutua no ar, limpo, gentil, como se alguém tivesse preparado aquele espaço esperando que uma pessoa quebrada precisasse respirar ali. Me sento na beira da cama, os ombros finalmente cedendo ao peso do dia. Passo as mãos pelos cabelos, bagunçando os fios sem pensar. Eu ainda não acredito em tudo o que aconteceu. Meus próprios pais me expulsaram de casa. Não por eu ter feito algo h******l. Mas por eu ter me recusado a continuar abrindo mão de mim para sustentar os caprichos da Amelie. Sempre foi assim. A vida inteira eu existi em segundo plano. Hoje só foi a confirmação oficial de quão torta e doente é essa dinâmica. Como se alguém tivesse carimbado minha testa com um “descartável” em letras grandes demais para fingir que não vejo. Pelos céus… eu não sei o que teria feito se a Susan não tivesse aparecido. Ela é vizinha da minha família, mora na mesma rua, algumas quadras depois. Tem quarenta e poucos anos, é enfermeira, vive exausta e ainda assim encontra espaço para cuidar dos outros. O marido, Peter, é mecânico. Gente comum. Gente boa. Gente que, estranhamente, me ofereceu mais abrigo em uma hora do que minha própria família em uma vida inteira. Ela estava chegando do trabalho, provavelmente depois de um turno tão cansativo quanto o meu, quando me viu parada em frente à minha antiga casa com aquela cara de quem perdeu o chão. E eu realmente perdi. E eu realmente não sei o que fazer agora. Meu salário não é suficiente para bancar um lugar só pra mim. Pelo menos não um que fique perto do trabalho e da faculdade. Talvez eu consiga pegar mais turnos na lanchonete. Dobrar jornada, trocar descanso por sobrevivência. Nada de novo sob o sol. Eu até poderia… poderia aceitar o convite do Ryan para morarmos juntos. Dividir contas, dividir espaço, fingir que isso é um passo natural. Mas não é minha primeira opção. É longe demais, o bairro não é tão seguro, e eu não estou pronta para transformar necessidade em dependência. Céus… só de pensar em resolver tudo isso agora, meu peito aperta como se eu estivesse prestes a ter um ataque do coração. Pego o celular no bolso da calça. Olho para a tela acesa por um segundo. E desligo. Por hoje, eu só preciso de um banho quente. E de silêncio. E de um lugar para chorar sem plateia. Amanhã… Bem, amanhã eu decido o que fazer da vida. 》☆☆☆☆《 Cael Sterling O relógio da sala marca 23h50. Quase meia-noite. E eu estou oficialmente morto por dentro. O dia foi um inferno. Reuniões que se arrastaram, problemas na empresa que pareciam se multiplicar a cada e-mail aberto, telefonemas que nunca terminam. E, no meio disso tudo, a obrigação constante de ser pai. De ser presente. De ser equilibrado. Falhando miseravelmente em todas as frentes. Puta m***a, eu vou m***r a Mia. Aquela irresponsável encheu meu filho de açúcar, fez absolutamente todas as vontades dele e depois… sumiu. Sumiu no sentido literal da coisa: eu entro por uma porta, ela sai pela outra, jogando um “tenho um encontro, tchau” por cima do ombro, como se tivesse me deixado um vaso de planta e não uma bomba-relógio emocional de três anos e meio. Porque o Theo está elétrico. Elétrico não descreve. Ele está possuído por um demônio feito de açúcar, música infantil e energia infinita. Já correu pela casa inteira, quis brincar de pique-pega, esconde-esconde, seu rei mandou, de astronauta, de dinossauro, de super-herói, de coisas que eu nem sei o nome. E quanto mais ele corre, mais energia parece brotar de algum lugar oculto do corpo minúsculo dele. Eu, por outro lado, estou no modo sobrevivência. Tomo mais um gole de bourbon, sentindo o álcool queimar na garganta enquanto observo meu filho pular como um coelho hiperativo ao som de uma música infantil que toca no meu celular. Ironia suprema: eu, que sou radicalmente contra telas para crianças, usando o celular como babá digital improvisada. Momentos de desespero pedem medidas desesperadas. Com o Theo minimamente distraído, tento organizar os pensamentos. Principalmente em como lidar com a Hailey. Aquela diaba vem me provocando a semana inteira, pressionando para anunciarmos esse maldito noivado para a mídia. Noivado esse que não vai existir. Nunca existiu de verdade. Só na cabeça dela e no inferno da assessoria de imprensa. — Papai… — a voz pequena do Theo corta meus pensamentos como uma lâmina macia. Levanto o olhar. Ele está bem na minha frente agora, os olhos brilhando de expectativa, o corpo inteiro vibrando energia. — Vem dançar, vem, vem! Ele corre até mim, as mãozinhas quentes agarrando a minha com força e me puxando para levantar da poltrona. — O papai tá ocupado, Theo. — digo, tentando manter o tom neutro enquanto me endireito no assento. A verdade é que eu não tenho mais energia para dançar, nem para brincar, nem para rolar no chão, nem para fazer cambalhota, nem para ser nada além de um adulto cansado demais para funcionar direito. — Vamos, papai, vamos, vamos! — ele insiste, puxando minha mão com toda a força que um corpo tão pequeno consegue reunir. — Já falei que o papai está ocupado, Theo. — minha voz sai um pouco mais firme do que eu pretendia. Vejo o efeito quase imediato. Os olhos grandes começam a ficar vermelhos, marejados. O lábio inferior treme, como se estivesse lutando contra algo grande demais para caber naquele corpinho. — A tia Mia brinca comigo… — ele murmura, a voz manhosa, carregada de comparação inocente e c***l ao mesmo tempo. Aquilo me atinge em cheio. — Sua tia Mia não está aqui. — respondo, seco demais. — Então, mocinho, comporte-se ou vai ficar de castigo. O desafio vem rápido, quase como um reflexo aprendido. Theo cruza os bracinhos, o semblante se fecha em um bico teimoso e, para minha surpresa absoluta, ele me mostra a língua. Um gesto pequeno, infantil, mas que naquele momento parece um ataque pessoal. — THEODORE STERLING. — minha voz explode mais alta do que eu gostaria. Muito mais alta do que ele merece. — Isso é jeito de tratar seu pai? O efeito é devastador. É como se alguém tivesse apertado um botão invisível. O semblante emburrado se desfaz em puro espanto. Ele dá um passo para trás, como se eu tivesse crescido de repente, como se eu fosse grande demais, alto demais, assustador demais. Os olhos se enchem de lágrimas. O queixo começa a tremer. Os lábios se contraem em pequenos soluços silenciosos. E então vem o som. O choro. Um choro doído, cortante, que preenche a sala inteira e bate em mim como um soco no peito. Um choro que não é só birra — é susto, é rejeição, é a sensação de ter sido empurrado para longe pelo próprio pai. E, no instante em que o Theo começa a chorar, eu sei: eu falhei de novo.
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