🥀 Capítulo 5 🥀

1457 Words
Hannah Brooks Retiro o uniforme com movimentos lentos, sentindo cada músculo do meu corpo implorar por descanso. Minhas pernas doem, meus ombros estão tensos, e até os pés parecem reclamar dentro do tênis velho. O turno de hoje foi simplesmente brutal. Correria sem fim, pedidos errados, bandejas caindo, clientes impacientes, aquele típico caos de lanchonete que te suga até a última gota de energia. Se não bastasse tudo isso, ainda teve o pai que deu um chilique maior que o próprio filho só porque o brinquedo do lanche veio errado. É sério. Por um momento, eu jurei que ele ia se jogar no chão e fazer birra. Enquanto isso, o garoto — que não devia ter mais que sete anos — apenas observava tudo com uma expressão constrangida, como se quisesse estar em qualquer lugar do mundo menos ali. Engraçado como, às vezes, as crianças têm mais maturidade emocional que os adultos que as criam. — Então, Hannah, vai conosco hoje? — a voz feminina e doce de Jane ecoa atrás de mim, me arrancando dos meus pensamentos. — Não vai ser nada formal, é só um pub com música ao vivo. Pra encerrar a noite depois desse dia caótico. Viro-me para ela com um meio-sorriso cansado. — Eu até queria, Jane, mas tenho que encontrar o Ryan. A gente vai jantar junto… e eu ainda preciso estudar. — faço uma careta, daquelas que dizem “minha vida acadêmica está me perseguindo”. — Semana de provas. — Pode ter certeza, gata, eu sei bem como é. — ela ri, compreensiva. — Tudo bem, então. Te vejo amanhã? — Amanhã sem falta. — respondo, tentando soar mais animada do que me sinto de verdade. Jogo a mochila sobre os ombros, me despeço do resto da equipe e saio da lanchonete. O ar da noite me atinge o rosto, um pouco mais frio do que eu esperava. Coloco os fones de ouvido e me permito, só por um instante, desaparecer dentro da melodia que começa a tocar. A música preenche os vazios da cabeça, abafa o cansaço, silencia o mundo. 》☆☆☆《 Pisco algumas vezes, achando que estou cansada demais e que meus olhos estão me pregando uma peça. Mas não. Não é ilusão. Minhas coisas. Todas elas. Estão empilhadas na calçada como se fosse a coisa mais normal do mundo. Sacos de lixo pretos abarrotados de roupas, meus sapatos jogados sem cuidado, livros, caixas amassadas. Até meu notebook está ali, largado no chão como se fosse descartável. Como se eu fosse descartável. O choque me paralisa por alguns segundos. Fico parada, encarando aquela cena absurda, sentindo um nó se formar na garganta. Meu estômago afunda, pesado, como se eu estivesse caindo de um lugar muito alto. Corro até a porta e tento enfiar a chave na fechadura. Não entra. Tento de novo, forçando um pouco, como se isso fosse resolver alguma coisa. Nada. A exaustão vira incredulidade. A incredulidade vira raiva. — Que p***a tá acontecendo… — murmuro para mim mesma, a voz falhando no final. Começo a socar a porta com força, o som ecoando pela casa. Não me importo se os vizinhos ouvirem. Eu preciso de uma explicação. Eu ajudo em tudo nessa casa. Pago contas, compro comida, engulo humilhações em silêncio. Eu mereço, no mínimo, saber o motivo de toda essa palhaçada. Continuo batendo, com mais força do que deveria, até que finalmente a porta da frente se abre. Minha mãe aparece com aquele sorriso doce e manipulador estampado nos lábios. O mesmo sorriso que ela usa quando está prestes a me fazer sentir pequena. Os braços estão cruzados no peito, postura de quem já venceu a discussão antes mesmo dela começar. — Que m***a é essa, mãe? — pergunto, tentando manter a voz firme, embora sinta a raiva fervendo por dentro. — Por que diabos minhas coisas estão todas na calçada como se fossem lixo? Por um segundo, meus olhos desviam da minha mãe e percorrem o corredor atrás dela. Então eu vejo. Amelie, parada no fundo do corredor, com um sorriso vitorioso nos lábios. Um sorriso que não pede desculpas. Um sorriso que confirma que nada daquilo foi um acidente. — Bem, querida… sua irmã precisava de mais espaço para o novo estúdio de gravação dela. E então seu quarto— Não deixo que ela termine. Meu riso explode alto, seco, um som f**o, carregado de sarcasmo escorrendo como veneno fresco enquanto encaro a mulher à minha frente. — Isso é uma piada? — pergunto, inclinando levemente a cabeça. — Porque, se for, devo admitir, mãe… você tem futuro como comediante. — meus olhos se fixam nos dela, que agora me encara com raiva por eu ter interrompido sua fala. — Estúdio de gravação, é sério? E o que a Amelie vai gravar? Um tutorial de como ser uma inútil que não consegue fritar um ovo sequer e fracassa em tudo o que tenta? Ou vai finalmente investir numa carreira de conteúdo adulto pra ver se, assim, consegue fazer alguma coisa direito? O rosto da minha mãe vai ficando vermelho, quase roxo, a irritação subindo como vapor de panela de pressão prestes a explodir. — Sua… sua… Ela tenta formar uma ofensa, mas não consegue completar a frase. Engasga na própria indignação. E eu não vou mentir: me divirto com isso por um segundo c***l demais. — Já chega, Hannah. — a voz da minha mãe ecoa com aquele tom autoritário que sempre usou para me colocar no lugar. — Você está na minha casa. Não vai tratar sua irmã dessa forma sob o meu teto. Dou uma risada curta, sem humor. — Tecnicamente, não estou sob o seu teto, mãe. — faço um gesto vago para a calçada atrás de mim. — Estou do lado de fora. Porque você escolheu fazer as vontades da sua filha inútil em vez de dar valor a quem realmente ajuda a manter esse circo funcionando. Minha raiva pulsa no peito, quente, antiga, conhecida demais para ser ignorada. — Nada disso teria acontecido se você tivesse feito o que seu pai e eu te pedimos. — ela responde, com a naturalidade c***l de quem acredita estar certa. Balanço a cabeça em negativa, soltando um riso amargo, incrédula. — Então é isso… — digo devagar, como se precisasse ouvir em voz alta para acreditar. — Vocês estão me expulsando da minha própria casa só porque eu não quis desistir do meu futuro pra bancar os sonhos dessa p***a de desperdício de DNA? — a indignação na minha voz quase dói de ouvir. — Você está abandonando sua filha de sangue por causa dessa bastarda inútil, filha da maldita amante do papai? — Cala a boca, Hannah! — minha mãe grita, a voz subindo dois tons, cortante. Arqueio as sobrancelhas, um sorriso torto surgindo no canto da boca. — O quê, mãe? — provoco. — Sua princesinha não sabe que é fruto de uma traição? Que nem a própria mãe dela quis e que você foi obrigada a criá-la pra salvar as aparências da família perfeita? As palavras escorrem como veneno. E eu sei exatamente o que estou fazendo. Eu poderia dizer que não estou pensando, que tudo saiu no calor do momento. Mas não. Cada frase é um fragmento de tudo o que ficou entalado por anos. É sobre favoritismo. Sobre negligência. Sobre crescer abrindo mão de espaço, de voz, de sonhos, para que a “perfeita Amelie” nunca tivesse que lidar com as consequências dos próprios erros. Eu nunca fui a irmã mais velha. Eu fui o pano de chão emocional da família. Passei a vida inteira limpando as merdas dos outros, engolindo frustrações, aceitando ser deixada por último. Mas chega. — Você fez sua escolha, mãe. — digo, sentindo algo dentro de mim finalmente quebrar. — Escolheu uma cobra em vez da própria filha. Espero que não se arrependa disso. Ela me encara como se eu tivesse crescido uma terceira cabeça. — E mais uma coisa — continuo, firme, sentindo o chão sob meus pés pela primeira vez naquela noite. — Essa casa me pertence. Estava no testamento da vovó. Ela deixou pra mim quando faleceu. E eu vou retomar o que é meu. Nem que eu precise arrancar isso de vocês com advogado, processo e o inferno inteiro de brinde. Dou as costas sem esperar resposta. Me afasto, já puxando o celular da mochila, os dedos tremendo levemente enquanto procuro o nome do Ryan na lista de contatos. Eu precisava de um lugar pra passar a noite. Um lugar pra deixar minhas coisas. Um lugar pra existir sem ser tratada como descartável. Nem que fosse só até eu conseguir, pela primeira vez na vida, construir um espaço que fosse realmente meu.
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