🥀 Capítulo 2🥀

1453 Words
Cael Sterling Estaciono a Mercedes na garagem de casa sentindo o peso do dia se agarrar aos meus ombros. Passam das 19h50 e, por mais que meu corpo implore por descanso, sei que está me esperando lá dentro um pequeno furacão de energia inesgotável — o tipo de energia que seria capaz de alimentar uma usina nuclear durante um apagão. Pego minha pasta no banco do passageiro, confiro os bolsos, tranco o carro e me certifico de que as chaves estão mesmo comigo. Depois do episódio catastrófico do mês passado, aprendi a lição. Theo havia colocado as mãos nas chaves, trancado o carro por dentro e feito de tudo para "dirigir até a casa da vovó". Foram quase quarenta minutos de caos, pânico e um bombeiro extremamente debochado até conseguirmos destravar o carro. Caminho até a porta de entrada e, assim que a abro, o cheiro que invade minhas narinas me acerta como um soco. Algo delicioso está sendo preparado — e isso me lembra que eu sequer almocei hoje. Ou tomei café. Honestamente, minha última refeição sólida deve ter sido uma bolacha durante uma reunião. Sigo até a cozinha e encontro minha irmã de costas, mexendo em alguma de suas infinitas panelas. Mia está concentrada, cortando algo que não consigo identificar. Seu cabelo está preso de qualquer jeito, e mesmo assim ela parece saída de um comercial de culinária. Mia é chef gastronômica. E não qualquer chef — ela comanda uma rede de restaurantes premiados, com estrelas Michelin, espalhados pelo país. Foi a única de nós que não seguiu os planos de nossos pais. Enquanto eu fui treinado para obedecer, ela teve coragem de escolher seu próprio caminho. E deu certo. — Como vai, maninho? — pergunta sem nem se virar, como se sentisse minha presença no ar. — Exausto. — apoio a pasta sobre o balcão e passo uma das mãos pelo rosto. — Como foi o dia? Tudo correu bem? E o Theo, onde está? — Antes que você entre em modo colapso, posso garantir que estamos vivos, ilesos e felizes. O dia foi tranquilo e Theo está no quarto, colorindo o novo livro que ganhou. — ela responde com aquela calma debochada que só os irmãos mais novos têm. — Novo livro? — arqueio uma sobrancelha, porque até onde eu sei, não comprei livro nenhum. — Sim. Trouxe pra ele de Vancouver. — dá de ombros como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Você precisava ver o brilho nos olhos dele quando viu os heróis nas páginas. Tinha o Homem-Aranha, o Capitão América... — Mia... — digo seu nome num tom impaciente, massageando a têmpora. — O que eu já falei sobre isso? Não faz bem alimentar a imaginação dele com esse tipo de fantasia. Ele está numa fase onde... — Numa fase onde o quê, Cael? — ela interrompe, largando a faca com força sobre o balcão e se virando para me encarar. Os braços cruzados, o queixo erguido — pronta para guerra. — Você cria aquele menino como se ele estivesse em um quartel. Ele não pode assistir TV, não pode comer um maldito doce, só legumes e coisas sem gosto, não tem brinquedos, nem bonecos. O quarto do Theo parece o de um executivo de trinta anos, não de uma criança prestes a fazer quatro anos. Até pra chorar ele pede permissão, com medo de te desagradar. — Eu sei o que estou fazendo, Mia. — respondo com firmeza, a mandíbula travada. — Estou criando alguém forte. Responsável. Um garoto que vai crescer preparado para o mundo real. — Não, você está criando alguém com medo de errar. — ela rebate, a voz mais baixa agora, mas tão firme quanto. — Alguém que vai crescer achando que tudo o que é leve, divertido ou espontâneo é errado. Ele só tem três anos, Cael. Deixe-o ser criança antes que isso também seja arrancado dele. E se você interromper a diversão dele hoje... juro por tudo que é sagrado que eu corto suas bolas e coloco na sopa. Solto um suspiro cansado e pego minha pasta novamente. — Ainda não sei porque deixo você entrar na minha casa. — murmuro, saindo da cozinha em direção às escadas. — Porque eu sou sua irmã maravilhosa... e a tia favorita do Lucca! — ela grita da cozinha com aquele tom provocativo e cheio de razão que me irrita mais do que deveria. Balanço a cabeça em negação, subindo os degraus. Ao passar pelo quarto de Theo, paro por um momento. A porta está entreaberta. Vejo o tapete tomado por canetinhas espalhadas, papéis coloridos, e no centro de tudo isso, meu filho. Deitado de bruços, completamente concentrado em colorir um super-herói com capa vermelha e botas azuis. Ele está cantarolando baixinho uma melodia qualquer. A paz dele me desarma. Fico ali por alguns segundos, apenas observando. A respiração desacelera. O coração aperta. Será que estou mesmo fazendo o certo? Será que sou mesmo... um pai tão r**m assim? 》☆☆☆☆《 Hannah Brooks. — Feliz aniversário de dois anos e oito meses. — A voz de Ryan sussurra junto à minha nuca com aquela animação genuína que só ele tem. Ele retira a venda dos meus olhos, e a surpresa diante de mim me faz arregalar os olhos e, sem que eu consiga evitar, lágrimas se acumulam. Ele havia preparado um jantar romântico à luz de velas, digno de cena de filme. A mesa estava cuidadosamente posta, como nos restaurantes mais elegantes. Sobre ela, repousava uma garrafa de vinho, duas taças de cristal — aquelas que ele herdou da mãe e só usava em ocasiões especiais — e a porcelana que seguia a mesma regra. No centro da mesa, um pequeno vaso com uma rosa única e, nas extremidades, duas velas perfumadas exalavam um aroma suave e envolvente. — Gostou? — ele pergunta com um sorriso ansioso, e eu me viro para encará-lo. Ryan me observa com o brilho de uma criança esperando aprovação, os olhos cheios de expectativa. — Eu amei, amor… — respondo, pousando as mãos em seu rosto com carinho. — Você é o melhor noivo do mundo. Deposito um beijo nos lábios dele, que ele prontamente retribui com doçura. — Tudo por você, minha princesa — sussurra, acariciando meu rosto. Ele se afasta e vai até a mesa, puxando minha cadeira como um verdadeiro cavalheiro. Agradeço com um sorriso e me sento. Logo depois, ele desaparece na cozinha para buscar o jantar que ele mesmo preparou. O dia tinha sido longo, corrido e estressante em alguns momentos, mas abençoado em outros. A lanchonete estava lotada, com crianças correndo de um lado para o outro, ansiosas pelo lançamento dos novos brinquedos do Max McBun — nosso mascote agora transformado em boneco oficial. O senhor Lincoln decidiu que era hora de lucrar ainda mais com a marca, e agora os pais estavam pagando vinte dólares a mais por um combo com o brinde exclusivo. E, por mais absurdo que pareça, seria mentira dizer que não é gratificante ver o brilho nos olhos das crianças. Depois do expediente, nem passei em casa. Vim direto para o apartamento de Ryan. Eu não queria ter meu humor arruinado por algum pedido de dinheiro da Amelie ou pelas indiretas dos meus pais sobre as despesas da casa. Muito menos por uma pia cheia de louça acumulada desde o início do dia. Ryan retorna à mesa trazendo o jantar: salmão grelhado com batatas, arroz gratinado, salada e alguns acompanhamentos. Ele me serve com cuidado, depois se serve e se senta, e começamos a conversar sobre o nosso dia. Ele fala sobre o trabalho, o estresse no setor dele, e como não vê a hora de poder se dedicar exclusivamente à sua arte. Eu apenas sorrio, escutando com atenção, absorvendo cada palavra. Ryan tem repetido isso com frequência nos últimos dias. Diz que, quando estivermos morando juntos, tudo será mais fácil. Já me convidou para morar com ele algumas vezes. Mas ele vive sozinho em um apartamento pequeno, de um quarto, em um bairro um bem mais distante que me acrescentaria pelo menos mais trinta minutos no trajeto até a faculdade e o trabalho. E, sinceramente, eu não estou disposta a acordar todos os dias mais cedo do que já acordo. Sei que é comum casais que ainda estão se estabilizando morarem juntos e dividirem responsabilidades. Mas sejamos francos: assumir todas as despesas da casa enquanto o Ryan corre atrás dos próprios sonhos não faz parte do meu plano de vida. Eu também tenho meus objetivos — e não pretendo desistir deles, muito menos colocá-los em pausa para sonhar os sonhos de outra pessoa. Mesmo que essa pessoa seja o meu noivo.
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