🥀 Capítulo 1 🥀

1798 Words
Hannah Brooks A manhã havia sido simplesmente mortal. A prova? Um verdadeiro campo minado emocional. Eu estaria mentindo descaradamente se dissesse que entreguei aquilo com confiança. Por Deus... acho que a senhora Clarke nos odeia. Sério. Ela tem prazer em assistir a nossa sanidade escorrer pela folha de resposta. Estou no terceiro período de medicina e, honestamente, todo novo mês me faz questionar se fui eu quem escolheu esse curso... ou se ele me escolheu só pra rir da minha cara. Depois de uma luta interna pra não deitar em uma calçada e aceitar meu destino, dobro a esquina de uma das principais avenidas de Toronto. E lá está ela: a imponente e barulhenta Captain Burger, o meu caos preferido. Uma lanchonete temática com alma de parque de diversões e coração de mãe. O lugar mistura universos mágicos da Disney, heróis da Marvel, clássicos da Pixar - e, pra completar o combo perfeito da infância, animes como Pokémon e Cavaleiros do Zodíaco estampam as paredes. É um paraíso absoluto para as crianças, um abrigo para adolescentes famintos e um alívio temporário para pais exaustos que só querem cinco minutos de paz... ou um café decente. O verdadeiro charme, no entanto, é ele: Max McBun - um hambúrguer gigante com capa, botas vermelhas e uma máscara que nunca fica reta no rosto redondo. Nosso mascote superstar, correndo como um condenado por entre as mesas enquanto uma tropa infantil o persegue como se ele escondesse doces nos bolsos. (Spoiler: às vezes, esconde mesmo.) A Captain Burger fica estrategicamente posicionada entre arranha-céus corporativos e logo ao lado da Royal Crest Academy, uma das escolas mais renomadas de Toronto - que, claro, abrange desde o ensino infantil até o superior, o que significa: crianças, adolescentes e jovens adultos, todos com fome. Sempre. O fluxo é insano nos horários de entrada e saída, e os pais fazem fila com a cara de quem negociaria até a alma por vinte minutos de silêncio. Cruzo a entrada enquanto me esquivo de uma criança que gira com o refrigerante na mão como se fosse um sabre de luz. Meus olhos encontram Max tropeçando nos próprios pés. Sigo direto para a porta ao lado do balcão, em direção ao vestiário dos funcionários, já me preparando psicologicamente. Visto meu uniforme com a agilidade de quem já faz isso no automático. Mais uma tarde caótica vai começar - gritos, brinquedos voando, e talvez algum pai que ache que o cliente tem sempre razão (mesmo quando está nitidamente errado). Mas sabe... apesar de tudo - dos gritos, dos refrigerantes derramados, das crianças com ketchup até a sobrancelha e dos pais que parecem estar a um telefonema de explodir - eu amo esse lugar. Amo o brilho nos olhos das crianças quando recebem suas batatas fritas em formato de raio. Amo as panquecas do Homem-Aranha e o jeitinho como elas abraçam o Max como se ele fosse real. Tem dias em que tudo me cansa. Mas tem outros - a maioria, pra ser sincera - em que tudo isso me lembra por que eu ainda estou aqui. E por mais que a vida me arrebente às 8h numa prova infernal... às 13h, eu ainda sorrio por trás desse balcão. 》☆☆☆《 Cael Sterling. Me recosto no encosto da cadeira atras da mesa da presidência com a paciência de quem está a um fio de cometer um homicídio. Meus olhos fixam nela - a mulher à minha frente. Cabelos longos e dourados, curvas no ponto exato entre o pecado e o escândalo, s***s firmes, corpo moldado para fazer qualquer homem perder o bom senso. E os olhos... grandes, verdes, cheios de veneno. Sabem como me instigar quando querem, mas também são peritos em me tirar do sério em questão de segundos. Hailey Donovan. Para quem vê de fora, ela é perfeita. Um rosto bonito na TV, corpo escultural nas passarelas, simpatia forçada em entrevistas bem ensaiadas. O retrato da doçura, dizem. Pois bem. Estão todos absolutamente errados. Hailey é uma jogadora nata. Sabe usar as regras a seu favor, contorcendo-as até que se encaixem nos próprios caprichos. Manipuladora, ardilosa, estrategista. E o pior de tudo: acostumada a conseguir tudo o que quer. Menos comigo. Eu sou o único ser humano no seu mundinho cor-de-rosa que ela não controla. E isso a corrói por dentro. - Já estamos juntos há quase dois anos, Cael. A mídia está começando a especular quando você vai finalmente me pedir em casamento - diz ela, andando de um lado para o outro como se tentar me convencer de que dois mais dois são cinco. Cruzo os braços e me apoio na borda da mesa, observando cada passo seu. - Diga-me, querida... desde quando eu dou a mínima para o que a mídia diz sobre mim? - Se você não se importa com a própria imagem, ao menos pense na minha carreira - rebate, parando para me encarar com raiva nos olhos. - Pense nas manchetes. Eu não entrei nesse relacionamento para ser mais um dos seus brinquedinhos. Nós tínhamos um acordo. - Um acordo que beneficia os dois lados - retruco, frio. - E que, em nenhum momento, mencionava casamento. Minha prioridade é meu filho, Hailey. O Theo não está pronto para ver alguém assumindo esse papel na minha vida. E... - Quem não está pronto é você, Cael - ela me interrompe, a voz afiada como uma navalha. - Desde o seu divórcio, você virou um homem fraco. Aquela mulher te esmagou e você sequer teve coragem de revidar. Eu entrei nesse relacionamento por puro interesse, e ainda estou aqui pelo mesmo motivo. Mas se você não vai cumprir sua parte... então isso não tem mais por que continuar. Ela agarra a bolsa largada no sofá com fúria contida, lança um último olhar repleto de raiva - e talvez decepção - e sai do escritório como um furacão. A porta se fecha com um estrondo atrás dela. Conto até cinco. Respiro fundo e arranco a gravata do pescoço como se ela estivesse tentando me enforcar. Jogo o tecido amarrotado em algum canto do escritório, sem me importar onde vai cair. Passo as mãos pelos cabelos, tentando aliviar a tensão que pulsa nas têmporas e toma conta dos meus ombros. Quatro horas. Eu passei quatro horas da minha vida em uma reunião exaustiva, mergulhado em licenças, diretrizes, burocracias intermináveis e conversas técnicas para liberar as obras do novo hospital da cidade. E então, quando finalmente deixo a sala de reuniões acreditando - ingenuamente - que teria um momento de paz, dou de cara com o furacão Hailey sentado na minha cadeira giratória, me esperando com um sorriso maquiavélico e uma ideia brilhante: um pedido de casamento em público. Um pedido de casamento. Em. Público. Sério? Eu sei exatamente onde isso vai parar, consigo ver o desastre tomando forma antes mesmo de acontecer. E não, eu não vou me deixar cair nessa armadilha. Já cometi esse erro uma vez - e uma vez foi mais do que suficiente. Casar de novo? Nem em sonho. Meu primeiro casamento foi o suficiente para me ensinar que certas cicatrizes não se fecham, só se aprofundam com o tempo. Serena Hanks. Fomos amigos, éramos próximos. Eu me apaixonei por ela - até hoje não sei se isso foi meu maior erro ou meu maior castigo. Me declarei, ela aceitou. Namoramos por anos, construímos uma história. Nos casamos há seis anos, e no início parecia certo. Serena era leve, divertida, cheia de planos. Eu achei que tinha encontrado o meu lar. Tudo caminhava bem... até a gravidez. Quando descobriu que estava esperando um filho, tudo mudou. Eu sempre quis ser pai - não era um desejo escondido, era algo que eu dizia com orgulho. E quando Lucca chegou, foi como se o mundo tivesse ganhado cor novamente. Mas para Serena... ele foi o oposto. Um fardo. Um lembrete de tudo que ela dizia odiar: rotina, obrigações, estabilidade. Lembro da noite como se fosse ontem. Cheguei em casa, e ela estava sentada na sala. As malas já estavam prontas, colocadas ao lado da porta como se fossem parte da decoração. O olhar dela era vazio, distante. E eu já sabia... alguma m***a estava por vir. Ela me disse que se sentia presa, sufocada. Que aquela não era a vida que havia sonhado. Disse que ainda era jovem, que precisava se reencontrar, que ser mãe nunca fez parte dos planos dela. E, com a frieza de quem termina um café, disse que não podia continuar vivendo daquela forma. Theo tinha seis meses. E ali, parado no meio da sala, com o coração esmagado no peito, me vi diante do maior medo de qualquer homem: criar um filho sozinho sem entender o que diabos fez de errado. Tentei de tudo. Sugeri terapia, propus mudanças, implorei. Disse que podíamos tentar, que ainda havia amor, que podíamos salvar aquilo tudo. Mas ela já tinha ido embora por dentro. E quando passou pela porta, me deixou ajoelhado, derrotado, implorando para a mulher que eu amava não destruir a família que juramos construir juntos. Três semanas depois, eu entendi o verdadeiro motivo daquele "preciso me reencontrar". Vi Serena nos braços de outro homem. A verdade é que sempre houve outro. E ela só não teve a coragem de me contar. O divórcio foi um m******e. Serena forjou provas, inventou histórias. Me pintou como um homem controlador, abusivo. Disse que eu a via como uma égua reprodutora, que só me casei com ela por querer um herdeiro. Me reduziu a um monstro em papel timbrado. Eu teria perdido tudo - inclusive Theo - se não fosse por David Maddox, meu advogado e melhor amigo, que desmontou cada uma das mentiras dela com maestria e sangue frio. Ele salvou a minha reputação... e a minha guarda. Serena perdeu. Foi condenada a arcar com todos os custos do processo, inclusive os honorários de David - que, modéstia à parte, são bem altos. Ela perdeu qualquer direito sobre Theo. E pouco tempo depois... sumiu. Literalmente. Desapareceu do mapa. Nunca mais procurou por ele. Nunca ligou. Nunca escreveu. Nada. Isso aconteceu há quase quatro anos. E desde então, decidi que não colocaria mais ninguém na minha vida de forma séria. Não há espaço. Não há confiança. Nem mesmo com Hailey - e que fique claro, o que temos não é amor, é um contrato com benefícios. Um acordo conveniente para ambos, e só. Theo não lembra da mãe. Era pequeno demais para guardar qualquer memória, e sinceramente? Talvez seja melhor assim. Eu nunca vou permitir que ele passe por aquilo de novo. Que alguém entre na vida dele e vá embora como se ele fosse descartável. Meu filho é minha prioridade. Sempre foi. Sempre será. E ninguém - ninguém - toma o lugar dele.
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