Hannah Brooks
Há certos momentos na vida em que costumamos questionar nossas escolhas. O que fizemos no passado é o reflexo de quem somos hoje. E, parando para pensar por um momento...
Se somos o reflexo do nosso passado, então o meu "eu" de antigamente estaria feliz com quem me tornei hoje?
Eu não saberia responder a essa pergunta se ela me fosse feita por outra pessoa, assim como também não sei o que responder enquanto eu mesma a faço neste momento.
É estranho pensar que, lá atrás, enquanto crescia, eu queria ser a princesa que seria salva por um prÃncipe em um cavalo branco. Hoje, eu não acredito mais em prÃncipes - e não sou muito fã de cavalos desde que caà de um, aos quinze anos, num passeio escolar numa fazenda.
É uma longa história, de fato... talvez eu conte depois. O que quero dizer é que não é porque idealizamos algo para a nossa vida que isso irá se concretizar - ou acontecer da forma como esperamos. Mas também não posso deixar de me sentir grata por tudo o que conquistei.
Eu tenho um emprego que paga minhas contas. Não é o emprego dos sonhos, mas cobre as despesas e a faculdade. Tenho um teto sobre minha cabeça, mesmo que seja na casa dos meus pais. Tenho uma famÃlia, ainda que disfuncional. E tenho um noivo que me ama - e estamos prestes a nos casar, mesmo que o casamento esteja sendo adiado há meses por causa dos nossos problemas financeiros.
O que quero dizer é: nem tudo são flores, mas ainda assim sou muito grata pelo que tenho.
Mesmo que o meu guarda-chuva tenha ido parar no espaço, eu esteja carregando sacolas de supermercado pesadas e encharcadas enquanto tento abrir a porta de casa no meio de uma tempestade - e, aparentemente, ninguém tenha me ouvido chegar.
Mesmo que a chave insista em não entrar na maçaneta, me fazendo ficar cada vez mais molhada... apesar de ser, sim, a chave certa.
Respiro fundo quando ouço o barulho da porta sendo destrancada. Pego as sacolas, finalmente conseguindo entrar em casa. Estou parecendo a Samara do poço - mas, ao menos, consegui fazer as compras da semana.
Caminho até a cozinha, passo pela sala e encontro meu pai no sofá assistindo a um jogo, enquanto minha mãe está na poltrona com seu kit de crochê nas mãos. Seus olhos levantam ao me ver chegando, e um pequeno sorriso surge em seus lábios.
- Hannah querida, você finalmente chegou - diz ela, com um sorriso torto.
- Sua irmã estava perguntando quando você chegaria. Algo sobre precisar de duzentos dólares emprestados.
Ignoro aquelas palavras e apenas sigo para a cozinha. Estou ensopada, e o que menos preciso agora é me preocupar com a forma que a Amelie vai inventar para me pedir dinheiro emprestado.
Empréstimo esse que, aliás, nunca teve pagamento.
Ponho as sacolas sobre a bancada e reviro os olhos ao ver a pilha de louça suja na pia. Eu sempre lavo - se não, ela fica ali por semanas. Mas não hoje. Preciso subir e estudar para a prova de amanhã.
Guardo as compras em seus devidos lugares, pego uma maçã e saio da cozinha em direção às escadas, subindo degrau após degrau até meu quarto. Tudo o que quero é me trancar e só sair de lá depois de horas de estudo.
- Hannah, querida - a voz da minha mãe soa novamente. - Onde vai? Não vai preparar o jantar? E lembra que também precisa lavar aquela louça que está na pia.
Ela diz isso me fazendo parar no meio da escada, encarando-a sem acreditar no que ouvi.
- A Amelie pode muito bem fazer as duas coisas, mãe - digo com firmeza. - Eu preciso estudar para uma prova importante amanhã.
- Não fale da sua irmã dessa forma, Hannah- ela responde em um tom mais duro. - Você sabe que nossa Mel não pode fazer essas coisas. Ela tem alergias severas e não pode sequer encostar em produtos de limpeza. E quanto ao jantar, ela não sabe cozinhar.
- A Amelie não tem alergia, mãe. Ela tem preguiça. São coisas totalmente diferentes. - digo com indiferença. - E quanto ao jantar, vocês podem muito bem pedir alguma coisa.
Sem esperar por resposta, termino de subir as escadas e entro no meu quarto, trancando a porta atrás de mim. Me preparo para começar minha maratona de estudos. Mas antes... preciso de um banho e de roupas secas antes que eu acabe contraindo uma pneumonia.
A dinâmica da minha casa pode ser considerada complicada - talvez até tóxica. Mas, depois de viver vinte e três anos sob o mesmo teto, dentro do mesmo sistema, a gente acaba se acostumando. Em certos momentos, é como se você parasse de se importar com o que os outros fazem ou deixam de fazer.
Desde que me entendo por gente, as coisas sempre foram assim. Amelie era a frágil, a que precisava de cuidados. Eu? Sempre a forte, a responsável, a independente. Em aniversários, ela ganhava os presentes mais caros, luxuosos, mesmo que nossos pais m*l pudessem pagar. Eu? Ficava com as coisas práticas: vales-presentes, meias, livros.
Quando questionava, a resposta era sempre a mesma:
- Sua irmã precisa mais do que você querida. - era oque meu pai costumava dizer.
E então tinha minha mãe.
- Ela é mais nova querida, achei que você entendesse isso. Você é tão madura para sua idade.
É aà que muitos se perguntam: o que ainda estou fazendo aqui? Por que ainda moro com os meus pais, se tudo é tão desigual?
A resposta é simples: não tenho dinheiro suficiente para sair de casa.
Mesmo aos vinte e três anos, ainda não juntei o bastante para ter meu próprio canto. Trabalho em uma lanchonete no centro. Meio perÃodo. O suficiente para pagar a faculdade e cobrir o básico - e, mesmo assim, ajudo em casa. Pelo menos esse trabalho me permite estudar.
Minha mãe está desempregada. Meu pai trabalha como contador em uma empresa de médio porte. E minha irmã? Bem, ela é "jovem demais" ou "frágil demais" para trabalhar - segundo os meus pais.
Então, sair de casa agora seria inviável. E no meio de tudo isso, ainda tem o casamento.
Ryan e eu estamos juntos há dois anos e alguns meses. Nos conhecemos na lanchonete onde trabalho e nos demos bem logo de cara. SaÃmos algumas vezes, até ele me pedir em namoro. Quando completamos um ano e meio juntos, ele me pediu em casamento durante um jantar na casa dos pais dele. E eu aceitei.
Eu o amo, claro. Temos planos para o futuro e, mesmo com tão pouco, ele consegue me fazer a mulher mais feliz do mundo.
Saio do banho e vou para o quarto, já vestida. Meu celular vibra em cima da mesa - graças a Deus, deixei ele em casa hoje. É uma mensagem do Ryan.
"Pensando em você."
Abaixo, uma foto dele fazendo mais um de seus esboços.
Sim, ele é um aspirante a pintor/cantor que ainda não teve sua grande chance. No momento, trabalha repondo prateleiras no Walmart.
Mas isso não importa. Eu o amo. Acredito no seu talento - assim como ele acredita em mim.