Capítulo 1
Entre Paris e as lembranças, Helena descobre que a maior ausência é a de si mesma.
Meu nome é Helena Ramos Lemoine.
Tenho 44 anos, sou arquiteta, e ainda acredito que o cheiro do café coado é uma das poucas coisas capazes de segurar a alma dentro do corpo.
Nasci no Brasil, em uma cidade pequena que muita gente nunca ouviu falar, mas moro na França há mais de vinte anos. Vim pra cá ainda jovem, por causa de uma bolsa de intercâmbio, e fiquei. Não por escolha, no início. Mas por amor. Ou talvez por destino.
A vida aqui é bonita. Ou, pelo menos, parece bonita vista de fora. Meus colegas me consideram bem-sucedida, requisitada, forte. Já ganhei prêmios importantes, já desenhei prédios incríveis, já sentei em mesas com gente grande. Me tornei uma referência no meu meio — mas, sinceramente, nunca tive muita paciência pra isso. Sempre preferi o traço ao troféu.
Gosto de ler à noite. De caminhar em silêncio pelas margens do Sena. De desenhar com música de piano ao fundo. De dormir com a janela aberta mesmo no frio. De deixar a luz da cozinha acesa quando me sinto sozinha. De fazer listas — listas de compras, de metas, de lugares que nunca visitei. Sou dessas que, se for ao supermercado sem lista, volta com tudo menos o que realmente precisa.
Amo tapioca com manteiga, mas aqui não tem. Então aprendi a fazer.
Sou filha única. Perdi meus pais ainda nova.
E amo arquitetura porque foi a forma que encontrei de não desmoronar por dentro.
Se eu pudesse, moraria dentro de uma casa de vidro no meio da mata.
Mas vivo em um apartamento grande, bem decorado, em Paris.
Cercada de objetos de valor, mas sem saber onde está minha pulseira preferida de conchinha da adolescência.
E talvez isso diga tudo.
Conheci o pai do meu filho no segundo ano de faculdade.
Ele era francês, engenheiro civil, e me conheceu quando fui chamada para um estágio na empresa dele. Não foi paixão à primeira vista. Foi calma, foi riso, foi amizade antes de desejo.
Quando percebi, já era ele.
Nos casamos dois anos depois. Foi um casamento lindo — no campo, com lavandas em volta e meus desenhos espalhados pelas mesas.
Tivemos um filho: Heitor.
Um nome forte, mesmo em outro país.
Quis que ele soubesse que era feito de mim, ainda que carregasse a lógica do pai.
Meu marido era gentil. Inteligente. Calmo. Por muitos anos achei que a vida era só isso mesmo: trabalhar, voltar pra casa, dormir com quem você ama e torcer pra que a rotina não estrague tudo.
Mas ele ficou doente.
E morreu muito antes do tempo.
Foram três anos entre o diagnóstico e o adeus. Quando ele se foi… eu não chorei tudo de uma vez. Demorei a entender. Fiquei só. E funcionante.
Heitor ainda era menino. E eu precisava ser adulta.
Contei os dias. Marquei cada ano com um projeto. Cada dor com uma parede nova.
E foi assim que segui.
Criei meu filho. Construí carreira. Fui respeitada. Fui elogiada.
Mas não fui tocada de novo com verdade por muito tempo.
Hoje, Heitor tem 21 anos. Já não mora mais comigo.
É um rapaz encantador — carismático, falante, sociável.
Estuda e trabalha na Flórida, fazendo marketing para uma empresa de investimentos. Moramos em países diferentes, mas nos falamos quase todos os dias. E confesso: às vezes sinto mais saudade dele do que do tempo em que ainda acreditava em finais felizes.
Enquanto pensava nisso, meu celular tocou. Olhei a tela: Victor.
Atendi com a voz mansa.
— Oi, Victor.
— Oi, amor. O que está fazendo? — Ele perguntou com aquele tom envolvente que sempre usava no fim do dia.
— Estou organizando uns projetos que preciso trabalhar esta semana... Já, já vou pra casa.
— Hum... E o que quer comer hoje?
— Acho que uma salada, um peito grelhado, um arroz e uma taça de vinho branco.
— Pensei em irmos a um restaurante legal. — Ele sugeriu.
Eu fechei os olhos por um segundo, respirando fundo. A cabeça já latejava com o dia. E, por mais que ele insistisse, eu sabia o que meu corpo precisava.
— Desculpa... Hoje quero só um camisão, ficar descalça e um bom livro. — Sorri, tentando aliviar.
— Nossa, não está com saudades? Podemos fazer tudo isso. Você lê um pouco no meu colo… depois de mais uma taça de vinho… podemos começar com um beijo gostoso… e terminar fazendo amor, pra dormir abraçadinhos.
Fechei os olhos de novo. Parte de mim quis sorrir de verdade.
— Hmm... esse final eu gostei.
— Delícia. Até já. Passo aí pra te buscar.
Sorri. Guardei o celular.
E por um momento… achei que estava tudo bem.
Peguei minha bolsa, apaguei as luzes do escritório e saí. O corredor do prédio estava silencioso, abafado como se também estivesse cansado. Entrei no elevador, e quando as portas se fecharam, olhei meu reflexo no espelho.
Eu não tenho mais aquele rosto.
Os traços que antes me definiam agora me pertencem de outro jeito. A pele mais fina ao redor dos olhos, o olhar menos encantado, o sorriso que pesa quando é forçado. Estou madura. A idade chegou, não como uma avalanche, mas como a água que escorre silenciosa por dentro da madeira. Vai se infiltrando até mudar a estrutura sem fazer barulho.
Victor tem 53 anos. Um francês elegante, bem-sucedido, que aprendeu desde cedo a encantar mulheres com a voz baixa, os gestos gentis e os convites certos.
Durante o jantar, enquanto ele falava sobre negócios, sobre política e sobre os vinhos do Vale do Loire… eu o observava.
Victor é galanteador — mesmo quando finge não ser.
Acha que eu não percebo quando o olhar dele desliza por outra mulher no restaurante… ou quando responde mensagens com sorrisos discretos. Mas eu percebo. Sempre percebi. Só não tenho mais paciência pra discutir essas coisas.
Ele pediu o prato favorito. Fez questão de escolher o vinho que combinava. Brindou como se estivéssemos num filme.
Eu sorria… por fora.
Por dentro… eu só queria minha casa. Um camisão velho. E um livro nas mãos.
Quando a sobremesa chegou, ele me lançou aquele olhar de canto. Aquele mesmo olhar que já arrancou minha roupa tantas vezes.
Mas, hoje, eu só queria silêncio.
Ao fim do jantar, ele me levou até a casa dele.
Entramos. Ele colocou uma música leve pra tocar, abriu uma garrafa de vinho.
Eu sorri de novo… aquele sorriso automático que as mulheres aprendem depois dos 40.
Ele me puxou pra um beijo. Um beijo demorado. Mas meu corpo… não respondeu como antes.
Talvez, amanhã, eu diga a ele que preciso de um tempo.
Talvez… não.
Mas o que eu sei… é que a pior saudade… ainda não é de homem nenhum.
É de mim.
"E foi naquele exato momento... olhando o copo de vinho... que eu decidi: eu não ia aceitar menos do que um amor que me fizesse perder o fôlego."