UM LUGAR ONDE ME RECONHECO

1000 Words
Capítulo 2 Pela primeira vez, ela ergueu uma casa para morar em si. Eu só quero paz. Noite seguinte. Victor gosta de mim. Disso eu não duvido. Temos química, boas conversas, e o sexo… é gostoso. Simples assim. Sem poesia, sem medo, sem profundidade. Não é entrega, é prazer. E eu aceitei isso por um tempo. Aceitei porque me convenci de que, depois de certa idade, a gente não precisa mais de épicos. Basta alguém que não nos trate m*l. Que não grite. Que não traia abertamente. Que nos acompanhe nos jantares e nos chame de “amor” em público. Mas ultimamente tenho sentido que não sou exatamente o que ele quer. E talvez nunca tenha sido. Então vivo esperando esse dia chegar: o dia em que ele vai dizer que encontrou alguém mais leve, mais divertida, mais... viva. E a verdade é que eu entendo. Porque, às vezes, eu também queria encontrar outra versão de mim. No carro, ele me recebeu com um beijo no rosto e aquele olhar que aprendi a decifrar. Ele já sabia que eu não estava tão presente. Mas também não perguntou. Victor não é o tipo de homem que faz perguntas difíceis. Ele prefere o conforto da superfície. E por muito tempo, isso me serviu. O jantar foi agradável. Um restaurante pequeno, uma música francesa ao fundo, luz baixa. Ele falou sobre o mercado, sobre uma possível viagem a Marselha. Eu sorri, respondi quando necessário, mas estava com a cabeça em outro lugar. Em mim mesma. Enquanto ele falava de negócios e roteiros turísticos, eu só conseguia pensar no jeito como o olhar dele deslizava pelas mulheres que passavam. Discreto, elegante, mas presente. Como sempre foi. Não que ele me desrespeitasse... mas era como se, a cada olhar perdido, ele me lembrasse que eu era só uma estação — não o destino final. Lembrei do primeiro projeto que desenhei sozinha. Uma casa de campo, no interior da França, com janelas imensas e uma cozinha com paredes de pedra. A cliente chorou quando eu mostrei a maquete final. Ela disse que, pela primeira vez, alguém entendeu como ela queria se sentir dentro de uma casa. E eu, naquela época, pensei: Um dia eu vou sentir isso também. Mas eu nunca senti. Construí casas para pessoas encontrarem paz, reencontrarem a si mesmas, recomeçarem. Fiz projetos em cinco países, para famílias inteiras e para pessoas solitárias que só queriam um espaço seu no mundo. E eu? Eu morei em imóveis alugados, depois em apartamentos de fachada elegante. Nunca fui dona de nada que fosse realmente meu. E agora isso pesa. Na volta pra casa, Victor segurou minha mão. Perguntou se eu queria dormir na casa dele. Respondi que não. Que estava cansada. Que queria um banho quente e silêncio. Ele não insistiu. Me deixou na porta do prédio com um beijo longo demais pra uma despedida curta. — Boa noite, amor. — Boa noite, Victor. Entrei no apartamento, tirei os sapatos no corredor e deixei a bolsa sobre o aparador. A luz do abajur ainda estava acesa, projetando sombras nos livros empilhados perto da janela. Me sentei na poltrona e fiquei ali. Só. Por longos minutos. A vida aqui não me cabe mais. Não sei se algum dia coube. Talvez porque eu sempre estive ocupada demais fazendo caber os outros. E então aconteceu. Naquela mesma semana, precisei revisar algumas documentações antigas com meu advogado. Assuntos relacionados à herança deixada pelo meu marido. Pela primeira vez em anos, me permiti abrir pastas que haviam ficado guardadas desde que ele morreu. Foi assim que descobri o terreno. No Brasil. Um pedaço de terra registrado em meu nome, comprado por ele em silêncio — talvez como surpresa, talvez como promessa, talvez como um plano para depois que tudo passasse. Só que ele se foi. E o terreno ficou. Naquele momento, algo em mim se acendeu. Passei a noite em claro, desenhando. Não para um cliente. Não para um concurso. Mas pra mim. Desenhei a casa dos meus sonhos. Uma sala aberta com vista para as montanhas. Um quarto com varanda. Um ateliê cheio de janelas. Uma cozinha onde caberia silêncio e vinho. Desenhei um lar que nunca existiu. Mas que, de repente, parecia a única coisa que ainda fazia sentido. Talvez seja hora de ir. Não por fuga. Mas por encontro. Abri o notebook e digitalizei os primeiros traços. Passei os rascunhos a limpo com calma, escolhendo a base da planta com a mesma delicadeza de quem monta um altar. Abri pastas antigas com referências que salvei há anos, para um dia que nunca chegava. Mas agora... era só por mim. Escolhi janelas largas, que deixassem o sol entrar e o vento também. Portas de madeira maciça, com ferragens rústicas. Paredes brancas com detalhes em pedra. Um tom de verde-musgo pra sala. Um azul profundo no quarto. Texturas naturais. Piso de cimento queimado e tapetes de fibra trançada. Criei um canto de leitura, com vista pra uma janela voltada para o leste. Um banco de madeira sob uma árvore que nem plantei ainda. E uma pequena ponte sobre um córrego — não existia no terreno, mas imaginei que, se houvesse, era onde eu pisaria pra me lembrar de quem eu sou. Fui salvando cada detalhe no projeto. Iluminação. Vegetação. Até o tipo de maçaneta. Quando percebi, o céu lá fora já clareava devagar. Eram três da manhã. Olhei para a tela. O projeto final piscava diante de mim, ainda sem renderização, ainda em bruto. Mas era real. Era vivo. E era meu. Me levantei devagar, com a vista embaçada. Encostei a testa na janela da sala e deixei as lágrimas escorrerem sem aviso. Pela primeira vez em muitos anos, eu não construía para alguém. Não pra vender. Não pra entregar em evento. Não pra ser publicada em revista. Essa casa não era obra. Era abrigo. E, enfim… eu teria onde morar. "Mas será que eu realmente tenho coragem de largar tudo? Será que eu ainda consigo começar do zero?"
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