Capítulo 3
Porque às vezes a dor vem com gosto de liberdade
Às oito da manhã, eu já estava na empresa.
Cheguei mais cedo do que o habitual, ainda com o coração leve, sem saber exatamente por quê.
Paris estava nublada, o céu carregado daquele cinza pálido de fim de inverno, mas, pra mim… parecia que o sol estava brilhando só do lado de dentro.
Era uma sensação estranha — como se algo tivesse se ajeitado durante a madrugada.
Eu não sabia dar nome ainda, mas sentia que estava prestes a mudar.
Às onze da manhã, recebi a ligação que selou meu último grande projeto ali:
— Você foi escolhida para liderar o projeto do resort em Abu Dhabi. É um pedido pessoal do cliente.
Um sheik. Um império. Um resort de luxo em meio às dunas.
Assenti, agradeci, e desliguei com um sorriso calmo.
Quando esse resort estiver pronto, pensei, talvez eu o visite. Como turista. Não como arquiteta.
Naquele instante, resolvi fazer uma surpresa para o Victor.
Almoçaríamos juntos. Eu celebraria com ele a conquista.
Talvez até contasse sobre o terreno… sobre a casa.
Cheguei ao prédio dele vinte minutos depois. Pedi à secretária que não me anunciasse.
Queria vê-lo de surpresa. Abraçá-lo por trás. Dizer alguma frase boba.
Entrei direto, como sempre fiz.
A porta… não estava trancada.
Mas o que encontrei… me congelou.
Não sei bem o que senti primeiro.
Decepção?
Raiva?
Ou um estranho… e perigoso… alívio?
Victor estava de pé, entre gemidos baixos e movimentos descompassados, com uma mulher sentada em sua mesa.
A saia dela estava na cintura. A calcinha… puxada de lado.
Ele… com os olhos fechados, a boca entreaberta, gemendo um nome que, definitivamente… não era o meu.
Quando me viu… empalideceu.
A mulher abaixou a cabeça e saiu, quase tropeçando nos próprios saltos.
Victor puxou a calça, ajeitou a camisa com pressa, tentando recuperar a dignidade que havia escorrido pelo chão.
— Helena… eu… isso… isso não significa nada! Foi só uma fraqueza. Eu não sei o que me deu…
Eu me sentei.
Com calma.
Cruzei as pernas. Respirei fundo.
Meu coração batia firme… mas não descompassado.
Nenhuma lágrima. Nenhuma súplica. Apenas… certeza.
— Victor… — comecei, com a voz baixa, firme — foi um prazer o que vivemos até aqui.
Obrigada pelas risadas. Pelo vinho. Pelas noites de calma.
Ele tentou se aproximar, balbuciando meu nome.
— Agora… — continuei, me levantando — cada um segue sua vida. Tá?
Parei na porta. Me virei uma última vez.
— Só te peço… com toda a educação que ainda tenho… e acredito que você ainda tenha também… não me procure.
E saí.
Na rua, o céu de Paris continuava nublado.
Mas dentro de mim… o sol brilhava como nunca.
Saí do prédio com passos firmes, mas com o corpo levemente inclinado pra frente…
Como se eu estivesse saindo de um incêndio emocional que ainda deixava fumaça atrás de mim.
Caminhei pelas ruas de Paris como quem foge de uma explosão que ninguém viu, mas que me carbonizou por dentro.
Meus olhos estavam secos.
Secos demais.
E isso… isso me incomodou mais do que a própria traição.
Virei a esquina e entrei num café pequeno, de esquina, com a vitrine embaçada e um aroma de canela que parecia um abraço.
Pedi um cappuccino.
Sentei sozinha na mesa do canto, encostada na parede.
Olhei pra rua enquanto o barista preparava a bebida.
Tentei pensar no Victor.
Tentei buscar mágoa. Raiva.
Mas tudo o que encontrei… foi alívio.
Não por ter sido traída.
Mas porque… talvez eu já estivesse cansada de mentir pra mim mesma também.
Ele não era o homem da minha vida.
E eu sabia disso.
Sabia desde o começo.
Mas aceitei.
Aceitei porque era confortável.
Porque não era abusivo.
Porque era melhor do que a solidão… ou, pelo menos, parecia.
Mas agora, ali… com o cappuccino entre as mãos e o gosto doce da espuma nos lábios… tudo começou a fazer sentido.
A traição dele tinha sido o que faltava.
A desculpa perfeita.
O empurrão.
O sinal.
Não foi dor.
Foi libertação.
Não chorei.
E talvez… talvez isso tenha me assustado mais do que se eu tivesse desabado ali mesmo, entre a xícara e o guardanapo.
Levantei.
Saí.
E segui andando até encontrar uma praça próxima.
Daquelas com bancos antigos de ferro… e árvores espalhadas como braços abertos.
Sentei em um dos bancos… e deixei o mundo acontecer ao meu redor.
Crianças corriam entre as folhas secas… rindo alto… tropeçando em seus próprios passos.
Dois idosos dividiam um saco de migalhas com pombos… rindo baixinho de cada disputa desajeitada.
Casais passavam de mãos dadas… com casacos pesados… cachecóis enrolados com carinho um no outro.
Alguns… davam selinhos rápidos, quase tímidos.
Outros… se olhavam como se mais ninguém existisse.
E eu… fiquei ali.
Observando tudo aquilo como quem vê um filme antigo.
Bonito…
Mas que não me pertence mais.
Pensei que talvez o amor… não fosse mais pra mim.
Talvez o que a vida tinha destinado pra mim fosse aquilo:
Um grande amor que existiu… que foi bom… e que partiu cedo demais.
E depois disso… mais nada com real profundidade.
E… tudo bem.
Nem todo mundo nasceu pra ter dois grandes amores.
Nem todo mundo tem a sorte de viver uma paixão depois dos quarenta… que te resgate… que te bagunce… que te refaça.
Amar hoje em dia… exige coragem demais.
Presença demais.
Entrega demais.
E sinceramente… não é qualquer um que sabe amar.
Amar é cuidar.
É escutar o outro quando ele não tem forças pra falar.
É ser chão quando o outro desaba.
É ser colo, riso, verdade.
É saber a hora de fazer amor… mas também saber a hora de só segurar uma mão suada de medo.
E eu…
Eu sou tudo isso.
Fui tudo isso.
Mas ele…
Ele se foi.
A única pessoa que soube me amar de verdade.
Meu marido.
O único homem que olhou pra mim… como se eu fosse a casa que ele queria morar.
E desde que ele se foi… tudo tem sido abrigo temporário.
Talvez agora… seja hora de parar de buscar.
Talvez agora… seja hora de voltar.
De me dar um lugar.
Não um novo amor.
Mas um lugar.
Uma casa.
Um chão.
Um teto que seja meu.
E, principalmente…
Meu silêncio.
Voltei pra casa antes do pôr do sol.
O céu seguia cinza, mas a cidade parecia mais leve do que de manhã.
Larguei a bolsa no sofá, tirei o casaco e fui direto até a escrivaninha.
Abri o notebook.
A tela iluminou meu rosto com aquele fundo branco onde o projeto da minha casa ainda estava aberto.
O desenho da varanda.
O traço da porta de entrada.
A posição da janela onde eu queria colocar uma poltrona de leitura.
Fiquei olhando pra aquilo como quem olha pra um velho amigo… ou pra um lugar onde, talvez, eu finalmente fosse caber.
Passei os dedos pela tela, como se pudesse tocar as linhas.
Respirei fundo.
E sussurrei só pra mim:
— Agora é você por você, Helena.
E pela primeira vez em muito tempo… sorri.
Não um sorriso de fachada.
Não um sorriso de quem está fingindo estar bem.
Sorri… como quem, depois de anos… finalmente… escolhe voltar pra casa.