O PREÇO DE VIVER BEM DEMAIS

1026 Words
Capítulo 4 Às vezes, o sucesso tem gosto de nada Quarenta anos. Essa é a idade que carrego no peito como se fosse peso. Quarenta anos de controle, de cálculo, de previsões que nunca erram. Me chamo Arthur Delgado. Trabalho há quinze anos na mesma área, fazendo o mesmo tipo de coisa, com as mesmas pessoas que usam os mesmos ternos, falam as mesmas frases e traem as mesmas esposas com as mesmas mulheres de vinte e poucos anos. Estava com a cabeça apoiada na mesa quando a luz do computador piscou. Não era cansaço físico. Era algo mais fundo. Um cansaço existencial. Passei a mão no rosto, respirei fundo e encarei a tela como se ela fosse me oferecer algo diferente dessa vez. Mais uma reunião. Mais uma noite com aqueles homens. Eu sabia exatamente como ia ser: Um jantar formal. Conversas sobre investimentos de fachada. Depois? Charuto, champanhe, acompanhantes… e drogas escondidas nas entrelinhas. Essas reuniões são só um disfarce para o mesmo espetáculo de sempre: homens ricos tentando preencher seus vazios com excesso. E eu? Sou a mina de ouro deles. Sou o cara que calcula, que resolve, que transforma fortunas em impérios. Ajudo milionários a virarem bilionários. Gente que já tem tudo… mas ainda quer mais. Dizem que sou frio. Alguns falam com admiração, outros com medo. Eu não me vejo assim. Apenas... não sinto o que todo mundo parece sentir. Cada vez que entro numa dessas salas, sinto o cheiro da decadência: Charutos importados misturados com perfume caro que me enjoa. O cheiro de sexo usado. A risada falsa. A ambição que grita sem dizer palavra. Não. Essa não é a vida que eu quero. Eu não sei exatamente qual é… Mas sei que não é essa. Minha mãe, antes de morrer, me disse que eu precisava de um amor. Ela me olhava com uma mistura de piedade e esperança. Eu ri. Por dentro. Não tive coragem de desmontar o sonho dela. Mas não acredito nisso. Amor? Essa coisa que as mulheres falam com os olhos brilhando? Essa entrega emocional que parece filme? Pra mim, o que elas querem é outra coisa: Conforto. Estabilidade. Um homem que faça um bom sexo e pague o vinho certo. Essa história de “amor de verdade” é bonita… Na ficção. Na vida real? A gente nasce sozinho. E morre do mesmo jeito. Tudo o que eu quero — de verdade — é silêncio. Uma casa no meio do nada. Um cachorro. Um sofá confortável. E paz. Só isso. Mas, claro, não é o que esperam de mim. Hoje à noite, por exemplo: mais uma dessas “reuniões” disfarçadas de happy hour. Uma tentativa social de parecer tudo certo. Ouvi a porta da minha sala se abrir. Heitor. — Oi, Arthur. — Oi, Heitor. Como tá? Ele jogou a mochila no canto e se encostou no batente com aquele jeito despreocupado de quem tem vinte e poucos anos e ainda acredita que tudo pode ser leve. — Cara, acabei de saber que vai ter um happy hour hoje. Você vai? Revirei os olhos. — Estava justamente pensando nisso. Essas festinhas são uma merda. Você olha, parece descontraído, mas no fundo... — Sexo, droga e diversão? — riu ele. — Exatamente isso, cara. E eu não tô com saco pra esse teatro. — Mas o Santiago vai estar lá. Ele quer fazer um investimento grande. Dizem que sua comissão vai triplicar. Quem sabe agora você não se aposenta? — Aposentar? — ri de canto. — Isso parece coisa de velho. — Eu vou, cara. Tô precisando descarregar o estresse. — Que estresse? Você quase nem trabalha! — brinquei, rindo. — Sai fora, seu puto. Eu tenho que montar uma campanha atrás da outra pra trazer mais cliente. Não trabalho? Vai lá fazer o meu job então! Nós dois rimos. Era bom ter Heitor por perto. Ele era... diferente. Ainda tinha esse brilho de quem acredita que tudo pode dar certo. De quem ainda não foi quebrado pelo cinismo do mundo. — Tá, vamos sim. Mas depois que eu falar com o Santiago, eu vazo. — Se eu estiver beijando alguém, pode me deixar pra trás. — ele riu, já saindo. — Certo. Até mais tarde, garoto. Ele acenou com um sorriso e desapareceu pelo corredor. Fiquei ali mais um tempo, olhando a tela. Fechei o notebook com força, como se aquilo fosse um ato de revolta contra a vida que eu mesmo criei. A verdade? Tudo que eu queria… Era não ir. Mas ir… faz parte do papel. E até eu entender como sair disso tudo... Eu sigo fingindo que ainda faço parte. --- [Noite da Festa] Chegamos juntos. Heitor foi sorrindo o caminho inteiro, mexendo no cabelo, ajeitando a gola da camisa como se estivesse indo pra um desfile. Eu, por outro lado, já me arrependia de ter saído de casa. Entramos no bar com música alta, luzes difusas e cheiro de bebida misturado com perfume caro. O tipo de ambiente que me cansava antes mesmo de sentar. Nos acomodamos no balcão. — Dois whiskys, por favor — disse Heitor ao barman. — Puro — acrescentei. Enquanto esperávamos, meus olhos vasculharam o salão. Vi um grupo de executivos do setor de tecnologia. Duas influenciadoras. E... Bufei. — Aff... ela tá aqui. — Quem, cara? — perguntou Heitor, já curioso. — Camila. Transamos algumas vezes. Agora ela quer compromisso. Mas, cara… eu não sinto absolutamente nada por ela. Heitor arqueou uma sobrancelha, divertido. — Nada? — Nada. Pra te dar uma ideia... t***o por ela só se eu estiver seco, solitário e ela nua na minha frente. Heitor soltou uma gargalhada. — Aí fudeu, Arthur. O t***o tem que vir já na imaginação, mano! Tem que olhar a saia e já imaginar a b***a. Ver a blusa e já visualizar os s***s por baixo. Se não pega fogo no pensamento, não pega no corpo. Sorri de canto, bebendo o primeiro gole do whisky. — Exatamente isso. E, pela primeira vez naquela noite… eu admiti pra mim mesmo: O problema não era Camila. Não era o bar. Nem a vida noturna. O problema… Era eu.
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